LEITURA CLARETIANA DE PAULO

«A CARIDADE DE CRISTO IMPELE-NOS»

 

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1. INTRODUÇÃO

Paulo é, sem dúvida, uma das figuras mais fascinantes do Novo Testamento: pela sua personalidade humana, pela sua decidida vocação missionária, pela sua entrega total ao serviço de Cristo e do Evangelho. De perseguidor de Jesus no seu corpo, que é a Igreja, converte-se em arauto e paladino da Boa Nova. Depois da conversão, que comporta em si mesma a vocação missionária, inicia uma incansável actividade que manterá até à morte. O amor a Cristo impele-o a trabalhar, lutar e sofrer por irradiar a luz do Evangelho.  

Enamorado apaixonadamente por Cristo, dedicou toda a sua capacidade e entusiasmo a afundar-se no mistério e na mensagem de Jesus de Nazaré e a difundi-lo com todos os meios ao seu alcance. Nele tudo é apostólico e tudo se converte em apostolado e, a partir daí, ganha sentido tudo o que vive e realiza em função da evangelização universal.

Acontece o mesmo com Santo António Maria Claret, cuja identidade mais profunda e mais definida é a de missionário apostólico. Ambos organizarão a própria existência e a própria vida tendo por eixo e íntima raiz a vocação apostólica.

Os dois partilham um lema comum: «A caridade de Cristo impele-nos», que Claret explicará assim: «O lema que diz Charitas Cristi urget nos, quer dizer que não é o amor ao ouro, prata, etc., o que impele a correr de um lado para outro, mas o amor de Cristo, como dizia S. Paulo, pois dele são tomadas estas palavras» (EC, I p. 414). «De tal modo impele [este fogo] o Prelado, que se esquece de si mesmo, e ande por onde andar, o dirige o Espírito do Senhor. Pode dizer o que dizia o Apóstolo S. Paulo: Charitas Criste urget nos. Já sabeis, filhos, que este é o nosso lema, a nossa divisa, e o nosso tudo; pois a caridade de Cristo fez-nos empreender tanto trabalho em visitar-vos, exortar-vos, em catequizar e dispor os vossos corações para a administração dos santos sacramentos…». (Carta pastoral ao povo… LIBRERIA RELIGIOSA [Barcelona 1853] p. 6).

 

1. 1. Proximidade, impacto e empatia

Que significou Paulo para Claret? Que ressonância e que influência teve na sua espiritualidade, na sua vocação e na sua vida missionária?

Qualquer pessoa que se ponha em contacto com Claret captará, imediatamente, uma forte vibração Paulina. E quem conhecer, ainda que superficialmente, a experiência de Paulo e de Claret, facilmente sedará conta de existe, entre ambos, um paralelismo surpreendente. Entre ambos existe uma proximidade mental de critérios, de convicções, e de ideais e, sobretudo, de fidelidade apaixonada à vocação missionária. Afastados no espaço e no tempo, mas não na sensibilidade evangélica e apostólica nem na paixão por Cristo e pela Igreja, pelo homem e pela vida, pela evangelização universal por todos os meios possíveis.

 

1.2. Que influência teve Paulo na experiência missionária de Claret?

Claret, ao falar do “espírito eclesiástico”, escreveu um texto que é fundamental para mostrar a influência que Paulo teve na sua vida e acção: «Não me deterei a enunciar um por um os prodígios que os apóstolos operaram; que logo que ficaram cheios do Espírito do Senhor começaram a falar (Act. 2, 4). Apenas referirei alguma coisa do Apóstolo S. Paulo, cheio do espírito eclesiástico. Logo que foi chamado por Jesus Cristo no caminho de Damasco (cf. Act. 9, 1-19), já não consulta, a carne e o sangue, (cf. Gal. 1, 15-16), mas cheio do fogo da caridade corre por todas as partes como vaso de eleição (cf. Act 9, 15), levando o nome de Jesus, não procurando nada mais do que a glória de Deus e a salvação das almas; não teme cárceres nem correntes; não afastam os açoites nem as ameaças de morte o detêm (cf. 2Cor. 11, 23). Basta-nos ler os Actos dos Apóstolos e as Cartas que nos deixou escritas para vermos o que faz um sacerdote cheio de espírito eclesiástico…» (EE. P. 286). 

 

1.2.1. A influência de Paulo na vida de Claret

Não há dúvida de Paulo é para Claret um modelo de identificação vocacional. Ao longo da sua vida nota-se uma certa carga paulina, que o vai empapando e transformando. Vejamos alguns factos, neste sentido, da sua vida:

- Da sua adolescência, passada em Barcelona, diz-nos: «Eu mesmo, como S. Paulo, ganhava, com as minhas mãos, ganhava o necessário para a comida, vestidos, livros, mestres, etc. (cf. 1Cor 4, 12; 1Tss 2,9)» (Aut. 56).

- A origem da vocação de Claret tem um sabor profundamente paulino: Claret teve uma sensação parecida com a de S. Paulo e fez-se a si mesmo a pergunta do Apóstolo: “Senhor, que queres que eu faça?” (Act. 9, 6). «Encontrei-me como Saulo no caminho de Damasco; faltava-me um Ananias que me dissesse o que devia fazer…» (Aut. 69).

- Na ordenação de diácono impressionam-no as palavras do ritual: «A nossa luta não é somente contra a carne e o sangue, mas também contra os príncipes e potestades, contra as obras infrutuosas das trevas (Ef. 6,12) (Aut. 101).

- Paulo aparece como padroeiro e advogado na Irmandade Apostólica, que é cpmo que um anteprojecto da Congregação de Missionários. (cf. CCTT, p. 105).

- A Definição de Missionário é de um evidente traço paulino; parece arrancada de uma das cartas de S. Paulo; assemelha-se à descrição do seu lema: «A caridade de Cristo impele-nos» (2Cor 5,14). Nela aprece reflectida a personalidade interior de Claret e a força apaixonada do seu zelo apostólico, assim como a ligação entre o ser filhos do Coração de Maria e a condição de missionário apostólico de cada um dos membros da Congregação. O Papa Paulo VI, na audiência que concedeu aos capitulares de 1973, dizia dela: «Vede aí, projectado para vós, todo o programa de santidade, fundado na renúncia valente de si mesmos, fruto da sua fecunda vitalidade evangélica. Assinala-vos, claramente, com expressões de nítido dinamismo paulino, o bem a que deve aspirar a vossa vida pessoal e comunitária; o seguimento e a imitação de Cristo a impulsos de uma caridade sempre operante» (Documentos Capitulares, p. 13).

- Nos seus anos de missionário apostólico dizia: «Lucrum mori» Fil 1, 21). A minha vontade era morrer assassinado por ódio a Jesus Cristo» (Aut. 466). Mais tarde, no Concílio Vaticano I, referir-se-á ao atentado contra a sua vida em Holguin fazendo eco da experiência de Paulo (Gal. 6, 17): “trago no meu corpo as cicatrizes de nosso Senhor Jesus Cristo” (EA p.491).

  - Já no final da sua vida Paulo escreve: «Estou pronto para o sacrifício e o tempo da minha partida já se aproxima. Combati o bom combate, terminei a minha carreira e guardei a fé. Já nada me resta senão receber a coroa da justiça que o senhor, justo Juiz, me dará naquele dia, e não só a mim, mas também àqueles que desejam a Sua vinda» (2Tim 4, 6-8). É o culminar da vida de um apóstolo, que Claret expressa em termos parecidos: «Parece-me que já cumpri a minha missão. Em Paris [e] em Roma preguei a lei de Deus: em Paris, como capital do mundo, e em Roma, como capital do catolicismo; fi-lo por palavras e por escrito. Observei a santa pobreza (carta a Currius, 2-10-1869: EC, II, p. 1423). 

- Claret expressa também, com termos paulinos, a experiência dos últimos anos da sua vida. Lemos assim nos seus últimos propósitos, «desejo ver-me das amarras deste corpo e estar com Cristo (Fil. 1,23). Como Maria Santíssima, minha doce Mãe» EA, p. 588).

 

1. 2. 2. Incidência de Paulo nos escritos de Claret

Uma leitura dos diferentes escritos de Claret faz-nos ver a quantidade de referências bíblicas que nos mesmos existem. Com frequência exprime as suas experiências com expressões tiradas da Sagrada Escritura. O elevado volume de citações ou referências aos escritos de Paulo revelam a ressonância que a figura de Paulo encontrou na sua vida.

 

1. 2. 3. Coincidências entre Paulo e Claret

É notável a empatia que entre eles existe. Um dos primeiros estudiosos de Claret, o Pe. Puigdessens, descobriu nele, através da análise do seu temperamento, traços muito presentes na personalidade de Paulo. O equilíbrio, o activismo e o optimismo (cf. Espíritu del venerable… pp. 142 -146). Não há dúvida de que Claret encontrou em Paulo um grande estímulo para o seu apostolado. A definição do missionário fala-nos claramente disso.

Eis alguns traços, essenciais, de coincidência:

- Paixão por Cristo para afrontar com valentia o sofrimento nascido da perseguição, da calúnia, do mistério da cruz: «Deus me livre de me gloriar a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Gal. 6, 14)

- Paixão pela Igreja, esposa sem mancha nem ruga (cf. Ef. 5, 27), para que em cada dia nela brilhe a formosura da glória de Deus.

- Paixão pelo homem na sua realidade concreta, chamado a realizar-se no seu destino de salvação, embora pecador, mas sempre susceptível de graça, se se abre à palavra do Evangelho.

- Paixão obsessiva pela evangelização universal: todos os habitantes do mundo (CC1857, n. 2).

Depois de Jesus, com quem o Pe. Claret mais se identificou na sua infatigável missão evangelizadora foi, sem dúvida, com Paulo. É o próprio Claret quem o diz num texto da sua Autobiografia ao falar dos estímulos que o moviam a evangelizar: «Mas quem mais me entusiasma é o zelo do Apostolo S. Paulo. Como corre de uma parte para outra, levando como vaso de eleição a doutrina de Jesus Cristo! Prega, escreve, ensina nas sinagogas, nas cadeias, em toda a parte. Trabalha e faz trabalhar oportuna e inoportunamente. Sofre açoites, apedrejamentos, perseguições de toda a espécie, as mais atrozes calúnias. Mas não se admira. Antes, pelo contrário, alegra-se nas tribulações, e chega a dizer que não quer gloriar-se a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo (Gal. 6, 14)» (Aut. 224).

Claret vê o zelo apostólico de S. Paulo expresso nestes elementos: itinerância por amor; pregação universal; trabalho, sofrimento e perseguições; gloriar-se na cruz de Jesus Cristo.

Num sermão sobre a conversão de S. Paulo, publicado em «Copiosa y variada colección de selectos panegíricos» (Barcelona 1860, V, pp. 191-216), aparece novamente a sua paixão por esse «eminente mestre e apóstolo das gentes» (p. 195), «um grande santo, um excelente doutor, um excelso mártir, um eminente apóstolo» (p. 206); «o blasfemo (que) passa a ser o mais entusiasta adorador e o mais zeloso admirador de Jesus Cristo; o perseguidor (que) se converte no mais fervoroso pregador do Evangelho e o pai mais terno dos fiéis; o lobo voraz (que) que se transforma em mansíssimo cordeiro preparado para um contínuo sacrifício (p.210).

Em Claret e Paulo encontramos os traços que definem o verdadeiro discipulado, dócil à acção do Espírito Santo. Sentem a vocação para a missão como a razão de ser da sua vida. Ambos sorvem com avidez a sabedoria do Evangelho, sentem-se abrasados pelo fogo da caridade apostólica. Pregam a Jesus, o Messias libertador dos pobres, humildes e simples e dedicam toda a sua vida à evangelização universal. Ambos tiveram que se enfrentar com situações difíceis, complicadas, dramáticas, nas quais se viram obrigados a fazer profundos e delicados discernimentos à luz da Palavra de Deus, que foi para eles a chave infalível para descobrir, com a máxima segurança, qual era a vontade de Deus.

A centralidade de Jesus nas suas vidas, a vivência profunda do Mistério da Eucaristia, o amor à Igreja, a atenção à acção do Espírito que suscita na comunidade cristã múltiplos carismas, o reconhecimento da responsabilidade e da missão de todos no seio da comunidade cristã, a convicção sobre o primado da caridade, são, entre outros, aspectos fundamentais que aparecem na experiência e no pensamento de Paulo e de Claret. A tudo isto junta-se uma consciência profunda sobre a urgência da evangelização: «Ai de mim se não evangelizar!» (1 Cor. 9,16). No fundo, ambos procuraram programar a própria vida, a partir das bem-aventuranças, em função da missão evangelizadora.

 

2. CLARET E PAULO

Paulo e Claret entram na lista dos enviados a anunciar a salvação que deus oferece; profetas, Cristo, apóstolos, missionários apostólicos. Claret e Paulo não são mitos criados pela consciência colectiva, nem enigmas que escapam à simples observação dos seus contem-porâneos; são personagens históricos, que actuaram á luz do sol, sem que nenhum deles tenha pretendido ou podido mascarar a sua própria personalidade. Das suas vidas, dos seus escritos, e dos testemunhos que chegaram até nós sobressaem com nitidez como personalidades fortes, cada uma no seu âmbito específico e no seu próprio contexto.

Claret e Paulo possuem uma estrutura mental e cordial muito parecida, que nasce da afinidade caracteriológica e temperamental, assim como da vocação missionária que receberam de Deus. Ambos são sensíveis à honra: daí que, com frequência, façam a apologia do seu ministério, pondo em relevo, com força e nitidez, o seu olhar na acção apostólica. 

É importante constatar como Paulo e Claret se prepararam para a sua missão através de um profundo contacto com a Palavra de Deus que forjou no seu íntimo a audácia e a profecia. E é-o também o dar-se conta de como a sua acção apostólica é referendada por uma coerência de vida que exprime a radicalidade do seu compromisso no seguimento de Cristo. Aí encontra apoio a afirmação, tantas vezes repetida por ambos, que não se pregavam a si mesmos, mas a Cristo (cf. 1Cor 1, 23) e que de nada mais queriam saber para além de Jesus Cristo e Este crucificado (cf. 1Cor 2,2).

Acção e contemplação aparecem na vida destes dois grandes apóstolos como realidades harmónicas e complementares que convergem na sua paixão pelo anúncio do Evangelho. Ambos se gastam e desgastam no serviço da Igreja. S. Paulo diz-nos: «Quanto a mim, de muito boa vontade darei o que é meu e dar-me-ei a mim mesmo pelas vossas almas» (2 Cor 12, 15). E o mesmo Claret exprime ao falar «do fim que me proponha quando ia de uma povoação a outra, enviado pelo prelado (Aut.199 -213).

Sem dúvida, tanto num como noutro, notam-se também carências que provêm do seu carácter, do ambiente em que se moveram, da cultura assimilada e de outros factores histórico-ambientais que os rodearam ao longo das suas vidas. Mas o tecido das suas vidas aparece, substancialmente, como uma unidade compacta cujo eixo central foi a missão a que foram chamados e para a qual tinham sido consagrados.

2.1. Homens de Deus alcançados por Cristo

Pelo que podemos deduzir dos seus escritos e de outros testemunhos, tanto Paulo como Claret tiveram uma natureza fundamentalmente religiosa e receberam uma educação religiosa na sua infância. Na sua juventude ambos foram «agarrados por Cristo». Paulo, fascinado e seduzido por Jesus Cristo (Fil 3, 12), faz uma opção radical por Ele e pela sua causa. O mesmo acontece com Claret: nos anos da sua mocidade, «desenganado, enfastiado e aborrecido do mundo (Aut. 77) opta pelo absoluto, considerando o mesmo que Paulo, que tudo é perda perante o sublime conhecimento de Jesus Cristo: «suponho que o bom cristão – observa Claret – depois da sua oração mental, dirá, como S. Paulo, que as coisas deste mundo considera-as todas como esterco (cf. Fil 3,8)» (EE p. 358). A sua conversão ao Evangelho encontrará o seu máximo compromisso em anunciá-lo. São particularmente significativos os textos de Fil 3, 8-12; 2Tim 1, 12; Fil 4, 3, 1que encontraram especial ressonância em Claret.

Claret, alcançado pela Palavra de Deus, num primeiro momento encontra-se desorientado: «Vi-me como S. Paulo no caminho de Damasco; faltava-me um Ananias para me dizer o que havia de fazer…» (Aut. 69). Durante os anos de seminarista, intensifica-se, em Claret, a paixão pela Palavra de Deus, sob a orientação persuasiva e estimulante do Bispo D. Corcuera (cf. EA, p. 150, nota 2), até ao ponto em que – como posteriormente dirá o Pe. Clotet -- «não largava das suas mãos as sagradas Escrituras» (Resumo…, p.125). Este interesse vai acompanhado por uma vida de oração que o vai mergulhando no mistério da presença de Deus. Acerca do seu tempo de seminarista escreve: «Em Deus, vivemos, nos movemos e existimos (Act 17, 28) (…) como o peixe na água e o pássaro no ar» (EA, p. 415; cf. EE, p. 79). Na ordenação de diácono interpela-o o conhecido texto paulino: Ef 6, 12 (cf. Aut. 101) que o ajuda a interpretar experiências espirituais anteriores e o impulsiona a iniciar a luta contra as potências do mal e a assumir os sofrimentos que terá de suportar por causa do Evangelho (Aut. 95-98). 

Durante toda a sua vida, Claret apelará a S. Paulo como chave de compreensão das suas próprias experiências e de si mesmo, para compreender os planos do Senhor sobre si, para compreender as vicissitudes da vida que teve de sofrer e para dar sentido global à sua existência.

Nos últimos anos da sua vida, fora do ambiente apostólico, caluniado e perseguido, centra-se na experiência do mistério pascal de Cristo, contemplado sempre em chave apostólica (cf. Aut. 762, 658, 679, 694, 698, 742, 448s, 752, 754, 756, 798, EA. pp. 561, 569, 588, 610, 613, 615, 616, 617, 618, 623, 752). Nesta altura aparecem sobretudo textos de S. João (18, 11) e de S. Paulo (Gal 2,20; 6, 14; 2Tim 2, 10; Col 1, 24).

O Cristo de Paulo, como o de Claret, é o Cristo da Páscoa: aquele que, paradoxalmente, alcançou a glória desde a humilhação da cruz.

 

2. 1. 2 Em contextos históricos diferentes

Paulo e Claret encontram-se em situações sociais e culturas diferentes. Ambos captaram o sentido teológico do tempo (VC 73), vivendo-o como tempo de salvação e respondendo aos seus sinais com generosa entrega.

A distância espaço-temporal entre eles é grande: Paulo encontra-se no mundo pagão que se começa a abrir à fé; Claret vive num mundo essencialmente cristão, mas em processo galopante de descristianização e, por isso mesmo, agarrado ao cepticismo e ateísmo. Também para ambos os ambientes e culturas são diferentes: Paulo vive em Corinto, Atenas e Roma e Claret em Catalunha, Cuba e Madrid…

Paulo experimenta a urgência da caridade de Cristo e a pressa em derrubar os muros do paganismo do seu tempo com a força do Evangelho. Claret experimenta a urgência dessa mesma caridade e o chamamento urgente para derrubar, com o testemunho e o anúncio do Evangelho, os ídolos do neo-paganismo do século XIX, que funcionava como bezerro de ouro, seu deus e senhor (cf. Aut. 357-371).

Em contextos tão diferentes, descobrimos, sem dúvida, tanto em Paulo como em Claret, uma leitura coincidente do desafio missionário que encerram: a necessidade de levar aos homens uma nova experiência de Deus, que os liberte da sua situação de pecado e os capacite para a construção de uma sociedade mais fraterna, através do anúncio do Evangelho. Por isso a sua dedicação à pregação (cf. EC, I, P. 305; Aut. 450), particularmente ao observar a acção de tantos pseu-evangelizadores e falsos profetas. Isto explica as opções fundamentais que encontramos nas suas vidas:

ü  Amor apaixonado a Cristo e à Igreja.

ü  Fidelidade à Palavra de Deus assimilada na oração, vivida, testemunhada e proclamada sem descanso.

ü  Fidelidade à própria identidade missionária, vivida em itinerância e selada com a coerência de vida, particularmente com um estilo de vida pobre e simples.

ü  Concentração no serviço de evangelização, deixando para trás outros aspectos da acção pastoral.

ü  Afã em criar e consolidar comunidades cristãs evangelizadas e evangelizadoras, centradas em Cristo, abertas à sociedade envolvente.

 

2. 1.3. Rasgos e experiências comuns e particulares

Aparecem como traços comuns: activismo, dinamismo, intrepidez, e resistência. Encontramos uma sintonia entre Paulo e Claret que, para este, foi seguramente motivo de inspiração para a sua vida missionária:

- De fé e oração: «Vivo na fé do Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim» (Gal. 2, 20). Claret e Paulo aparecem como homens «contemplativos na missão» (CPR 56), seguindo o exemplo de Jesus, que «de dia pregava e curava os doentes, e de noite rezava» (Aut. 434). Como os dois braços do compasso, um estava unido ao centro pelo amor e o outro traçava o círculo da missão, pelo impulso que lhe vinha do centro. «Semelhança do compasso. Uma ponta está fixa num ponto e a outra descreve o círculo, símbolo da perfeição. Recordar-me-ei do que dizia S. Paulo: Que Cristo habite pela fé em vossos corações (Ef 3, 17); até formar inteiramente Cristo em vós (Gal 4, 19)» (EA pp. 572, 569, 575; cf. EE p. 147).

- De zelo: A vida de Paulo está trespassada pelo zelo ardente e acontece o mesmo com Claret e os seus missionários: «O zelo apostólico centrava e unificava todos os interesses pessoais do missionário na sua missão de salvação ao serviço exclusivo do Evangelho e da Igreja» (João Paulo II, ao Capítulo Geral de 1985): CPR p. 70). Uma expressão profunda de zelo é esta oração claretiana de evidente inspiração paulina: «Meu deus e meu Pai! Que vos conheça e Vos faça conhecer. Que Vos ame e faça amar. Que Vos sirva e Vos faça servir. Que Vos louve e Vos faça louvar por todas as criaturas. Fazei, ó Pai, com que todos os pecadores se convertam, que todos os justos perseverem na graça e todos consigamos a eterna glória. Amém» (Aut. 233).

- De missão: Paulo relata-nos as suas experiências missionárias, sobretudo na sua segunda Carta aos Coríntios, e Claret, na sua Autobiografia.

- De cruz: Tanto em Paulo como em Claret as adversidades e perseguições são incontáveis; vivem o sofrimento como processo de identificação com Cristo crucificado.

- De mística: A Palavra de Deus ressoa fortemente nas suas vidas dando-lhes orientação e sentido (cf. Act 9, 3-5; Aut. 113-114). Ambos exprimem com as mesmas palavras o íntimo gozo da plana configuração com o Senhor: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.» (Gal 2, 20)

 

2.2. Leitura claretiana de Paulo

Como se situou Claret em relação a Paulo? Como assimilou e assumiu, dentro da sua espiritualidade essencialmente missionária? Que influência teve Paulo na vocação missionária de Claret? Que tipo de leitura vocacional fez Claret de Paulo?

Claret lê, estuda e medita Paulo desde a sua própria identidade, essencial e radicalmente missionária, na perspectiva do seu carisma evangelizador, da sua espiritualidade apostólica, da sua fé profunda em Cristo e no mistério da Igreja. Esta leitura pode centrar-se em duas dimensões fundamentais: o cristocentrismo e o espírito missionário.

 

2.2.1 Parâmetros fundamentais: cristocentrismo e espírito missionário.

Tanto o cristocentrismo como o espírito missionário são dois parâmetros que circunscrevem a vida e a obra destes dois grandes missionários. «Para mim, viver é Cristo» (Fil 1, 21), disse Paulo, palavras que encontram forte ressonância em Claret. Este cristocentrismo é radical e leva tendencialmente à plena transformação em Cristo: «É Cristo quem vive em mim» (Gal 2, 20). No seu escudo episcopal, ainda que também figure o anagrama de Maria, coloca como lema: «Cariatas Cristi, urget nos», que é o programa cristocentrico de ambos: «para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou» (2Cor 5, 15).

O missionário «não pensa senão em como seguir e imitar a Jesus Cristo» (Aut. 494; cf. EA, p. 619). Jesus Cristo ocupa sempre o centro da vida de Claret e é a pessoa de referência sempre mais próxima e em tudo. Basta um texto sobre a imitação de Cristo para o confirmar: «Devemos fazer todas as coisas como as fazia Jesus Cristo, assim em cada coisa, me perguntava como o fazia Jesus Cristo, com que cuidado, com que pureza e rectidão de intenção. Como pregava! Como conversava! Como comia! Como tratava com esmero todas as pessoas! Como rezava! E assim em tudo, de modo que, com a ajuda do Senhor, me proponha imitar, em tudo, a Jesus Cristo, a fim de poder dizer, se não por palavras, por obras, como o Apóstolo: «Sede imitadores meus, como eu sou de Cristo 1Cor 11, 1)» (Aut. 387)   

 

2.2.2. Coordenadas principais

As coordenadas principais, que configuram a personalidade de Paulo e de Claret, são as seguintes: evangelização universal, vocação profética e apostólica, estilo de vida evangélica e missão universal, com características bem definidas.

a)     Ideal totalizante: evangelização universal

Paulo não é um escritor profissional, mas um homem de acção, um arauto do Evangelho: «Porque se anuncio o Evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação: Ai de mim se não evangelizar» (1Cor. 9, 16). O mesmo se pode dizer de Claret. «Se vísseis um cego que vai cair num poço, num precipício, não o avisaríeis? É o que eu faço e o que em consciência devo fazer. Avisar os pecadores e fazer-lhes ver que o precipício do inferno em que vão cair. Ai de mim se não o fizesse (cf. (1Cor. 9, 16) que me teria por réu da sua condenação!» (Aut. 207; cf. 209). Em ambos está presente a vocação à evangelização universal, à qual deveriam dedicar todas as suas capacidades.

A realidade do mundo do seu tempo fez com que Claret descobrisse a necessidade do «ministério da palavra»: «O direito de falar e ensinar as pessoa, que a Igreja recebeu do próprio Deus na pessoa dos Apóstolos, foi usurpado por uma multidão de jornalistas obscuros e de ignorantes charlatães. O ministério da palavra, que é, ao mesmo tempo, o mais augusto e o mais invencível de todos, como que conquistou a terra, veio a converter-se em todas as partes de ministério de salvação em ministério de abominável ruína. E assim como nada nem ninguém consegui conter os seus triunfos nos tempos apostólicos, nada nem ninguém poderá conter hoje os seus estragos se não se procurar fazer-lhe frente por meio da pregação dos sacerdotes e pela abundância de livros bons e de outros escritos santos e saudáveis» (Aut. 451-452).

 Paulo, fiel ao mandamento de Jesus aos seus Apóstolos, quer chegar aos confins do mundo, então, conhecido: «Eu sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes : daí o empenho que há em mim de vos anunciar também o Evangelho, a vós que estais em Roma» (Rom 1, 14). Claret faz-se eco disto dizendo: «O pregador de todos é devedor» EE p. 365); «O meu espírito é para todo o mundo» (EC, I, p. 305). Daí que os limites de uma paróquia sejam demasiado estreitos para o seu zelo apostólico. «Depois dos quatro anos de ministério paroquial [em Sallent], desejoso de dar maior extensão ao seu zelo, pelo qual se sentia continuamente devorado, dirigiu-se a Roma para se entregar às missões da Propaganda Fide…» (Carta a Pio IX, 3-4-1859: Ec, I, p. 1740).

Claret, seminarista, viu no Filho preocupado com as coisas do Pai o seu modelo vocacional, a razão de ser da sua vida. Os interesses do Pai são que seja conhecido; que se cumpra a sua vontade; que todos os homens se salvem (cf. EA, p. 418). «Claret vive a obsessão de Jesus, sempre subordinado à glória do Pai e à salvação dos homens. Cristo não teve outros interesses por eles sofreu e entregou á morte» (MCH 57).

A nossa Congregação nasceu com um horizonte de universalidade, como comunidade missionária que devia procurar «a salvação de todos os habitantes do mundo» (CC 1857, n. 2), recolhendo o espírito que animou o Fundador. 

 

b)     Vocação profética e apostólica

O espírito missionário concentra-se e prolonga-se na expressão paulina: «Caritas Cristi urget nos» (2Co 5, 14). Este impulso, que é pura graça, é obrado Pai, faz de Paulo e de Claret evangelizadores no Filho evangelizador, por obra do Espírito Santo.

Paulo e Claret sentem-se ungidos e habilitados para anunciar o Evangelho da salvação: «O Espírito do Senhor está sobre mim…». Este texto de que Jesus se apropriou, fala  a Claret, para si e para os seus missionários (Aut. 687) da unção profética e a evangelização dos pobres. Cristo é para o Padre Fundador o Servo-Profeta ungido pelo Espírito para pregar a Boa Nova. A missão profética de Jesus constitui a medula da experiência apostólica de Claret; é a fonte da sua inspiração. Assim como todos os profetas estão sempre atentos e em subordinação a Deus e aos homens, Claret viverá a sua preocupação missionária de gastar as suas energias pela salvação dos outros (cf. Aut. 238, 448)». Atento e sensível às necessidades, urgências e desafios do seu tempo, e ardendo em caridade universal, desenvolve uma acção profética verdadeiramente intensa. A sua vocação exprime-se numa actividade profética de anúncio do Evangelho da vida e da defesa dos valores que esta comunica. A reflexão congregacional identificou, com traços muito peculiares desta acção evangelizadora, a sensibilidade para o mais urgente, oportuno e eficaz, e a disponibilidade para a missão universal.

 

c)     Estilo de vida evangélica

Paulo é uma das personagens do Novo Testamento que melhor e mais profundamente encarnam o tipo de vida de Cristo, o estilo apostólico, tornando visível o rosto de Jesus e sendo d’Ele transparência. Retirado para o serviço do Evangelho, quer ser um missionário idóneo face aos ídolos do poder e do dinheiro, porque está convencido de que Deus escolheu «o fraco segundo o mundo, é que Deus escolheu para confundir o que é forte» (1Cor 1, 27).

A idoneidade nasce da unção do Espírito, mas exige colaboração e correspondência. Claret diz-nos «que o missionário deve ser modelo de todas as virtudes. Há-de ser a virtude personificada. À imitação de Jesus Cristo, deve começar por fazer e praticar e, só depois, ensinar.» (Aut. 340). Por isso, Paulo e Claret procuram reproduzir a vida de Jesus Cristo.

«A santidade, diz Claret, consiste simplesmente no esforço por fazer duas coisas, esforço por conhecer a vontade de Deus e esforço por a cumprir quando se a conhece. Como S. Paulo «Senhor, que quereis que eu faça? (Act. 22, 10)» (EA p. 578). A vocação evangelizadora exige uma profunda vida evangélica, que tem por base a humildade e cujo cume é a caridade.

O Pe. Fundador parte de uma hipótese fundamental, a que sempre se manterá fiel, em conformidade com a doutrina de Paulo: todo aquele que recebeu o dom do apostolado deve levar uma vida plenamente evangélica. O anúncio do Evangelho exige que primeiro seja incarnado e vivido. E um elemento importante do testemunho de vida é a recta intenção, a exemplo de Jesus (cf. EA p. 606). Paulo defende-se da acusação de debilidade (cf. 2Cor 10, 10-11) e da ambição (cf. 2Cor 11, 12-18), e afirma que não busca o próprio interesse, mas apenas os interesses de Deus: «não pretendo os vossos bens, mas a vós mesmos» (2Cor 12, 14). Claret, por sua vez, insiste na limpidez da sua intenção na acção evangelizadora: não o movem nem o interesse, nem o dinheiro, nem a honra, mas a maior glória de Deus e a salvação das almas (cf. Aut. 213). As constituições reproduzem esta profunda convicção de Claret, convidando os claretianos a «buscar em tudo a glória de Deus…» (CC 2)

 

d)     Missão evangelizadora

Paulo entregou-se por inteiro à obrada evangelização: a difusão da Palavra de Deus, que «não se deixa acorrentar» (2Tim 2, 9). Claret, por sua vez, concentra a sua vocação na expressão «missionário apostólico», entendida profundidade e riqueza teológica e na amplitude da universalidade evangelizadora que brota do dom carismático recebido.

O Pe. Claret vê na evangelização a razão de ser da sua vida: «Ai de mim se não evangelizar!» (1Cor 9,16). A razão principal que aduz para recusar o episcopado foi porque «não poderei pregar tanto como queria, porque vi com os meus próprios olhos os muitos assuntos a que tem de prestar atenção um arcebispo» (EC, I p. 306).

Tanto Paulo como Claret, consagrados para evangelizar ao estilo do Filho a quem o Pai consagrou e enviou, caracterizam-se por uma intensa actividade missionária. Por isso, a presença missionária dos claretianos nas igrejas particulares se deve distinguir por dar «preferência às obras e posições que mais directamente se destinam à evangelização do povo, à constituição de comunidades de fé e à formação de evangelizadores qualificados… Continuaremos a evidenciar o nosso o profetismo claretiano, como vanguarda evangelizadora que somos, tanto em relação à Igreja Universal como às Particulares» (CPR 85).

 

* Universal

Embora já tenhamos assinalado esta dimensão, podemos, agora, acrescentar algo mais. Ao missionário «o Senhor, para além do talento da dignidade sacerdotal, encomendou-lhe outros quatro, que são os quatro pontos cardeais, quando disse: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura» (Mc. 15, 16) (EE p. 259). Nas diferentes etapas da vida de Claret encontramos manifestações particulares de que ele tinha consciência da dimensão universal da sua vocação missionária.

O Pe. Claret vê na Congregação, que funda, a sua plenitude, o eco da sua voz evangelizadora, que ecoa como um trovão (Aut. 686), e chega onde ele não pode ir: «Mas como eu não posso ir [por todo o mundo], procuro que vão outros, os meus queridos irmãos, chamados Filhos do Imaculado Coração de Maria» (EC, II, p. 627). Uma fez fundada a Congregação, oferece-se para missionar a Ilha de Cuba com os seus missionários (EC, I, p. 306). Por diversas ocasiões incita a Congregação a sair de Catalunha: «Porque razão os nossos – interrogava-se – não se expandem, ao menos, por este Reino?» (Carta ao Pe. Clotet, EC, II, p.321). Sabemos que em 1865 manifestou vontade de ir para África ou de regressar à América Latina, indicando como lugar de preferência o México. Alegra-se com as fundações em Santiago do Chile e em Argel (EC, II, p. 1427); e, no leito da morte, confia que os seus missionários não demorem a fundar nos Estados Unidos da América.

A universalidade é uma das características da missão claretiana, que deve encontrar em cada um dos seus missionários a atitude de disponibilidade na vida real. Tanto os Capítulos Gerais como os Superiores Gerais insistiram neste sentido. Mas é sobretudo o testemunho dos claretianos que deixaram tudo para se colocarem ao serviço da evangelização universal a melhor glosa desta exigência da nossa vocação missionária. 

 

* Libertadora

«Foi para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gal. 5,1) – disse Paulo – «pois em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor, mas a fé que actua pela caridade» (Gal 5,6). No homem novo «não há mais grego nem judeu, nem circunciso nem incircunciso, nem bárbaro nem cita, nem escravo nem livre, mas Cristo, que é tudo em todos» (Col 3, 11).

À libertação do pecado, da injustiça, da opressão, da escravatura dedicarão as suas energias tanto Paulo como Claret. Para este a salvação não era simples ajuda ou benesse, mas libertação do pecado pessoal e social segundo a vontade salvífica do Pai e a obediência missionária do Filho, continuada na Igreja. Trata-se de salvação integral, e o compromisso de Claret por ela aparece mais claramente no seu apostolado em Cuba, dadas as circunstâncias sociais da Ilha.

Esta libertação exige uma luta sem tréguas contra os poderes do mal. S. Paulo emprega esta linguagem quando fala da luta da fé, ou da luta escatológica pelo Evangelho. São palavras que, concretamente, inspiraram Claret (Aut. 271). O missionário, na luta pelo Evangelho da vida, alegra-se nas privações, abraça o trabalho e os sacrifícios, enfrenta serenamente as calúnias, aceita os tormentos e dores que sofre e gloria-se na cruz de Jesus Cristo (cf. EA p. 619; Aut. 494)

Claret adverte que, para vencer na luta de libertação dos poderes do mal, o Apóstolo S. Paulo «exorta-nos a pegar nas armas de Deus, (cf. Ef. 6,13), que são as virtudes, especialmente a justiça, a fé, a esperança, a Palavra de Deus, e a oração; estas são as armas principais do nosso exército, (cf.2Cor 10,4)» (EE p.405; pp. 333-334). A batalha tem como objectivo «pregar a obediência da fé» (cf. Rom 1,5).

 

* Suscitadora de comunidades eclesiais

Uma clara preocupação de Paulo foi o afã em criar e consolidar comunidades cristãs para que saíssem do legalismo judaico e do paganismo e chegassem à liberdade dos Filhos de Deus (cf. Rom 8,21). Estas comunidades eram heterogéneas, sociologicamente plurais, formadas por judeus e pagãos convertidos nos que, com o entusiasmo da primeira conversão, se misturava o pecado e a debilidade. Paulo trabalhou incansavelmente para que a vida destas comunidades fosse expressão clara da vida do Espírito que as originou. 

Claret, só e em comunhão com outros, foi criando por toda a parte grupos de vida evangélica e apostólica, paróquias missionárias, grupos de leigos comprometidos. Isso, por um lado, favorecia a vivência da vida cristã com mais autenticidade e, por outro, uma maior possibilidade de suscitar evangelizadores. Na leitura das Cartas de Paulo encontrou seguramente, para isso, uma fonte de inspiração.

 

* Suscitadora de evangelizadores

Um traço notável da vida e actividade de Paulo é o seu desejo de se rodear de colaboradores que o seguiam e acompanhavam na acção evangelizadora. Através deles multiplicava a actividade missionária, instituindo novas comunidades que, por sua vez, promoviam o anúncio do Evangelho.

A vocação missionária de Claret ficou projectada na Congregação (DC 11), e não só nela. O Espírito levou Claret a ser mediador da graça missionária para os outros, princípio de identificação vocacional, Fundador não só de Movimentos e Associações de oração e acção apostólica, mas também de uma Família Missionária na Igreja, nascida da sua experiência espiritual, da sua doutrina e capacidade organizadora e dos seus colaboradores. Chamado à pregação Universal do Evangelho, Claret converteu-se em criador e formador de evangelizadores activos e eficazes na difusão do Evangelho. Daí o surgir de inúmeras iniciativas neste campo. 

Partindo da Arquiconfraria do Coração de Maria, surgiram vários grupos ou movimentos apostólicos que apostavam na eficácia do testemunho e na força da caridade vivida em comunhão, para que a palavra evangélica pudesse difundir-se por todas as partes. Deste modo surgiram:

·         Irmandade do Coração de Maria (1849)

·         Missionários Filhos do Coração de Maria (1849)

·         Instituto dos Clérigos Seculares a viver em comunidade (1864)

Outras iniciativas de evangelização como:

·         Irmandade da Doutrina Cristã (1849)

·         Irmandade dos bons livros

·         Academia de S. Miguel (cf. Aut. 581, 332, 701)

Procurou ir ainda mais longe tentando fazer de todos os Bispos missionários.

 

E isto porquê? Porque o Espírito o fez ver as necessidades concretas do seu tempo:

·         a grande falta de pregadores apostólicos;

·         o desejo que o povo tinha de escutar a Palavra de Deus;

·         o seu desejo de transmitir maior eficácia ao serviço da evangelização.

 

Em 1864, procurando coordenar todas as forças apostólicas, pensará no «exercito do Coração de Maria» constituído por:

·         missionários, inteiramente disponíveis para a missão universal;

·         sacerdotes diocesanos, que se encontrem em lugares estáveis para conservar o fogo que os missionários tivessem acendido;

·         e leigos, disponíveis para a evangelização segundo os dons recebidos.

Todos unidos no mesmo compromisso do anúncio do Evangelho conservando embora, cada grupo, a sua autonomia  

 

* Com opção preferencial pelos pobres, marginalizados e excluídos

Claret, acerca de Jesus, disse-nos que «era amigo dos pobres, dos pecadores e dos humildes, e nunca se subestimou por tratar com eles, antes pelo contrário, preferia relacionar-se com os pobres, os ignorantes e os pecadores do que com os ricos e com os que se tinham por justos» (EE p. 301).

Claret confessa que teve sempre uma preocupação especial pelos trabalhadores, pelos pobres, a quem socorria, promovia e dava motivos de esperança, sobretudo em Cuba, onde foi muito intensa a sua actividade social em favor dos mais necessitados.

Um aspecto interessante era a solidariedade no partilhar com os pobres: a comunicação de bens. Paulo pede para que exista esta atitude entre as comunidades, como garantia do ideal de vida cristã e da mesma fé, e quer que se preste especial atenção aos mais pobres e necessitados (cf. 2Cor. 8, 1-15). E recrimina a atitude contrária em (cf. 1Cor. 11,21) quando escreve: «enquanto uns passam fome, outros embriagam-se». Esta atitude de Paulo encontra eco em Claret que deseja esta mesma solidariedade; é o que exige, por exemplo, para a Congregação «o que sobre numa casa supra o que falta noutra» (EC, I, p. 1680).

 

Hoje, face à opção que a Igreja faz pelos pobres, descobriu-se uma exigência mais radical desta dimensão e, em fidelidade ao Fundador, exprimimo-la na opção por «uma evangelização profética e libertadora, realizada na perspectiva dos pobres» (MCH 169 – 176), sendo advogados credíveis da sua causa (cf. CPR 80).

 

* Orientada para renovar o rosto da Igreja

Todos conhecemos a sensibilidade de Paulo no que se refere à Igreja, corpo de Cristo, sacramento universal de salvação. O seu constante trabalho e combate vão orientados para ajudar no crescimento dessa comunidade, porque «Cristo amou a Igreja, e por ela se entregou, para a santificar, purificando-a no baptismo da água pela palavra da vida, para a apresentar a Si mesmo como Igreja gloriosa sem mancha nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e imaculada. (Ef. 5, 25-27).

Também Claret procurou fazer o mesmo com os seus projectos de reforma da Igreja. Isso levou-o, − sobretudo depois do atentado de Holguin, em que Claret chega a uma concepção da Igreja mais teológica e mais enraizada na visão de Paulo – a trabalhar ainda mais na renovação e reforma da Igreja, procurando comprometer nela os próprios bispos, aos quais escreveu um opúsculo com o título sugestivo: «apontamentos de um plano para conservar a formosura da Igreja e preservá-la dos erros e vícios» (Madrid 1857).  

Juntou a isto o seu esforço pessoal pela reforma e formação do clero, a promoção cristã das crianças, adolescência e juventude, a colaboração eficaz na fundação de novos Institutos Religiosos vocacionados para o ensino, assim como o desenvolvimento da catequese, das missões populares, etc. 

 

* Aberta às diferentes culturas e nelas inculturada

Um ponto chave da teologia paulina é a catolicidade da Igreja, destinada a lançar raízes em todas as raças, línguas e culturas. Paulo soube captar o carácter supra cultural do Evangelho e a sua capacidade de ser fermento de vida nova em todas as culturas, não só na judaica, mas também na grega e latina.

O Pe. Claret dá um exemplo orientador do dinamismo de inculturação para responder missionariamente às crescentes necessidades da Igreja e do mundo, com a preocupação em adaptar o seu método de evangelização às realidades sociais e culturais com que se encontra ao longo da sua vida. A proximidade com o povo (cf. EA p. 426), a vantagem em aprender a língua do povo a quem se dirigia – catalão, espanhol, italiano, segundo os lugares onde trabalhou –, o esforço por assumir na acção evangelizadora os costumes dos povos, o ter presente a sua susceptibilidade cultural, são exemplos da sua sensibilidade. 

A Congregação procurou expressar esta dimensão do serviço evangelizador através do compromisso com uma evangelização inculturada (cf. MCH 169- 172), que nos interpela a «vivermos encarnados na realidade do povo, partilhando, em constante diálogo de vida, as suas angústias e esperanças» (MCH 211) e cultivando uma espiritualidade aberta à acção do Espírito na história dos povos (cf. CPR 42; SP 16.1).  

 

3. PAULO, CLARET E OS CLARETIANOS

           

3. 1. Em continuidade carismática com os missionários

Existe um fio condutor entre Jesus, os Apóstolos, Paulo, Claret, os claretianos e toda a Família Claretiana. Todos participamos da missão de Jesus que se perpetua na Igreja. Os claretianos fazemo-lo a partir do nosso carisma.

A identificação que Claret experimentou com Jesus evangelizador e com Paulo, o apóstolo incansável, é para o claretiano um critério fundamental de discernimento da sua vocação e acção missionária. Depois da leitura dos sinais do nosso tempo. Se pode descobrir «a actualidade e força do carisma que o Espírito nos legou através de Claret» (CPR 9). Por seu intermédio, e graças ao dom recebido, entramos também nós em contacto com aqueles que Deus nos propôs como modelos e estímulos em ordem ao anúncio do Evangelho.

 

3. 1. 1. Impelidos pela caridade de Cristo

O missionário é alguém que arde no amor de Cristo. Paulo, Claret e nós temos o mesmo ideal de expresso nas palavras: Caritas Christi urget nos.A todos nós impele o mesmo fogo, o mesmo amor ao Evangelho e à evangelização: «Inflamados pelo mesmo fogo, os missionários apostólicos chegara, chegam e chegarão até aos confins do mundo para anunciar a Palavra de Deus; de modo que se possa dizer de si mesmo as lavras do Apóstolo S. Paulo: Caritas Christi urget nos (2Cor. 5, 14). A caridade ou o amor de Cristo estimula-nos e impele a correr e voar com as asas do santo zelo» (EE pp. 416-417).

É esta caridade que continua a animar a família claretiana no seu compromisso evangelizador, isto é, na sua entrega total ao serviço do Evangelho, configura e dinamiza a sua existência, uma vez que somos «vanguarda evangelizadora» (CPR 85) no coração da Igreja e do mundo.

 

3. 1. 2. Possuídos pelo Espírito

O Espírito que possuímos e que nos possui é o mesmo que irrompeu com força incontrolável do Pentecostes; que se apoderou de Paulo a caminho de Damasco; que invadiu Claret na sua juventude, sobretudo por meio da palavra profética; que o consagrou, como Jesus, Filho do Coração de Maria; que se apodera do claretiano e o converte em missionário apostólico. Também nós fomos agraciados com a Unção do Espírito (cf. CC 39), como Jesus, para nos configurarmos com Ele. A unção não acontece de um modo pontual num determinado momento; é todo um processo: «os que fomos chamados a seguir e colaborar na obra que o Pai lhe confiou, temos de imitar Jesus Cristo e de O contemplar assiduamente, deixando-nos imbuir do Seu espírito, de tal modo que já não sejamos nós próprios a viver, mas seja Cristo quem realmente vive em nós. Só assim nos tornaremos instrumentos eficazes do Senhor, para anunciar o Reino dos Céus» (CC. 39). 

Esta foi, precisamente, a experiência do Fundador que, nas diferentes etapas da sua vida, foi vivendo em comunhão com o Espírito através de diversas mediações. Em Claret nota-se abertura contínua às surpresas do Espírito, que vão da experiência na cruz ao gozo da comunhão mais íntima. É o Espírito que o guia na obscuridade da fé e na claridade da Palavra de Deus, chave infalível de ligação coma vontade do Pai, com o seu projecto de salvação.

Em renovada e crescente fidelidade ao Espírito, a nossa espiritualidade coloca-se na utopia evangélica e encarna-se na realização da missão (CPR 52). Quem se deixa guiar pelo Espírito, fica possuído por Ele e entra na órbita da intimidade com Deus que fortalece o nosso compromisso evangelizador. 

 

3. 1. 3 Forjados pela Palavra e pela Comunidade

Paulo forjou-se no contacto como Antigo Testamento, bebido na mesma fonte, com os Apóstolos e com a comunidade apostólica.

Claret entrou num processo de formação por meio da Palavra e experiências fortes do mundo e de Deus.

A um claretiano pede-se-lhe que tenha «paixão» pela Palavra: «A nossa vocação específica, no meio do Povo de Deus, é o ministério da Palavra, pelo qual anunciamos aos homens o mistério total de Cristo» (cf. CC 46). Alimentos em nós a atitude de nos deixarmos interpelar pela Palavra, escutemo-la como convite a uma vida nova; leiamo-la em chave carismática à luz dos desafios que reclama o nosso serviço missionário. (CC. 34; MCH 165; CPR 54). Trata-se de uma escuta da que Maria, tanto para o Fundador como para nós, é modelo e inspiração (cf. SP.15); uma escuta que nos forja pessoalmente como missionários da boa nova e nos constitui em comunidade disposta a assumir as consequências desse anúncio (cf. SP 7).

Alimentados pela Palavra, a comunidade claretiana gozados frutos do Espírito: «amor, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio de si mesmo» (Gal 5, 22-23), e abre-se com satisfação ao serviço da evangelização.

A força missionária da comunidade está na caridade dos discípulos que amam, se amam, seguem o Mestre e proclamam o Evangelho com o testemunho e a palavra. Hoje «temos uma consciência mais clara de que devemos ser comunidade para a missão» (CPR 13), «convocada pelo Espírito para o anúncio missionário da Palavra» (SP 7).

 

3. 1. 4. Abertos aos sinais dos tempos e dos lugares

Uma constante dos grandes santos e dos grandes missionários foi sempre a capacidade de saberem ler teologicamente os sinais dos tempos e lugares. Paulo encontro vários sinais e desafios no seu tempo e, respondendo a uns e a outros, realiza o seu incansável trabalho apostólico. Claret encontrou, também, sinais diferentes que expressa em diferentes análises: «A humanidade parece ter-se empenhado em lançar-se por novos e desconhecidos caminhos, caminhos que não foram traçados pela mão de Deus» (EM. P. 259). «É grande, sobretudo hoje em dia (…) a indiferença dos cristãos e muita a indiferença perante os enormes bens que, com tanto afã e sofrimento, o Senhor lhes oferece para os conduzir à posse do sumo bem» (EM. p. 345). A tudo isto pode acrescentar-se a decadência da fé: «Ao ver como decaía a prática da vida cristã dos povos por falta de pregação, quis associar-se a outros sacerdotes para que, entregando-se ao ministério da Palavra, conseguissem juntos o que ele sozinho não conseguia» (PE. 6).

Um grande sinal positivo, comum, detectado já por Paulo e que ainda se mantém, é a ânsia de libertação que o mundo experimenta: a criação inteira espera «ser libertada da servidão da corrupção para participar, livremente, da glória dos filhos de Deus» (Rom 8, 21).

 A atenção aos sinais dos tempos continua a ser uma necessidade obrigatória na vida de uma comunidade missionária: «O nosso trabalho, como claretianos, pediu-nos uma atenção total aos sinais dos tempos e aos desafios que a história e as mudanças nos lançam. É aí que descobrimos o que para nós constitui, em cada tempo e lugar, "o mais urgente, oportuno e eficaz"» (CPR 5; cf. SP 1;2;3).

 

3. 1. 5. Disponíveis para a Evangelização Universal

A disponibilidade é uma realidade intrínseca à vocação missionária. Paulo manifesta sempre esta atitude: «Pregar o Evangelho não é para mim motivo de glória; é-me imposta essa obrigação: Ai de mim se não evangelizar» (1Cor 9,16). Em Claret aparece esta mesma atitude. Partindo da urgência do zelo apostólico, soube fazer a passagem da estabilidade pastoral para as fronteiras da missão. 

Os claretianos são convidados a fomentar «atitudes de disponibilidade, êxodo, itinerância, docilidade ao Espírito (CPR 52); a estarem disponíveis para serem enviados a qualquer parte do mundo (CC. 32; 40; 48; 77; 84). A disponibilidade anda ligada à itinerância, entendida sobretudo como desapego, que não é instabilidade mas uma espécie de mística da desinstalação.

 

3. 1. 6. Enfrentando e aceitando riscos, perigos e fracassos

A cruz está no coração da missão. Paulo, precisamente porque não se envergonha do Evangelho, que é força de Deus para a salvação daquele que acredita (cf. Rom 1, 16), vê-se submetido a toda a espécie de conflitos, calúnias e perseguições, trabalhos, prisões, açoites e perigos de morte (cf. 2Cor 11, 23-28).

Em Claret acontece o mesmo: «Trazemos sempre no nosso corpo os traços da morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo. 2Cor 4,10» (EA. p. 459). Claret repete frequentemente a frase de S. Paulo: «Todos os que aspiram a viver piedosamente em Jesus Cristo hão-de sofrer perseguições» (2Tim 3,12). E comenta: «Grande e muito grande honra é para todo o cristão o poder imitar Jesus, estar perto de Jesus, levar com Jesus a cruz. Além disso é muito grande também a esperança da eterna felicidade que o que sofre transporta consigo, porque está escrito que se sofremos com Cristo, com Cristo seremos glorificados» (EE. p. 235).

Claret desejava selar com o seu próprio sangue as verdades evangélicas em que acreditava e proclamava: «Todas as minhas aspirações foram sempre morrer num hospital como pobre, num cadafalso como mártir, ou assassinado pelos inimigos da sacrossanta Religião que ditosamente professamos e pregamos, e quisera eu selar com o meu sangue as virtudes e verdades que preguei e ensinei» (Aut. 467). A atitude de nunca recuar, mas ser sempre fiel ao anúncio do Evangelho, é uma constante no santo, sobretudo depois do atentado de Holguín: «Tinha fome e sede de padecer trabalhos e de derramar o sangue por Jesus e Maria; do púlpito abaixo dizia que desejava selar com o meu sangue as verdades que pregava» (Aut. 537).

Evangelizar é, com frequência, um trabalho árduo e difícil. Existem riscos de ser incompreendidos, falseados e perseguidos. Paulo foi levado a tribunal em Jerusalém e Roma. Sabemos bem como Claret foi perseguido e caluniado e como nessas situações procurava identificar-se com os sentimentos e atitudes do Senhor, a exemplo dos Apóstolos, especialmente de Paulo, e repetia com valentia as palavras do Apóstolo: «Mas eu nenhuma destas coisas temo. Mas a meus olhos, a vida não tem valor algum, desde que eu possa concluir a minha carreira e cumprir amissão que recebi do Senhor Jesus, dando testemunho da graça de Deus (cf. Act 20, 24)» (EA, p. 449, Aut. 201; Carta Pastoral ao povo, p. 4).

Transcrevendo quase literalmente um texto do Pe. Fundador declara inspiração paulina (cf. CC 1865, II, n.º11), dizem as Constituições: «Recordando as palavras do Senhor: “Quem perde a sua vida por mim e pelo Evangelho, a salvará” (Mc. 8, 35), importa que procurem alegrar-se em toda a adversidade, na fome, na sede, na nudez, nos trabalhos, nas calúnias, nas perseguições e em todo o tipo de tribulação (cf. 2Cor 11, 16-33; Rom 5, 3), até que possa dizer com o Apóstolo: “Deus me livre de me gloriar a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gal 6, 14)» (CC 44).       

Os perigos que aguardam o missionário podem levá-lo até ao martírio, como sucedeu a Paulo: «Todos os Apóstolos foram perseguidos e morreram no cumprimento do seu ministério, e o Apóstolo São Paulo, em particular, faz uma clara descrição das suas perseguições (cf. 2Cor 11, 22-29). Quem se importará mais com perseguições, calúnias e outras dificuldades que poderão colocar-se a um missionário, vendo que Jesus Cristo, São Paulo, os outros Apóstolos e todos os verdadeiros missionários passaram pelo mesmo? (cf. Jo 15, 20; Act 17, 32; EE p. 352).

Muitos claretianos foram e são perseguidos e martirizados por confessar e proclamar a fé com valentia. Entre eles os Beatos Mártires de Barbastro, o Beato André Solá Molist e muitas outras testemunhas do Evangelho que deram a vida pela causa de Jesus.  

Finalmente, também houve fracassos. Paulo em Atenas sofreu uma grave contradição; a sua mensagem nem foi entendida nem valorizada: «sobre isso te ouviremos outra vez» (Act. 17, 32). Além disso falharam-lhe alguns colaboradores e, como sabemos, quanta oposição teve de enfrentar por causados seus correligionários. 

Claret também experimentou fracassos e alguns deles não foram pequenos; umas vezes eram fruto das suas limitações, outras em consequência da forte oposição que encontrava no seu ministério. Claret passa, ainda, pela noite escura do abandono, como Jesus na Cruz e como Paulo (cf. EA p. 666). Mas sempre, inspirado em Jesus e no próprio Paulo, confessa: «Habitualmente não recusava as penas; antes pelo contrário amava-as e desejava morrer por Jesus Cristo. Não me colocava, temerariamente, nos perigos, mas gostava que o Superior me enviasse a ligares perigosos para poder ter a sorte de morrer assassinado por Jesus Cristo. (Aut. 465-466). 

 

3. 1. 7. Cumprindo fielmente a missão confiada

A vocação missionária é puro dom de Deus: «Pela graça de Deus, sou o que sou; e a graça que Ele me deu não foi inútil» (1Cor 15, 10). Foi o que Paulo e Claret experimentaram. Nascidos carismaticamente para evangelizar cumprem fielmente a sua missão. Também para nós, que participamos do seu carisma missionário, a evangelização deve absorver por completo ideais, capacidades, energias, meios e possibilidades. Cumprir fielmente a missão confiada requer, pelo menos, três coisas:

a)     Dedicarmo-nos inteiramente a ela com êxitos e fracassos;

b)    Evangelizar partindo das limitações impostas pela própria natureza ou provenientes das diferentes situações sociais;

c)     Aproveitar todos os meios aos nosso alcance, sustentados sempre na acção apostólica pela oração, e assumindo nela a humilhação e a cruz.

Parte integrante da fidelidade é a dedicação total, com audácia, à causa do Reino, impulsionados sempre pela caridade de Cristo.

 

3. 1. 8. Defendendo e promovendo a nossa identidade missionária

A defesa da própria identidade apostólica é algo patente tanto nos Apóstolos como em Paulo e Claret:

ü  Os Apóstolos dizem: «Quanto a nós, entregar-nos-emos assiduamente à oração e ao serviço da Palavra» (Act. 6,4)

ü  Paulo: «Cristo não me enviou a baptizar, mas a pregar o Evangelho» (1Cor 1, 17) e «Ai de mim se não evangelizar» (1Cor 9, 16)

ü  Claret teve em tal consideração a sua vocação missionária, que a considerava superior a todas as outras e viveu-a com inquebrantável fidelidade, plenamente convencido de que era a sua, a que deus lhe tinha concedido e a que sempre defendeu contra ventos e marés, inclusive em situações teoricamente pouco favoráveis e até adversas, como a de arcebispo de Cuba e a de confessor da rainha.  

A nossa identidade é o serviço missionário da Palavra (CC 46), que se concretiza naquelas opções (MCH 160 – 178) que a Congregação determinou como expressão do carisma claretiano hoje. As diferentes estruturas ou acções pastorais através das quais exprimimos este dom carismático, somente serão na medida em que consigam encarnar essas opções de missão.

 

3. 1. 9. Vivendo com alegria o radicalismo dos profetas e dos mártires 

Tanto Paulo como Claret viveram radicalmente o seguimento de Jesus evangelizador: assumir a proposta de Jesus a negar-se a si mesmo, tomar a cruz, deixar tudo e dar a vida por Cristo e pelo Evangelho. (cf. Mc. 8,35). Trata-se de um radicalismo que liberta, purifica e ajuda a enfrentar as tribulações inerentes ao ministério evangelizador.

A nós pede-se-nos também para nos inserirmos profundamente nesta raiz profética e martirial: «Devemos anunciar a Boa Nova do Reino com fidelidade e fortaleza, especialmente quando tantos a ele se opõem, levados pela ambição do poder, o afã das riquezas ou a ânsia dos prazeres» (CC46). N verdade «experimentamos com frequência as dificuldades do ministério, porque transmitir uma mensagem de anúncio e de denúncia, em situações conflituosas de descrença, de injustiça, de alienação ou de morte, é sempre perigoso e arriscado» (SP 17)

 

3.2. Em linha de fidelidade e crescimento

«Quem nos separará do amor de Cristo?» (Rom 8, 35). O amor de Cristo é para nós dom do Espírito de Pentecostes, que nos prepara para a missão. Em sintonia com Paulo e Claret, pede-se-nos fidelidade criativa à vocação e à nossa identidade missionária. Esta mesma fidelidade introduz-nos no dinamismo decrescimento vocacional que se expressa, como se expressou em Paulo e Claret, num compromisso cada vez mais radical pelo seguimento a Jesus e ao anúncio do Evangelho do Reino.

 

4. PAULO E OS CLARETIANOS

Como o Foi para o Fundador, também para nós Paulo representa umponto dereferência inquestionável. Vejamos como o podemos captar e compreender.

           

4.1. Como nos colocamos, hoje, perante Claret e Paulo

Os claretianos ligam-se com Paulo através de Claret. Claret é o filtro que nos indica como temos de ver a Paulo, lê-lo e ditá-lo para que chegue a ser verdadeira inspiração para anossa vida e missão.

Em Paulo, em Claret e em nós a missão tem carácter de centralidade. Sem ela não faz sentido na nossa vida. Daí que tudo tenha de girar à volta desse centro, que é ao mesmo tempo eixo e impulso dinâmico da realidade vocacional, da espiritualidade, do estilo de vida, e que determina o modo de ser da nossa comunidade e do seu trabalho apostólico.

Como claretianos, perante estes dois extraordinários missionários colocamo-nos como discípulos, como pessoas identificadas com o ideal de missão que ambos viveram na totalidade e em profundidade. Do mesmo que Claret bebeu em dose abundante a riqueza carismática missionária de Paulo e, decerto modo, fez-se missionário “paulino”, também nós devemos fazer por igual. Para Claret e para nós, Paulo não só é modelo de identificação vocacional, mas também ponto de referência contínua tanto na doutrina como na vida, na vocação e na missão.

«A assimilação do estilo missionário do Padre Fundador» (CPR 43) leva-nos a mergulhar nos seus mesmos modelos e a reproduzi-los na medida que nos for possível.

 

4.2 Leitura claretiana de Paulo

Como podemos, hoje, ler Paulo partindo da nossa condição de «ouvintes e servidores da Palavra» e «promotores da fraternidade universal». Claret leu a Bíblia «em chave carismática» e fez uma «leitura vocacional» (cf. CPR 54; SP 14 e 14,1). Certamente que fez o mesmo com S. Paulo, figura, nesse sentido, de grande relevo.

A palavra de Paulo transmite-nos a Palavra de Deus «viva e eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes» (Heb 4, 12). Lida em chave carismática, permite-nos voltar cada dia ao dom recebido, que dinamiza a estrutura íntima do claretiano. Claret parece dizer-nos: se quereis compreender o meu espírito, lede Paulo, nele encontrareis quase tudo; de tal modo bebi eu nessa fonte que, por minha mediação, ele se converteu também em fonte evangélica para vós. Ler Paulo é, pois, revitalizar as raízes da nossa vocação evangelizadora e dar consistência à nossa espiritualidade missionária.

O Pe. Fundador não soube nem quis fazer exegese de altos voos; situou-se, simplesmente, no campo espiritual: no contacto imediato com a Palavra, que leva à interpelação pessoal: «Havia passagens que me faziam tão forte impressão, que me parecia ouvir uma voz dizer-me o que eu lia…» (Aut. 114). Na experiencia de uma leitura assídua e cordial sentia a voz do Senhor que me chamava a pregar (cf. Aut. 120).

Seguindo o seu exemplo o claretiano deve «estar sempre à escuta, aberto às surpresas da Palavra e do Espírito» (SP 2). Nós, sem dúvida, deveremos aproveitar ao máximo o que a investigação bíblica coloca nas nossas mãos para uma melhor compreensão da Escritura.

Resumindo, podemos dizer que devemos ler Paulo:

a)     Com a particularidade com que Claret se aproximava de Paulo: descobrindo sempre nele o missionário arrojado.

b)    Situando-nos com Paulo na profunda contemplação de Cristo crucificado, para ser capazes de anunciar o Senhor e não nos pregarmos a nós mesmos.

c)     De uma perspectiva inteiramente missionária, procurar na sua palavra e experiência, inspiração e caminhos para a nossa evangelização.

d)    Procurar unirmo-nos á sua luta, com as armas da fé, contra tudo o que se opõe ao Evangelho.

e)     Em total docilidade às moções do Espírito, de modo que a leitura seja estimulante e excitante (cf. Aut. 113), assemelhar-se ao efeito da seta que fere o coração (cf. Aut. 69); e nos leva a conhecer a vontade de Deus e a trabalhar para que seja conhecido, amado e servido por todas as criaturas (cf. Aut. 233).

f)     Com grande amor à Igreja, procurar os traços do verdadeiro serviço à comunidade de crentes.

g)    Procurar, através da leitura, um maior conhecimento de Cristo e umas chaves de interpretação da realidade do mundo de hoje.

 

4. 3 Releitura de Paulo hoje  

Continua em pé a questão de como interpretar Paulo, partindo da realidade sociocultural do mundo e da Igreja de hoje. É um problema comum a todos os livros da Bíblia.

A primeira interpretação de Paulo fá-la a Igreja, à qual Jesus confiou a sua Palavra salvadora. Mas também nós, desde a nossa óptica carismática, entendemos o Apóstolo como proposta de graça para o mundo e para o homem de hoje. Em Paulo Claret encontrou abundância de comunhão e de missão, e novas luzes para «pregar a obediência da fé» (Rom 1, 5).

Na leitura vocacional claretiana, devemos fixar-nos de modo particular naquelas passagens em que nos aparece com maior clarividência a experiência vocacional de Paulo, sempre unida à sua profunda experiência de Cristo, e à sua compreensão da missão apostólica na comunidade cristã.

O conhecimento profundo de Paulo irá fazer-nos sentir «a urgência de responder, sobretudo, ao clamor proveniente da pobreza e da injustiça…; aos desafios da secularização com as suas implicações e as do mundo não cristão» (CPR 47); e levar-nos-á a comprometermo-nos na construção do Reino, atentos ao que é peculiar e à riqueza cultural dos povos a quem somos enviados.

 

 

5. CONCLUSÃO

 

5.1. Valor da experiência claretiana de Paulo

A experiência pessoal que Claret teve de Paulo continua a ser válida para nós. Há um modo de entender a escritura partindo de uma perspectiva crítica de aprofundamento exegético. Claret não recusa este método, mas, como não tinha muita preparação, não o privilegia. Há outro método de aproximação, mais adequado ao seu temperamento activo, que é o deixar-se conduzir pela corrente do Espírito que faz ressoar a Palavra na sua mente e no seu coração. Assim, selecciona de cada vez, o que melhor se encaixa nos seus planos; e, partindo daí, tira princípios de vida cristã, que o ajudam a desenvolver a própria fé e a vivência do mistério cristão, o que o estimula para a missão e lhe oferece conteúdos sólidos para evangelizar.

O claretiano, sem descuidar o estudo exegético e teológico, deve reconhecer o valor da experiência claretiana de Paulo e levar à prática esse método de leitura carismática, tão característico do nosso Fundador, Santo António M.ª Claret.

                       

5.2. Assumir crítica e criativamente a inspiração de Paulo e Claret

O que acabamos de dizer não impede que o claretiano de hoje, colocado numa situação diferente e muito distante da de Paulo e Claret, se esforce por discernir, com espírito crítico, o que faz parte de uma época ou de uma determinada espiritualidade, como a dos séculos passados, e os princípios hoje vigentes na exegese moderna. Tem de se insistir na necessidade de não se perder as raízes profundas do ser missionário que maravilhosamente se manifestaram nas ressonâncias que encontrou em Claret a figura de Paulo.

 

5.3. «Reviver» a sua experiência com projecção de futuro

Claret encontrou fundamentalmente em Paulo uma confirmação do seu ser missionário, e, além disso, estímulo, apoio, orientações, ideias criativas e fecundas para a sua vida e apostolado. A nós cabe-nos reviver essa experiência. Pode dizer-se, sem sombra de dúvidas, que a Palavra de Deus – particularmente o Evangelho e as Cartas de Paulo – foram para ele uma realidade determinante na decisão, e corajoso esforço, para alcançar a santidade e responder ao chamamento para evangelizar.

Temos de nos consciencializar nos dias de hoje que as nossa raízes vêm de longe: o claretiano encontra Paulo – na dupla dimensão da experiência de vida e doutrina – através de um filtro: Claret. O contacto vivo com Paulo, seguindo o espírito do Evangelho, vai levar-nos a sermos «pessoas capazes para comunicar com competência o Evangelho ao homem de hoje, e para dar segurança, ao mesmo tempo, à nossa busca de novas respostas» (CPR 30). Além disso vai ajudar-nos a superar «as maneiras de pensar e agir que não correspondem ao radicalismo evangélico que professamos» e que provocam «a atonia da nossa vida missionária, a falta de audácia na revisão de posições e a escassa capacidade de interpelação do nosso testemunho». (SP 13).

Talvez toda a experiência paulina de Claret, se possa condensar na trilogia que aparece num apêndice ao opúsculo «O amante de Jesus Cristo»: heroicamente orar, heroicamente trabalhar, heroicamente sofrer.

 

 
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