S. PAULO
I e II TESSALONICENSES

 

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TEMA 1: COMUNIDADE ALTERNATIVA

 

                                                                                       CHAVE BÍBLICA

1. NIVEL HISTÓRICO

 

1.1. Primeira geração em Tessalónica

1.1.1 O nascimento da comunidade

Não é de estranhar que para um viajante, como Paulo, que divide o mundo em “cidade, deserto e mar” (2Col11,26), ocupem lugar de relevo as cidades situadas nas rotas imperiais. Junto a portos como Corinto e Éfeso, a história de Paulo está ligada a duas grandes rotas terrestres: “o caminho comum” que conduzia de Antioquia até ao Ocidente da Ásia Menor e a “via Egnatia”, rota principal entre Roma e o Oriente. Esta, partindo de dois portos da actual Albânia, chegava até Bizâncio, depois de atravessar Tessalónica e Filipos. 

A primeira destas cidades, um dos mais importantes centros comerciais da Grécia romana, era ponto de encontro da mencionada Via com o caminho para o Danúbio e com uma das rotas marítimas do mar Egeu que partia desde o seu porto, situado no golfo Térmico. Capital de uma das regiões da Macedónia em 167 a. C., foi promovida a capital da província inteira em 146 a. C. Sob o domínio romano, a cidade conservou as suas características helénicas na sua forma de governo com uma assembleia de cidadãos, direito de cunhar moeda e exclusão de guarnições militares, do ocupante militar, dentro das muralhas.

A cidade possuía, além disso, uma importante indústria de tinturaria de púrpura. Esta indústria favoreceu a formação de uma povoação cosmopolita onde é possível constatar a presença, primeiramente, de grupos egípcios e, depois, de judeus e outras etnias.

A origem da comunidade de Tessalónica está marcada pela sorte de Paulo, na fortemente latinizada Filipos, que, juntamente com a hospitalidade, lhe ofereceu a possibilidade de estabelecer múltiplas relações que lhe serviriam de apoio, inclusive financeiro, para a sua missão.

As expressões: “depois de ter padecido sofrimentos e injúrias em Filipos” (1Ts 2,2; Act 16, 12-24) e “Já por duas vezes mandastes para Tessalónica o que era necessário” (Fil 4,16; cf. 2Cor 8,1-6; 11,8s; Rom 15,26), são testemunhos que lançam luz sobre a estadia de Paulo em Tessalónica.

Esta cidade era, entre outros centros, um lugar privilegiado para ter acesso a uma nova cosmovisão nascida ainda no tempo do império de Alexandre. “Cidadão de uma notável cidade de Cilícia” (Act 21,39), Paulo faz parte de um novo mundo que dependia da cidade para a sobrevivência, conseguida, no caso do Apóstolo, graças ao trabalho das suas próprias mãos.

Os seus contactos étnicos e de trabalho permitiram a Paulo transladar-se para a cidade uma vez que não lhe era difícil encontrar emigrantes com os quais tinha pontos comuns. Por outro lado, a cidade possibilitava-lhe a expansão da sua mensagem uma vez que a maior parte da vida citadina se desenvolvia nas ruas, praças e pórticos.

 

1.1.2. Lugar, tempo e data da Carta

Depois de partir de Tessalónica, Paulo dirigiu-se para o Sul. Em Atenas, recebeu notícias não muito animadoras sobre a situação da comunidade de Tessalónica. Dali envia uma carta a Timóteo para que verificasse o que se passava e, no seu regresso, estando Paulo já em Corinto e com a informação que desmentia as notícias que tinha recebido, decide-se a escrever aos Tessalonicenses uma carta cheia de alento e de conforto. A data da Carta coincide com a discutida cronologia da estadia de Paulo em Corinto.

As notícias do encontro com Áquila e Priscila e a presença de Galião em Corinto são elementos que se devem ter em conta para esta datação. O primeiro destes dados coloca-nos perante a expulsão dos judeus de Roma, ordenada por Cláudio que, segundo a opinião mais provável, deveria colocar-se por volta dos anos 49/50 da era cristã.  Por outro lado, a presença de Galião, em Corinto parece coincidir como último período da estadia de Paulo na cidade. Numa inscrição de Delfos fala-se deste irmão de Séneca como (pro) cônsul de Acaia. O número 26 que aparece nesta inscrição deve referir-se à ordem de aclamações do referido imperador, e, portanto, ter a sua origem nos princípios de ano 52. Por isso mesmo é provável que a Carta tenha sido escrita no ano 51.

 

1.1.3. A verdadeira situação da comunidade

Um dado que nos é transmitido na Carta: “Vós, irmãos, tornaste-vos imitadores das Igrejas de Deus, que estão na Judeia em Cristo Jesus. Porquanto, também vós sofrestes da parte dos vossos compatriotas o mesmo que eles sofreram da parte dos judeus” (1Ts 2,14; cf. 1,9), parece indicar que a comunidade estava composta, fundamentalmente, por elementos não judeus. Isto é confirmado pelos poucos nomes de pessoas singulares de Tessalónica que conhecemos. Junto de Jasão, que aparece na acusação dos judeus de Tessalónica, como quem “os hospedou” (Act 17,7), somente se mencionam, como originários de Tessalónica, a Aristarco e Secundo em Actos 20,4. Dois nomes gregos e um latino que apontam para uma comunidade composta, etnicamente, por não judeus.

Trata-se, provavelmente, de uma comunidade formada essencialmente por artesãos, como faz supor a frequente referência ao trabalho. São, portanto, cidadãos que não partilham do medo dos camponeses pelo mundo citadino nem da orgulhosa segurança dos notáveis da cidade. A eles, que experimentam a adversidade dos seus compatriotas, Paulo, impossibilitado de se fazer presente, exprime sentimentos de ternura, derivados do destino comum de perseguição e trabalho, para os alimentar na fidelidade. 

 

1.2. Segunda geração cristã

A segunda Carta aos Tessalonicenses reproduz termos e fórmulas da Primeira Carta. Sem dúvida, a diferencia-se desta, pelo tom impessoal, e os temas, sendo os mesmos, recebem um tratamento diferente: a vinda do Senhor é apresentada de forma “dualística” e o ânimo aos destinatários assume, na crise comunitária, a forma velada de aviso perante o juízo futuro.

A colocação sob o nome de Paulo da Segunda Carta responde ao desejo de encontrar uma resposta autorizada sobre uma situação que apresenta algumas características comuns com a Primeira Carta. Trata-se, sem dúvida, das preocupações de uma segunda geração perante a oposição de um ambiente diferente dos destinatários da Primeira Carta e numa época em que existem tensões internas pela demora da parusía. Através da apresentação que faz dos tempos e momentos da vinda do Dia do Senhor, das tribulações, do alarmismo apocalíptico e das tendências para o parasitismo, podemos descortinar alguns traços de uma comunidade diferente, situada num lugar que não conseguimos determinar.

             

1.2.2. As crises

As “tribulações”. O discurso sobre a vinda do Senhor fundamenta um duplo futuro: alívio para os crentes e aflição e ruína eterna para os incrédulos. Procura-se situar este duplo futuro na perspectiva de uma exortação que sirva de conforto e de advertência. O aspecto disciplinar da última secção da Carta é tratado nesta perspectiva.

A “turbulência interna”. A comunidade a quem a Carta é dirigida sofre uma crise de cariz apocalíptico. Há confusão, perturbação e alarmismos que levam as pessoas a demitir-se das suas responsabilidades laborais. Trata-se, talvez, de um contexto sociocultural, favorecido pelo patronato romano, em que os membros mais desprotegidos transferem para a comunidade hábitos suscitados por tal prática.

 

2. NÍVEL LITERÁRIO

 

2.1. Os géneros 

2.1.1. A fórmula inicial

A fórmula inicial das Cartas apresenta o nome do remetente, do destinatário e uma saudação. Continua com a acção de graças que comporta os termos “dar graças” e “sempre” unidos às orações pelo destinatário e às felicitações (ou bênção de Deus).

Um traço característico no epistolário paulino é a extensão, desproporcionalmente longa, do agradecimento inicial. Inserido num contexto cristológico e teológico, aparece no mesmo uma linguagem rica e afectiva, fundamentada em laços pessoais entre o autor e os destinatários, que supera as expressões estereotipadas de sentimentos de amizade próprios das cartas comuns.

2.1.2. A apocalíptica

            Este tipo de escrita aparece frequentemente no epistolário paulino (cf.1Ts 4,13 - 5,11; 2Ts 2,1-12; 1Cor 15,12-53) e pretende consolar e animar os leitores oprimidos pelas angústias presentes. Perante a situação do mundo, submetido ao poder da maldade, no qual o pecado triunfa e os bons são perseguidos, apresenta-se um tempo de salvação com traços fortes e enérgicos. Os textos têm um fim eminentemente prático: fortalecer os fiéis para que sejam capazes de testemunhar a sua fé nas dificuldades presentes, convidando-os a confiar na Providência de Deus. Com isso pretende recordar aos fiéis que, apesar das trágicas angústias do presente, que parece conduzirem o mundo para o triunfo definitivo de Satã, Deus, Senhor da História, condu-la sabiamente para um fim feliz.

 

2.2. Linguagem

2.2.1. "Noite", "Tribulação"

Noite”, unida ao dia, aparece como significado de “ininterruptamente” para indicar tanto uma das características do trabalho (1Ts 2,9; 2Ts 3,8) como o ardente desejo paulino de se encontrar com os seus destinatários. “Noite e dia lhe dirigimos as mais instantes súplicas, para que possamos ver o vosso rosto e reparar as deficiências da vossa fé” (1Ts 3,10). A expressão “noite e dia” é usada, por quatro vezes, em 1Tessalonicences, − 5, num contexto apocalíptico. No referido capítulo a situação presente é referida como “noite” para indicar uma certa segurança que se apresentará como ilusória “o dia do Senhor virá como um ladrão, de noite” (1Ts 5,2); “porque os que dormem, dormem de noite, e os que se embriagam, embriagam-se de noite (1Ts 5,7). Pelo contrário, os cristãos já vivem na luz do futuro “todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Nós não somos filhos da noite nem das trevas” (1Ts 5,5).

Em ligação como vocábulo anterior aparece “atribular” (1Ts 3,4 e 2Ts 1,6.7) e "tribulação" (1Ts 1,6; 3,3.7; 2Ts 1,4.6). “Recebestes a Palavra de Deus no meio de muitas tribulações” (1Ts 1,6); “ninguém se deixe perturbar por essas tribulações” (1Ts 3,3); “estando ainda convosco já vos predizíamos que havíamos de padecer tribulações” (1Ts 3,4); “nomeio de todas as nossas angústia e tribulações” (1Ts 3,7). Na Segunda aos Tessalonicenses aparece o esquema dualístico a que nos referimos acima. As tribulações por que estão a passar os destinatários (2Ts 1,4) situam-se dentro de uma teologia de retribuição: “Porque é justo aos olhos de Deus dar tribulações àqueles que vos atribulam e avós, que sois atribulados, dar descanso juntamente connosco” (2Ts 1,6-7a).

 

2.2.2. Senhor, Irmãos, Entrada e imagens familiares em 1Tessalonicenses

Característico, na Primeira Carta, é a inusitada presença do vocábulo “Senhor” que no epistolário paulino só aparece em textos muito longos como Coríntios, Romanos e Efésios. Desde o primeiro (1,1) até ao último versículo (5,8) é frequente a presença deste título na cristologia da Epistola. Com ele, considera-se, acima de tudo, o domínio desse senhorio: a próxima “vinda” (2,19; 3,13: 4,15; 5,23); a sua hora: “Dia do Senhor” (5,2); o modo: “descerá do céu” (4,16); e as consequências “vingar-se-á” (4,6), e “…e assim estaremos para sempre com o Senhor” (1Ts 4,17). Justifica-se, deste modo, a atitude da comunidade voltada para o futuro “vossa esperança” no Senhor (1,3), “o Senhor vos faça aumentar e abundar em caridade uns para com os outros” (3,12); “Deus não nos reservou para a ira, mas para a salvação, por Nosso Senhor” (5,9).

Sem dúvida alguma não há esquecimento de que o Senhor é Jesus “que deram a morte ao Senhor Jesus” (2,15) e isso justifica a imitação “do Senhor… nas tribulações” (1,6), a permanência “firme no Senhor” (3,8) e a autoridade do Apóstolo [“nós vos pedimos e recomendamos no Senhor” (4,1); “sabeis que preceitos vos dei, em nome do Senhor Jesus” (4,2); “eis o que vos declaramos, conforme a palavra do Senhor” (4,15); “conjuro-vos, pelo Senhor” (5,27)] e a dos que “vos dirigem no Senhor” (5,12).

Comparando com as restantes Cartas, aumenta ainda mais a proporção em que é utilizado termo “irmãos”, que vem criar um ambiente de familiaridade, acentuado com as imagens da mãe: “como uma mãe que acalenta os filhinhos que anda a criar” (1Ts 2,7b) e do pai “tal como um pai, aos próprios filhos, nós vos exortámos, animámos e esconjurámos (2,11-12ª). Esta familiaridade origina uma semelhança “vós fizeste-vos nossos imitadores … a ponto de vos haverdes tornado um modelo para todos os fiéis de Macedónia e Acaia” (1,6-7), “…tornaste-vos imitadores das Igrejas de Deus, que estão na Judeia” (2,14). A ideia reforça-se com a utilização de “entrada” na dupla dimensão de acolhimento e apresentação, respectivamente sublinhadas em 1,9 e 2,1.

 

2.2.3. Tradições, trabalhar, revelar 2 Tessalonicenses

            Na Segunda Carta é evidente a preocupação pelas “tradições” que os destinatários receberam do Autor da Carta. Devem ser conservadas (2,15). Uma delas domina o horizonte do capítulo terceiro: a obrigação de trabalhar. Recordando-a, o autor remete-se ao seu próprio exemplo (3,8) e contrapõe-na à atitude presente de alguns membros da comunidade (3,11). Exorta-os a que “trabalhem pacificamente, para comerem o pão que eles mesmos tiverem ganho” (3,12), segundo o princípio “quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer” (3,10).

O elemento apocalíptico é o que, sem dúvida, apresenta um vocabulário mais abundante. Os termos da revelação-manifestação aparecem frequentemente. Trata-se da “revelação do Senhor Jesus, descendo do Céu” (1,7), mas adverte, também, para o manifestar-se do (homem) ímpio (2,3.6). Neste contexto fala-se das duas Parusías ou Vindas/Presenças contrapostas: vinda do ímpio (2,9) e vinda do Senhor (2,8) que destruirá o ímpio.

 

3. NÍVEL TEOLÓGICO

3.1. A missão num mundo hostil

Repetidamente se toma a consciência da separação que deve existir entre os cristãos e os “de fora” (1Ts 4,12), que são definidos como “os que não conhecem a Deus” (1Ts 4,5). A integração na comunidade aconteceu quando os Tessalonicenses se converteram “abandonando os ídolos para servir a Deus” (1Ts 1,9).

Esta linguagem supõe uma percepção negativa da sociedade não cristã. Como nos documentos essénios de Qumrân, os filhos da luz estão perante os filhos das trevas “todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Nós não somos filhos da noite nem das trevas (1Ts 5,5).

Estas expressões servem para descrever a hostilidade existente na sociedade. Judeus e pagãos, a respeito dos seus compatriotas cristãos, revelam um mesmo esquema de actuação perante o Senhor Jesus “que deram a morte ao Senhor Jesus” (1Ts 2,15).

Este paradigma produz a identificação de Satanás e os deuses pagãos. A sua acção abarca desde os danos pessoais “já uma e outra vez quisemos ir ter convosco, ao menos eu, Paulo, mas Satanás impediu-nos disso” (1Ts 2,18), até à preocupação com que a comunidade abandone o seu caminho (1Ts 3,5).

Mas, a diferença na concepção e forma de vida adoptada pelos essénios está em que, a comunidade, não rompe com sociedade que a rodeia. O próprio Paulo define o seu trabalho como “pregar aos pagãos para que se salvem (1Ts 2,16).

Luz para compreender esta diferença de perspectiva encontramo-la no encabeçamento da Carta compreendido no seu contexto histórico. Paulo, Silvano e Timóteo dirigem-se ali, à igreja dos Tessalonicenses, cuja nota específica se assinala com “em Deus Pai, e no Senhor Jesus Cristo” fórmula que indica pertença.

O termo “Igreja” (ekklesía) aponta para o ideal democrático de participação na cidadania, embora restrita, que tinha dado origem à cidade (polis) grega. O referido modelo incluía um grupo de cidadãos (demos), um conselho de governo (boule) e uma ekklesía (assembleia). Mas rapidamente, este ideal de participação foi utilizado pelo poder imperial no objectivo dos seus planos de soberania.

Esta acção, empreendida inicialmente por Filipos e, rapidamente seguida pela acção de Alexandre e pelos romanos, concede à polis uma participação meramente formal que ajuda a afirmar a autoridade do Kyrios imperial, com quem, as elites locais, ansiosas de prestígio e poder, negoceiam através das instituições da cidade.

Nesse contexto a afirmação de uma ekklesía de Tessalónica, pertencente a Deus Pai e ao Senhor Jesus Cristo, introduz a constituição de outro tipo de sociedade e, por conseguinte, não nos deve estranhar a frequência da linguagem que procura descrever a separação entre as duas sociedades.

A impotência social dos convertidos perante os adversários que podem causar sofrimento, a inconsistência do seu status perante o poder, unida à vulnerabilidade e impotência física fazem pensar que Paulo se enfrenta com os detentores do poder da polis, isto é, a aliança de cidadão notáveis como Senhor imperial 

A convicção, que Paulo partilha com os cidadãos não implicados nesta aliança, reflecte-se na sua actuação missionária. Por um lado, esta define-se dizendo “pregamos sem procurar agradar aos homens … nem procurar a glória entre os homens” (1Ts 2,4-6). Por outro lado, surge também desta consciência de cidadania a afirmação da liberdade pessoal perante aqueles poderes, que faz Paulo afirmar “Apesar de maltratados e ultrajados em Filipos, confiando no nosso Deus, fomos anunciando o Evangelho de Deus, no meio de grandes obstáculos” (1Ts 2,2). Trata-se da valentia, uma liberdade concedida por Deus aos homens e perante os homens.

 

3.2. Uma comunidade alternativa

3.2.1. Criação de vínculos fraternos

As referências ao mundo hostil parecem ter por objectivo fortificar a integração da nova comunidade, que nasce neste mundo adverso como comunidade alternativa, formada pelos “irmãos amados de Deus,” (1Ts 1,4), marcada pela sua “eleição” (1Ts 1,4).

Uma fraternidade assim entendida cria uma assinalada atitude de solidariedade entre os membros do grupo. Substituem-se as relações de parentesco e vizinhança por novas relações, capazes de relacionar os fiéis de Tessalónica com os crentes de toda a “Macedónia e Acaia” (1Ts 1,7.8) e “das Igrejas de Deus que estão na Judeia” (1Ts 2,14). O estilo habitual dos agradecimentos epistolares, que estabelecia relações amistosas entre escritor e destinatários, tinha o mesmo objectivo.

Só assim se entende o sentido das afirmações sobre a unidade de Deus. Perante a tolerância geral do meio helenístico filosófico, em que todos os deuses eram imagem do Uno, as afirmações paulinas sobre Deus fundamentam a unidade das diferentes “assembleias de Deus” partindo da igualdade de direitos (outra função fundamental da ekklesía), preservando a sua integridade e prática comunitária.

Esta integridade está assegurada no horizonte familiar de um Deus que é Pai e que, por isso, torna possível a criação de novos vínculos de amor (1Ts 3,12: 4,9), a prática do bem (1Ts 5,15), e o conforto (1Ts 4,18; 5,11), é fruto desta preocupação. Esta preocupação, para além do plural epistolar ou da pluralidade constituída por Paulo, Silvano e Timóteo, pode explicar a multiplicação do uso do “nós” e do “nosso”, próprios desta epístola.

 

3.2.2. Partilhar a perseguição e os trabalhos

O judaísmo helenista, segundo a apresentação que Filón faz de Ex. 22,20, reconhece uma forma de especial amizade, em relação aos prosélitos, porque “deixaram os seus pais, familiares e amigos… Pois o verdadeiro amor, o elo que une indissoluvelmente a boa vontade que faz de nós uma só coisa, é honrar ao Deus único” (Spec. leg. 1.52 citado por W. Meeks, Os primeiros cristãos urbanos).

Acerca desta concepção judaica, a novidade da concepção cristã radica em que a unidade de fé, num só Deus, está concebida como ligada indissoluvelmente a um só Senhor, condenado e morto pela Lei judaica, o que leva, superando os limites raciais, a uma ruptura com o monoteísmo judeu. A eleição (eklogué) de Israel (Rom 9,11; 11,5.7.28) em nada difere da eklogué de Tessalónica (1Ts 1,4). Cria-se assim um único povo separado dos outros cultos e em que paulatinamente desaparece a ligação à sinagoga.

A experiência de sofrimento e tribulação está presente, em todo o lado, na experiência cristã. Na sua iniciação, os cristãos de Tessalónica, já foram preparados para ela: “estando ainda convosco, já vos predizíamos que havíamos de padecer tribulações” (1Ts 3,4a). Portanto, a situação presente, pode descrever-se com um lacónico “como tem acontecido, e vós bem o sabeis” (1Ts 3,4b).

Esta experiência de perseguição pode estar ligada a outros casos em que aconteceu o mesmo. Menciona-se, frequentemente, a experiência de Paulo “Apesar de maltratados e ultrajados em Filipos… confiando no nosso Deus, fomos anunciar-vos o Evangelho de Deus, no meio de grandes obstáculos” (1Ts 2,2) e a comunidade pode recorrer a outros modelos “como as Igrejas de Deus que estão na Judeia” (1Ts 2,14).

A dura realidade do trabalho inclui dois objectivos. Em primeiro lugar, considerá-lo necessário para viver dignamente (1Ts 4,12). Em segundo lugar, serve para unir mais Paulo com os Tessalonicenses e esta segunda razão foi determinante na acção missionária que é descrita como “trabalhámos de noite e de dia, para não sermos pesados a nenhum de vós (1Ts 2,9) e deve levar os Tessalonicenses a não serem peso para a ekklesía, a “não necessitarem de ninguém” (1Ts 4,12).

Trabalho e perseguição são o protótipo contagioso desta nova família universal, que procede do Senhor Jesus e que através de Paulo e das ekklesías se vai difundindo no meio da hostilidade do mundo. 

Na nova polis não faltam aos homens bens e recursos, mas a alteração das normas tradicionais produzirão um profundo mal-estar que necessita de uma nova resposta. Paulo apelará, juntamente com a memória do começo da relação, a recomendações que iluminam o conteúdo e a interpretação da tribulação na experiência cristã. Os sofrimentos da comunidade são relacionados com os do Apóstolo, com os de outras comunidades e com os de Cristo. Era esperada tal aflição. Ficavam assim substituídas as relações de parentesco e vizinhança (2,14) com novos laços que nem a morte era capaz de destruir.

Com isso atende-se principalmente ao bem-estar da comunidade e, desta forma, mostra-se que a confiança pode ser afirmada em situações de aflição e trabalho.

           

3.2.3. O missionário e a sua comunidade

A relação de fraternidade faz com que as exortações com que Paulo se dirige à comunidade, sejam, acima de tudo, um pedido (1Ts 4,1; 5,12; 2Ts 2, 1). Mas este pedido inclui normas ou “instruções” (1Ts 4,2) que, sendo do Apóstolo “como vo-lo recomendamos” (1Ts 4,11), não são propriamente suas, mas provêm do Senhor “da parte do Senhor Jesus” (1Ts 4,2).

Isso faz com que as “normas” sejam sempre “exortações” (1Ts 2,12; 3,2; 4,1.10.11; 5,14) mútuas (feitas por Paulo, Timóteo, ou pelos membros da comunidade) e ânimo de um pai a seus filhos (1Ts 2,11-12). Longe de impor a sua autoridade de Apóstolo, a seu comportamento pode comparar-se à amabilidade de uma mãe que “cuida com carinho dos seus filhos” (1Ts 2,7). Deste modo a relação de fraternidade não abandona o contexto familiar quando se converte em relação de paternidade/maternidade.

 

3.2.4. Elementos de Eclesiologia

De quanto ficou dito depreende-se que a Igreja é, antes de mais, uma família constituída pelos “irmãos amados de Deus (1Ts 1,4), a quem se pode invocar como “nosso Pai”.

Esta família tem os traços da Ekklesía de Deus e do Senhor Jesus: cidadãos que gozam de plena liberdade perante os poderes do senhor do império e dos notáveis da cidade.

Da condição de ekklesía brota também a igualdade de direitos que lhes é própria e que não se esgotam numa cidade mas cria uma solidariedade universal com as Igrejas localizadas noutros lugares.

A familiaridade e a escolham determinam todas os serviços dentro da Igreja de modo que, no exercício da autoridade, se misturam exortações e ordens. Estas incluem exortações de alento e têm como único ponto de referência a Palavra de Deus    

       

3.3. Realismo na espera

3.3.1. A espera, eixo da vida cristã

Juntamente com a “obra da vossa fé” e os “trabalhos da vossa caridade”, desde o princípio, dá graças a Deus pela “constância da esperança que tendes em Nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 1,3). E no capítulo final exorta-os a revestirem-se da “couraça da fé e da caridade, como capacete que é a esperança da salvação” (1Ts 5,8).

Em 1Ts 4,13 a esperança aparece como a nota mais marcante da comunidade cristã face “aos outros que não têm esperança”. Só a partir dela pode ser compreendida adequadamente a tribulação presente e correctamente vivida a solidariedade eclesial.

No enquadramento da solidariedade Paulo examina o problema da morte considerada não como fenómeno universal mas como força capaz de destruir os laços comunitários. A esperança, afirma, supera o temor da morte que poderá acontecer antes da Vinda do Senhor: “Por ocasião da vinda do Senhor, nós, os que estivermos vivos, não precederemos os mortos … e os que morreram em Cristo, ressurgirão primeiro. Depois nós, os vivos…” (1Ts 4, 15b-17ª).

Mas a esperança também justifica a “irrepreensibilidade” de vida exigida ao cristão que, em 1Ts 3,13 e 5, 23, está intimamente ligada à vinda do Senhor. As admoestações sobre a impureza (1Ts 4,3-5) e inveja (1Ts 4,6a) devem entender-se no contexto da salvação da ira futura (1Ts 1,10), pois o Senhor se vingará de tudo isto (1Ts 4,6b).

A linguagem apocalíptica reforça a coesão comunitária e impulsiona para uma acção conforme o bem comunitário tanto a nível interno, ter “em consideração os que trabalham entre vós, os que vos dirigem no Senhor e vos admoestam” (1Ts 5, 12), como em relação aos do exterior à comunidade, “procedendo honestamente com os de fora” (1Ts 4,12).

 

3.3.2. Diferentes modos de espera

Estas características são notas essenciais da esperança cristã e colocam-na em oposição frontal ao alarmismo dos destinatários da Segunda Carta aos Tessalonicenses.

Em tempos de tribulação e turbulência não basta a expectativa em relação ao futuro. É necessário um compromisso espiritual e prático que se reflecte numa firme adesão à tradição e, através dela, à Palavra do Senhor.

Certa esperança perante a Parusia pode oferecer o risco de modelar uma existência cristã inteiramente passiva e parasitária. Torna-se necessário, por tanto, recordar o exemplo e os ensinamentos de Paulo acerca da obrigação do trabalho (2Ts 3,7-9).

A importância do trabalho na expectação do futuro deriva da autoridade “do Senhor Jesus Cristo” (2Ts 3,6) que exige à comunidade a separação de “todo o irmão que vive na indisciplina e não segue as instruções que de nós recebestes (ibidem).

Por tanto, o duplo juízo de Deus serve, por um lado, de aniquilamento dos ímpios, mas leva, ao mesmo tempo, a delimitar dentro da comunidade as diferenças existentes entre uma esperança definida pela constância e o amor mútuo, e uma esperança vazia de sentido que favorece o abandono dos próprios deveres.

O futuro, portanto, só se pode modelar segundo um compromisso decidido em que a existência cristã adere à Palavra do Senhor. A adesão ao Evangelho precisa da “actividade da fé” (2Ts 1,11), “desejo de fazer o bem” (2Ts 1,11) e firmeza em “toda a espécie de boas obras e palavras” (2Ts 2,17).         

         

 

                                                           CHAVE CLARETIANA

                                  SUSCITAR e RENOVAR COMUNIDADES DE CRENTES

As Constituições dizem: “A nossa Congregação cumpre a sua missão ao promover e consolidar as comunidades cristãs, quer convertendo os homens a deus pela fé, quer renovando a sua vida em Cristo e levando-a à perfeição”. Estas palavras das Constituições colocam-nos em conexão com a experiência apostólica de Paulo. Por isso, encontra sintonia e ressonância em nós a sua incansável pregação e preocupação contínua pelas comunidades que fundou. O mesmo aconteceu com o nosso Fundador (cf. Aut. 224). Do ministério de Paulo surgem grupos cristãos que procuram viver a sua fé num meio frequentemente hostil aos valores que configuram a vida da comunidade cristã.

Partilhando com os seus concidadãos o serviço da construção do mundo (a Carta aos Tessalonicenses insiste no tema do trabalho), e com a esperança colocada no Senhor, a comunidade cristã está chamada a converter-se em sinal do Reino que Jesus proclamou e a comprometer-se no seu anúncio. Suscitar comunidades cristãs, colaborar para que se mantenha a sua vitalidade é a nossa missão na Igreja. Deslocarmo-nos para os lugares geográficos ou para os ambientes sociais onde estes trabalhos sejam mais urgentes é uma exigência natural dessa missão (CC48; CPR 85).

Uma leitura claretiana de Paulo, da sua vida e ministério, só pode provocar inquietação em nós e levar-nos, necessariamente, a algumas mudanças. Caso contrário estaremos a reduzira sua mensagem a uma questão doméstica.

 

                                                           CHAVE SITUACIONAL

Contextualizar à nossa volta os textos bíblicos (agora as Cartas de Paulo) é um passo importante da leitura vocacional da Bíblia. Uma consciência viva das situações actuais permite ver a Palavra, iluminar tudo, com uma nova luz. Será cada missionário – pessoalmente e em diálogo – que, no seu lugar de missão, contextualiza a Palavra. Sugerimos pistas para esse trabalho insubstituível.

 

            1. A nossa evangelização, hoje, depara-se com um mundo hostil? Paulo via a sua missão dificultada e os cristãos de Tessalónica sofriam perseguição. Não faltam vozes, nos nossos ambientes eclesiais, que qualificam o mundo actual de contrário e hostil à evangelização e ao cristianismo. Essas vozes alarmistas parecem-nos certas?

Há perseguições cruentas aos cristãos e missionários /as: vários pontos de África, Ásia, América Latina…. Podem acontecer outros contratempos… Pode, porém, generalizar-se a situação? A realidade tornou-se muito complexa e variável. Um processo de globalização humanizante coexiste com o processo de transnacionalização global desumanizante.  E, ao mesmo tempo que se criam contextos mundiais e poderes globais, subsistem situações e factores regionais, nacionais, locais… Perante a invasão de uma monocultura global e da monolítica “ordem” económica neoliberal, com os seus dogmas e ídolos, há “diferenças” (étnicas, culturais, religiosas, classistas, etc.) que resistem e se reafirmam em articulações também mundiais.

Têm de se tomar a sério os diferentes contextos: os mundiais e globais, mas também os regionais, zonais, locais e, inclusive os sectoriais. Pode haver diferentes “mundos hostis” à evangelização em diferentes lugares (até numa mesma cidade) se varia o factor dominante no contexto humano (incredulidade, idolatria e injustiça, intolerância, fundamentalismo e racismo; diferentes modalidades de materialismo e corrupção, determinados “lazeres”, etc..

Ou seja, em cada lugar concreto, em cada missão tem de se responder com realismo a estas perguntas:

Existe algum ambiente ou “mundo hostil” à evangelização e aos cristãos?

Que factores determinam essa hostilidade e como a influenciam?

           

2. Perante o desafio de ambientes adversos. Identificado o contexto que entorpece a evangelização, têm de se clarificar quais são os desafios que se colocam à comunidade cristã. A atitude de Paulo perante o seu “mundo hostil”poderá servir, hoje, de referência? Paulo identificou a hostilidade como prolongamento da perseguição contra Jesus e viu nela o desafio pastoral para reforçar a identidade e esperança dos cristãos. Sem romper com o meio envolvente, uma vez que o Evangelho brilha para os “filhos da noite” no testemunho dos cristãos, aos quais Paulo pede para perseverar, trabalhar e não se cansarem de fazer o bem.

Esta referência, tão missionária, interroga-nos: que fazemos perante as situações e ambientes contrários aos nossos trabalhos missionários? Para além de autenticar a identidade e a esperança dos cristãos, poderíamos ver nessas situações humanas, princípios alheios ou alérgicos e até hostis, como “oportunidade” para o Evangelho?

 

3. Ser hoje comunidade alternativa ou de contraste? Os mundos, ou meio ambiente, que se mostram alheios, alérgicos ou contrários ao cristianismo, não estão a pedir, à sua maneira, que os cristãos sejam comunidades de vida alternativa?

As situações e ambientes de vida que se estão a constituir, pedem que o cristianismo regresse à sua identidade original de “fermento na massa”, ao serviço de um tipo de humanização do mundo que é serviço ao Reino de Deus.

Permanecem ainda, à nossa volta, ambientes sociológicos de”cristandade” que possibilitam aos cristãos ser pessoas e grupos com vida de contraste (sal, luz, fermento)?  

Que significa ser comunidade alternativa nos nossos próprios contextos humanos?

Com isto entramos em convergência histórica com todas as ânsias e procuras de alternativas de vida mais humana, mais em harmonia com a biodiversidade da natureza e dos povos, raças, etnias, culturas, religiões e éticas.

Conhecemos buscas e caminhos abertos nessa direcção?

Não teremos, os cristãos, muito a aprender e colaborar, hoje, partindo da opção fundamental de vida segundo o Evangelho?

      

4. Discernir as esperanças. Esta “mudança de época” que vivemos é pródiga em situações de crise, esperança, dispersão e adulteração de esperanças. Compreende-se o fundamento de muitas esperanças. Fala-se de “desestruturação da esperança”, e poderia falar-se de vários tipos de manipulação das esperanças. Todos podemos tomar-lhe o pulso.

Qual é o estado da esperança nas situações humanas e eclesiais do nosso lugar de missão?

Como e quem orienta as suas esperanças nos diferentes sectores da nossa sociedade e das Igrejas?

E qual é a esperança dos pobres?

Prestemos atenção à diversidade de culturas, religiões e credos, sem esquecer a de gerações…

Sendo a esperança tão nuclear na vida humana e na existência cristã não será urgente que, na Igreja e em cada comunidade claretiana, e inclusive em cada área pastoral, desenhemos a nossa “agenda-esperança”?

 É urgente discernir e coordenar as esperanças, reestruturar e fortalecer a esperança; inculturar a esperança (e abrir segmentos como”culturas e esperanças”, “religiões e esperanças”, no diálogo entre fé e cultura ou interculturais e inter-religiosos) etc., etc. Qual seria o trabalho prioritário na nossa “agenda-esperança”?

 

                                                           CHAVE EXISTENCIAL

1. Meditação Check-up da própria saúde missionária. Tomo na oração o texto de 1Ts 2,1-12 como espelho onde me vejo. Versículo atrás de versículo, procuro medir em mim cada sentimento, atitude e grau de entrega à comunidade cristã.

 

2. Uma chave existencial para hoje. “Somar forças no caminho para a nova cidade”. Um ponto de oração e compromisso nessa chave é a prática da “solidariedade no testemunho e difusão do Evangelho”. Solidariedade interpessoal e intercomunitária claretiana; solidariedade, também, com outros carismas, grupos, movimentos eclesiais e pessoas de outras igrejas e religiões…

 

3. Retomemos a linguagem simbólica: Que significa existencialmente para mim, e para nós e nossos cristãos, ser hoje “filhos do dia, não ser da noite nem das trevas”?

 

4. De ontem a hoje: Que pode sugerir-nos hoje, para a nossa existência e dos nossos cristãos, a “mística do trabalho” que Paulo pratica e recomenda? Temos de acrescentar, agora, um problema existencial: a crescente e cruel escassez de trabalho…

 

 

ENCONTRO COMUNITÁRIO

1. Oração ou cântico inicial.

2. Leitura da Palavra de Deus: 1Ts 2,1-12

3. Diálogo sobre o TEMA nas diferentes chaves. (Ter presentes as perguntas formuladas dentro das pistas que se oferecem para as chaves situacional e existencial).

4. Oração de acção de graças ou de intercessão.

5. Cântico final

 

 
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