Celebração de Beatificação
20 de Novembro de 2005

CLARETIANO MÁRTIR NO MÉXICO

 

 Pe. André Solá Molist

 

Há mais de doze anos, precisamente no dia 25 de Outubro de 1992, celebrávamos, com alegria, a beatificação dos nossos 51 irmãos Mártires de Barbastro.

Vivemos aquele acontecimento como uma grande graça, que teve ressonâncias positivas na vida de muitos claretianos e marcou profundamente os que se encontravam no processo de formação ini­cial. Muitos jovens escreveram ao Padre Geral, manifestando a sua disponibilidade para a missão uni­versal da Congregação, motivados pelo testemunho dos mártires.
 

Sabemos bem que a experiência martirial da Congregação não se esgota nos 51 Mártires de Barbastro. Muitos outros irmãos nossos souberam também entregar as suas vidas ao Senhor e aos irmãos, dando, com a sua morte, um testemunho da sua fé no Deus da vida. Desde o Padre Francisco Crusats até o último irmão assassinado para se manter fiel à missão, claretianos houve, com idades e origens diferentes, que foram escrevendo a história martirial da Congregação. Eles constituem uma parte mui­to importante do nosso património espiritual.

 

Todos eles - sacerdotes, irmãos e estudantes - são para nós pontos de referência e sinais evi­dentes da dimensão martirial que faz parte da nossa vocação missionária.

 

 

1. 0 PADRE ANDRÉ SOLA MOLIST

O Papa João Paulo II quis propor à comunidade dos fiéis, como testemunha do Evangelho, o Padre André Sola Molist, missionário claretiano catalão, assassinado no dia 25 de Abril de 1927 no Rancho San Joaquín, perto da cidade de León, no México. Não dispomos de uma biografia detalhada do Padre André Sola. De facto, não se pode contar muita coisa a seu respeito. Nasceu no município de Taradell, perto de Vic, berço de nossa Congregação, a 7 de Outubro de 1895. A pregação de alguns claretianos na sua paróquia natal fez com que descobrisse a vocação missionária. Professou no dia 15 de Agosto de 1914 em Cervera e foi ordenado sacerdote em Segóvia no dia 23 de Setembro de 1922. Nas informações fornecidas pelos formadores, não aparece nada de especial sobre ele; mas, a sua morte revelará, mais tarde, a solidez da sua opção voca­cional e a radicalidade de uma vida missionária sem realces especiais, mas consumada até a entrega total.

 

Destinado à missão universal do Instituto, encontra no México, aonde chegou no dia 23 de Agosto de 1923, a sua nova pátria, e nos mexicanos o seu novo povo. Amou-os profundamente como missionário e não os abandonou no momento difícil da perseguição religiosa, quando a sua presença junto deles se fazia mais necessária. Soube ser fiel até ao fim, no serviço pastoral que lhe pedia o povo.

 

 

2. 0 CONTEXTO DO MARTÍRIO

Todos os martírios têm o seu contexto religioso, social e político. A grandeza do mártir está precisamente em manter-se fiel aos valores que Jesus lhe propõe no Evangelho e à vocação que o Senhor lhe deu para viver e dispor ao serviço dos demais. Colocar-se nas mãos e no coração do Pai e, acima de tudo, buscar o Reino e sua justiça é o que sustenta o mártir no seu testemunho.

 

Obviamente, também o martírio do Padre Sota teve o seu contexto. A Igreja do México viveu momentos difíceis nas relações com o Estado, ao longo de sua história. A presidência de Plutarco Elías Calles (1924-1928) contribuiu para a reconstrução do país, depois de um período caracterizado por confrontos entre movimentos armados e o regresso à legalidade. Mas, simultaneamente, inten­sificou a perseguição religiosa. Ele quis aplicar a Constituição, incluindo artigos anticlericais, reforça­dos por novas disposições, claramente atentatórias ao direito de liberdade religiosa: proibição do exercício do ministério aos sacerdotes estrangeiros, direito de cada governador limitar o número de sacerdotes, etc.

 

O povo do México sentiu-se profundamente agredido na sua fé e cultura. Alguns grupos de cató­licos organizaram-se num movimento de resistência que englobava várias classes e com grande capa­cidade organizativa. Em Bajío (especialmente nos Estados de Guanajato e Jalisco, de profunda tradição católica), muitos empunharam armas para defender sua fé e cultura.

 

Os sacerdotes, em geral, não apoiavam o movimento armado. A grande maioria deles teve que abandonar as paróquias e exercer o ministério clandestinamente. O governo perseguia-os: expulsou vários estrangeiros e fuzilou cerca de uma centena deles, principalmente em Bajío. Em León (Guanajato) - onde se deu o martírio do Padre Sola e dos seus companheiros - foram fuzilados dezoito sacerdotes.

 

Os nossos mártires foram acusados falsamente de terem participado no ataque que, na noite de 23 a 24 de Abril, fez descarrilar o comboio que se dirigia da cidade do México para a cidade Juárez. Era o que afirmava o general Sánchez, em telegrama ao general Amaro, ministro da guerra: "Surpreendi três religiosos, num complô contra as autoridades constituídas, e três curiosos; a consequência foi o descarrilamento de ontem". No telegrama, Sãnchez pedia instruções. A resposta de Amaro foi rápida: "Como castigo, fuzile os religiosos no local dos acontecimentos e liberte os outros". Obviamente, os nossos mártires nada tiveram a ver com o descarrilamento do comboio. Foi tudo um pretexto para dar um ar de formalidade ao assassínio dos três.

 

O certo é que o sacerdote diocesano, Trinidad Rangei, e o claretiano, Padre André Sola, foram detidos por serem sacerdotes, e também o leigo Leonardo Pérez, porque os soldados pensavam que fosse padre. Isso aparece bem claro, no momento da detenção. O Padre Sola foi preso, por terem descoberto uma fotografia em que aparecia vestido com as vestes litúrgicas, dando a primeira comunhão a uma menina.

Este é o contexto, descrito em breves pinceladas, no qual se enquadra o martírio do nosso irmão. Será importante recuperar agora, no que for possível, o processo da sua experiência martirial, para descobrir o sentido que tem hoje para nós.