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MENSAGEM AO POVO CRISTÃO DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE, NO ENCERRAMENTO DO
BICENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE SANTO ANTÓNIO MARIA CLARET
Aos sacerdotes, religiosas e religiosos, catequistas, animadores de
movimentos e grupos, voluntários leigos, e todo o santo povo de Deus, em São
Tomé e Príncipe:
Escrevo esta Mensagem, por ocasião do
encerramento dos 200 anos do nascimento de Santo António Maria Claret,
fundador duma Congregação Missionária, a quem esta Igreja tanto deve, e no
ano dedicado a São Paulo, o grande apóstolo das nações. Neste apelo a
imitarmos hoje o ilustre missionário apostólico do século XIX, não
pretendo fazer grandes reflexões, mas antes deixar que nos fale o Santo,
através dos seus escritos.
1. “Nascido
para evangelizar”
Santo António Maria Claret
nasceu a 23 de Dezembro de 1807, no seio duma família numerosa, “honrada” e
profundamente cristã. Aí cresceu em sabedoria e graça. No seu lar, aprendeu
a vida e aprendeu a fé, despertou para o amor a Deus e ao próximo.
Aos cinco anos, já o
impressionava um pensamento: o da eternidade. A ideia do sofrimento eterno
das pessoas condenadas ao inferno perturbou-o profundamente e será uma das
razões do seu ardor missionário: “Ela me impeliu e impele a trabalhar sem
descanso pela conversão dos pecadores, quer no confessionário e no púlpito,
quer por meio de livros, pagelas, diálogo pessoal.” Novo estímulo
aparecerá mais tarde: o de considerar o pecado como ofensa a Deus, seu
Pai. Escreve: “Ver o meu Pai ofendido e calar-me, não seria crime?”
A espiritualidade
eucarística, a devoção à Mãe do Céu e a vontade de servir Deus e os irmãos,
como sacerdote, foi-as bebendo na casa dos pais, na escola e na igreja.
Como Jeremias, Isaías ou
São Paulo, poderia afirmar que “o Senhor o chamou desde o ventre materno
para levar a Boa Nova aos povos”. O Senhor, efectivamente, foi-o preparando,
desde muito cedo, para o tornar o grande missionário que todos reconhecemos.
2.
Sacerdote
Pequeno ainda, António já
sonhava com o sacerdócio; mas, não foi fácil realizar esse ideal. Acabada a
instrução primária, começou a receber aulas de latim, mas o seu professor
morreria quase logo. O pai, então, empregou-o na sua pequena fábrica de
têxteis.
O jovem revelou qualidades
extraordinárias para a tecelagem e fina sensibilidade para lidar com os
trabalhadores. Isto levou-o a pedir ao pai que o deixasse ir para Barcelona,
a fim de se aperfeiçoar na indústria têxtil. Tal era a sua
competência, que empresários do ramo se mostraram interessados em contar com
a sua colaboração! Mas os caminhos de Deus não são os nossos! António, sem
saber bem porquê, foi recusando as propostas que lhe iam sendo lançadas. E
um dia, na santa missa, veio-lhe à ideia a seguinte passagem do Evangelho:
Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se afinal perder a sua
alma? Este pensamento, associado a outros acontecimentos da sua vida,
fê-lo abandonar os seus projectos industriais e pedir para ser admitido no
Seminário de Vic, sua diocese. Concretizava, deste modo, o sonho da
infância: o sacerdócio!
3.
Vida paroquial
No dia 13 de Junho de 1835
foi ordenado padre e enviado, como coadjutor, para Sallent, sua terra natal.
Fez um programa de vida, que ainda hoje nos edifica:
“Praticava dez dias de
Exercícios espirituais anualmente. Confessava-me cada semana e jejuava
sextas e sábados.
Erguia-me cedo e fazia a meditação, antes de sair de casa. À tarde,
repetia-a com a minha irmã Maria e um empregado idoso. Rezávamos também o
terço, juntos.
Pregava todos os domingos e festas. Celebrava diariamente a Eucaristia,
muito cedo, e, a seguir, atendia as pessoas no confessionário.
À tardinha, dava uma volta pelas ruas principais da freguesia e visitava os
doentes.
Não perdia tempo em casas particulares, mesmo de gente da minha família, que
tinha lá muita. Amava e servia a todos igualmente, pobres ou ricos, parentes
ou estranhos, de Sallent ou de fora. Dia e noite, de verão e de inverno,
estava sempre às ordens!
Ia também com frequência às casas de campo dos arredores.
Enfim, trabalhava o mais possível. O povo correspondia e fazia progressos na
vida cristã.”
Este programa
claretianomerece ser meditado pelos sacerdotes, a fim de aprenderem a
alimentar a própria vocação com uma profunda vida espiritual e a servir o
povo de Deus com zelo, disponibilidade e sem distinção de pessoas.
4.
Missionário
Ser pároco não era
verdadeiramente o objectivo de António Claret. Sonhava partir para as
Missões, ardendo em ânsias de entregar a sua vida ao serviço da salvação do
próximo. A biografia de Santos e, sobretudo, a leitura da Sagrada Escritura,
com destaque especial para os livros dos Profetas, inflamavam o seu coração:
“Em numerosos trechos da Sagrada Escritura ouvia o apelo de Deus ao
apostolado missionário da Palavra. O mesmo, na oração. Resolvi, então,
deixar a paróquia e ir a Roma oferecer-me à Congregação para a Evangelização
dos Povos, pronto a ser enviado para qualquer parte do mundo.” E assim
fez, mas foi obrigado a regressar a Espanha, por razões de saúde.
Colocado na paróquia de
Viladrau, na Catalunha, dedica‑se ao cuidado pastoral das pessoas:
“Zelava quanto possível pelo bem espiritual daquela gente. Domingos e dias
santos, explicava o Evangelho na missa do dia e, pela tarde, dava catequese
a crianças e adultos. Visitava os enfermos diariamente.” A partir desta
freguesia, deu início às missões populares, que haveriam de o tornar
conhecido em toda a Espanha. Deixada a paróquia, pôs-se às ordens do seu
Bispo, para ir pregar onde o enviasse. A sua actividade estendeu-se por
várias regiões da Espanha, chegando até às Ilhas Canárias.
5.
O seu confronto com “possessos”
Uma página da
Autobiografia de Santo António Maria Claret pode-nos ajudar, particularmente
no trabalho pastoral em São Tomé e Príncipe. Refere-se ao seu confronto com
pessoas que se diziam possessas do demónio. Roubavam-lhe muito tempo,
implorando-lhe constantemente que as exorcizasse. A verdade é que, diz ele,
“não encontrei uma, entre mil, que eu pudesse afirmar com certeza que
estava possessa. O fenómeno explicava-se por causas físicas e morais.”
Não se passará coisa parecida, em São Tomé? O álcool, a miséria física e
moral, os desequilíbrios psicológicos, os medos motivados pelas crenças
supersticiosas, podem explicar perfeitamente todas as pseudo-possessões, que
possamos encontrar.
Santo António Maria Claret
resolveu o problema da seguinte maneira:
“Quando aparecia algum dito “possesso”, perguntava-lhe se queria mesmo sarar
e estava disposto a fazer o que lhe mandasse. Em caso afirmativo,
impunha-lhe três normas:
1ª Sofrer tudo com muita paciência. (Bastantes deles deixavam-se levar pelo
seu mau feitio. Calma, auto-domínio – era remédio santo).
2ª Abster-se de bebidas alcoólicas. (Embebedavam-se e deitavam as culpas ao
diabo).
3ª Rezar diariamente sete Pai-nossos e Avé-marias em louvor de Nossa Senhora
das Dores e confessar-se e comungar fervorosamente.
Muitos vinham agradecer a cura, ao cabo de alguns dias!
Podemos aprender muito com
esta forma de lidar com casos semelhantes. A superstição, a crença na
possessão diabólica, no mau-olhado, nas pragas e feitiços, invadiram a nossa
terra. Seitas e movimentos religiosos deixam-se levar por aí, com ritos de
cura, a torto e a direito, e vendo possessões diabólicas por tudo quanto é
sítio. Aproveitam-se destas crenças para explorarem as pessoas, deixando-as
na miséria e dominadas pelos seus medos. Temos de nos empenhar seriamente na
luta contra esta série de superstições, apresentando Jesus Cristo como
libertador dos medos e “demónios” que invadem o nosso espírito e evitando
acusar inocentes, tantas vezes apenas porque são idosos e pobres, como
feiticeiros ou causadores de mau-olhado.
6.
Meios de apostolado
Para alcançar os
objectivos pretendidos com a sua acção apostólica - “a glória de Deus e a
salvação das pessoas”, Claret empregava os meios que lhe pareciam mais
adequados. Entre esses, sublinha:
1.
A oração
O primeiro e mais eficaz
meio. Rezava e pedia ao povo para rezar. Fazia da oração o motor de toda a
sua actividade. Como ele diz: “Trabalhava com ardor, como se tudo
dependesse do meu esforço, e, paralelamente, depositava total confiança em
Deus, sabendo que d’Ele está pendente tudo, mormente a conversão dos
pecadores – obra divina por excelência.”
2.
Catequese de crianças e adultos
Claret foi um dos grandes
catequistas da Igreja. Considerava a catequese a base da formação moral e
religiosa. Dizia: “Os que não sabem a doutrina cristã são cegos sem guia,
árvores sem raiz, navegantes sem bússola, soldados sem armas, trabalhadores
sem pão.” Dedicou‑se, por isso, com empenho à catequese de crianças e
adultos, publicando mesmo vários catecismos para apoiar esse trabalho.
3.
Estilo apostólico
Procurava fazer o seu
apostolado com um estilo, que ele diz ter aprendido no Evangelho:
simplicidade e clareza. Lançava mão de comparações, analogias, histórias da
vida e muitos exemplos tirados da Sagrada Escritura.
4.
Bons livros
Eram outro meio
importantíssimo para Claret: “Interessa pôr a circular os livros bons.
Hão-de ser pequenos, porque as pessoas hoje andam muito ocupadas,
solicitadas por mil distracções e actividades.” Ele mesmo distribuiu uma
quantidade imensa de livros, opúsculos, pagelas… Para dar e vender livros a
preços acessíveis, fundou a “Livraria Religiosa”. Escreveu também diversas
obras, algumas com numerosas edições.
5.
Diálogo pessoal
Aproveitava todas as
circunstâncias para falar de Deus às pessoas que encontrava. Assim, dizia,
para além de as levar a conhecer a mensagem do Evangelho, evitavam-se
palavras inúteis, murmurações e outras coisas. Distribuía também
profusamente terços, medalhas e escapulários.
Como Santo António Maria
Claret, também nós devemos servir-nos dos meios mais eficazes para levar ao
mundo a mensagem de Jesus Cristo. Precisamos, pois, de recorrer à oração;
apostar na catequese de crianças, jovens e adultos; usar uma linguagem que
seja compreensível, tendo sempre a Sagrada Escritura como base do nosso
ensino; utilizar com competência os meios de comunicação social: livros,
rádio, televisão, jornais, internet; cultivar o diálogo pessoal, para falar
de Cristo a toda a gente e não perder tempo em conversas fúteis e de crítica
aos outros.
7. Virtudes Apostólicas
Claret afirmava que “o
missionário apostólico deve ser modelo de todas as virtudes”, procurando
ensinar primeiro com o exemplo e depois com a palavra. Salientava as
seguintes:
1.
Amor a Deus e ao próximo
“A virtude mais necessária é o amor. Digo-o, mil e uma vezes: a virtude de
que mais precisa o missionário é o amor. Amor a Deus Pai, a Jesus Cristo, a
Nossa Senhora, ao próximo. Sem amor, inúteis são os mais belos dons; com
muito amor, aliado aos dons naturais, o missionário tem tudo.”
Estas
palavras
recordam-nos São Paulo. Para alcançar esta virtude, Claret aponta os
seguintes meios: Guardar bem os mandamentos da Lei de Deus, observar os
conselhos evangélicos, corresponder fielmente às inspirações divinas, fazer
bem a oração mental, pedir este tesouro escondido até o alcançar, ter fome e
sede desse amor.
2.
Humildade
Claret considera-a o
fundamento de todas as virtudes. Por isso, procurou aprender com Jesus a ser
manso e humilde de coração, reconhecendo que só assim colheria
frutos. Durante muitos anos, levou exame particular sobre esta virtude.
3.
Pobreza
Claret procurou viver com
simplicidade, à maneira de Cristo. Diz na sua autobiografia: “nada
possuía, nada queria, tudo recusava. Bastava-me a roupa que trazia no corpo
e a comida que me davam. Estimulavam-me as palavras de Jesus, que
interiorizava assiduamente: ‘Bem-aventurados os pobres de espírito, porque
deles é o Reino dos Céus!’ Considerava que Jesus nasceu pobre, viveu pobre e
pobre morreu. Em pobreza viveu também Nossa Senhora, e os Apóstolos deixaram
tudo para seguir o Mestre.
Porquê esta opção? Porque
reconhecia que, no seu tempo, não apenas se adorava o “bezerro de ouro”, mas
triunfava o egoísmo e uma busca desmedida do dinheiro. “Tinha de munir-me
da pobreza para defrontar este gigante, cuja omnipotência os mundanos
proclamam!”
A tentação da riqueza, do
bem-estar egoísta, é de ontem e de hoje, e pode afectar qualquer um de nós.
A verdade é que só poderemos anunciar ao mundo a mensagem do Reino de Deus,
optando decisivamente pela pobreza evangélica, manifestada na confiança em
Deus e numa vida simples, austera e solidária com os mais pobres.
4.
Mansidão
Para o Santo, a mansidão
era sinal de vocação apostólica. Pregador que não fosse “manso”
tinha-se enganado no caminho. Afirmava: “Tratados com mansidão, as
pessoas correm a escutar a Palavra de Deus e a confessar-se. Notando
aspereza, ficam em casa a murmurar contra o ministro de Deus. Padre que
trabalha sem mansidão favorece a causa do inimigo. Se prega, afugenta os
ouvintes; se confessa, afasta os penitentes ou leva-os a confessarem-se
mal.”
5.
Modéstia e mortificação
Outras duas virtudes
importantes para o missionário, segundo o Pe. Claret. Por isso, procurou
viver modesto e mortificado “nas coisas grandes e pequenas, na comida e
bebida, no olhar, no ouvir, no andar, etc.”
Para o Santo, o grande
modelo era Jesus Cristo. Com Ele procurou aprender estas virtudes, a fim de
fazer chegar a mensagem da salvação a toda a gente. Imitou-O na humildade,
na obediência, na mansidão e na caridade. Imitou-O na pobreza e no amor ao
próximo. Imitou-O na entrega à oração. Imitou-O na atenção às crianças, aos
pobres, aos doentes e pecadores. Imitou-O na preocupação por fazer em tudo a
vontade do Pai.
Muitos dos desafios que
enfrentou continuam a ser os de hoje. Cabe-nos fazer tudo o estiver ao nosso
alcance para iluminar o mundo com a luz do Evangelho, tendo em vista só a
“glória de Deus e o serviço aos irmãos”. Que o exemplo de Claret nos sirva
de incentivo e de coragem.
São Tomé, 15 de Fevereiro de 2009
+ Manuel António Mendes dos Santos CMF
Bispo claretiano de São Tomé e Príncipe
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