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Há mais de doze anos, precisamente no dia 25 de
Outubro de 1992, celebrávamos, com alegria, a beatificação dos nossos 51
irmãos Mártires de Barbastro.
Vivemos aquele acontecimento como uma grande
graça, que teve ressonâncias positivas na vida de muitos claretianos e
marcou profundamente os que se encontravam no processo de formação inicial.
Muitos jovens escreveram ao Padre Geral, manifestando a sua disponibilidade
para a missão universal da Congregação, motivados pelo testemunho dos
mártires.
Sabemos bem que a experiência martirial da
Congregação não se esgota nos 51 Mártires de Barbastro. Muitos outros irmãos
nossos souberam também entregar as suas vidas ao Senhor e aos irmãos, dando,
com a sua morte, um testemunho da sua fé no Deus da vida. Desde o Padre
Francisco Crusats até o último irmão assassinado para se manter fiel à
missão, claretianos houve, com idades e origens diferentes, que foram
escrevendo a história martirial da Congregação. Eles constituem uma parte
muito importante do nosso património espiritual.
Todos eles
- sacerdotes, irmãos e estudantes - são para nós pontos de referência e
sinais evidentes da dimensão martirial que faz parte da nossa vocação
missionária.
1.
0 PADRE ANDRÉ SOLA MOLIST
O Papa João Paulo
II
quis propor à comunidade dos fiéis, como testemunha do Evangelho, o Padre
André Sola Molist, missionário claretiano catalão, assassinado no dia 25
de Abril de 1927 no Rancho San Joaquín, perto da cidade de León, no México.
Não dispomos de uma biografia detalhada do Padre André Sola. De facto, não
se pode contar muita coisa a seu respeito. Nasceu no município de Taradell,
perto de Vic, berço de nossa Congregação, a 7 de Outubro de 1895. A pregação
de alguns claretianos na sua paróquia natal fez com que descobrisse a
vocação missionária. Professou no dia 15 de Agosto de 1914 em Cervera e foi
ordenado sacerdote em Segóvia no dia 23 de Setembro de 1922. Nas informações
fornecidas pelos formadores, não aparece nada de especial sobre ele; mas, a
sua morte revelará, mais tarde, a solidez da sua opção vocacional e a
radicalidade de uma vida missionária sem realces especiais, mas consumada
até a entrega total.
Destinado à missão universal do Instituto,
encontra no México, aonde chegou no dia 23 de Agosto de 1923, a sua nova
pátria, e nos mexicanos o seu novo povo. Amou-os profundamente como
missionário e não os abandonou no momento difícil da perseguição religiosa,
quando a sua presença junto deles se fazia mais necessária. Soube ser fiel
até ao fim, no serviço pastoral que lhe pedia o povo.
2. 0 CONTEXTO DO
MARTÍRIO
Todos os martírios têm o seu contexto religioso,
social e político. A grandeza do mártir está precisamente em manter-se fiel
aos valores que Jesus lhe propõe no Evangelho e à vocação que o Senhor lhe
deu para viver e dispor ao serviço dos demais. Colocar-se nas mãos e no
coração do Pai e, acima de tudo, buscar o Reino e sua justiça é o que
sustenta o mártir no seu testemunho.
Obviamente, também o martírio do Padre Sota teve o
seu contexto. A Igreja do México viveu momentos difíceis nas relações com o
Estado, ao longo de sua história. A presidência de Plutarco Elías Calles
(1924-1928) contribuiu para a reconstrução do país, depois de um período
caracterizado por confrontos entre movimentos armados e o regresso à
legalidade. Mas, simultaneamente, intensificou a perseguição religiosa. Ele
quis aplicar a Constituição, incluindo artigos anticlericais, reforçados
por novas disposições, claramente atentatórias ao direito de liberdade
religiosa: proibição do exercício do ministério aos sacerdotes estrangeiros,
direito de cada governador limitar o número de sacerdotes, etc.
O povo do México sentiu-se profundamente agredido
na sua fé e cultura. Alguns grupos de católicos organizaram-se num
movimento de resistência que englobava várias classes e com grande
capacidade organizativa. Em Bajío (especialmente nos Estados de Guanajato e
Jalisco, de profunda tradição católica), muitos empunharam armas para
defender sua fé e cultura.
Os sacerdotes, em geral, não apoiavam o movimento
armado. A grande maioria deles teve que abandonar as paróquias e exercer o
ministério clandestinamente. O governo perseguia-os: expulsou vários
estrangeiros e fuzilou cerca de uma centena deles, principalmente em Bajío.
Em León (Guanajato) - onde se deu o martírio do Padre Sola e dos seus
companheiros - foram fuzilados dezoito sacerdotes.
Os nossos
mártires foram acusados falsamente de terem participado no ataque que, na
noite de 23 a 24 de Abril, fez descarrilar o comboio que se dirigia da
cidade do México para a cidade Juárez. Era o que afirmava o general Sánchez,
em telegrama ao general Amaro, ministro da guerra: "Surpreendi três
religiosos, num complô contra as autoridades constituídas, e três curiosos;
a consequência foi o descarrilamento de ontem". No telegrama, Sãnchez pedia
instruções. A resposta de Amaro foi rápida: "Como castigo, fuzile os
religiosos no local dos acontecimentos e liberte os outros". Obviamente, os
nossos mártires nada tiveram a ver com o descarrilamento do comboio. Foi
tudo um pretexto para dar um ar de formalidade ao assassínio dos três.
O certo é que o sacerdote diocesano, Trinidad
Rangei, e o claretiano, Padre André Sola, foram detidos por serem
sacerdotes, e também o leigo Leonardo Pérez, porque os soldados pensavam que
fosse padre. Isso aparece bem claro, no momento da detenção. O Padre Sola
foi preso, por terem descoberto uma fotografia em que aparecia vestido com
as vestes litúrgicas, dando a primeira comunhão a uma menina.
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