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1. IMPORTÂNCIA DA SUA LEITURA
Regressar uma e outra vez às nossas raízes é sempre um serviço que se presta
à nossa própria identidade. Neste sentido, juntamente com o encontro com
Jesus, nada se nos afigura tão favorável para o crescimento na identidade
cristã e missionária, como olharmos para Paulo de Tarso. Os seus escritos
colocam-nos num contacto cheio de frescura com as origens do cristianismo.
São, se não o que primeiro se escreveu entre os cristãos, ao menos o mais
antigo que chegou até nós. Provavelmente a Carta aos Tessalonicenses é o
texto escrito mais antigo da Igreja.
Por outro lado, a produção literária paulina (de Paulo e da sua escola) tem
uma considerável extensão. Três quintas partes do Novo Testamento, não
narrativas, chegam-nos com o seu nome; há escritos neotestamentários em nome
de outros apóstolos que estão, inconfundivelmente “tocados” de paulinismo,
como são as Cartas de Pedro ou a obra de S. Lucas. Também há já muito tempo
que se destaca a abundância da terminologia paulina no Evangelho de Marcos
Quanto julgamos saber Paulo é o primeiro pensador cristão de envergadura,
que com a sua genial interpretação da revelação judaica, que atinge o seu
esplendor em Cristo, pode legitimar a pretensão cristã, cronologicamente
anterior a ele, de ser o novo e definitivo povo de Deus e de propor um
comportamento consequente. O seu timbre teológico fez dele uma figura
normativa e insuspeita em toda a reflexão cristã posterior. A sua influência
foi decisiva nos esquemas teológicos ocidentais, tanto católicos como
protestantes. E, em todas as situações de controvérsia ou de renovação
eclesial, Paulo foi sempre referência obrigatória.
Mas Paulo, mais do que um pensador, foi um missionário. A sua
entrada na Igreja supôs um impulso gigantesco e definitivo para a missão,
tanto entre judeus como entre pagãos (com preferência por estes).
Trabalhador e organizador infatigável soube rodear-se de colaboradores,
verdadeiras equipas de evangelização, e superar, por vezes em situação
martirial, os obstáculos que se foram atravessando no seu caminho. A sua
expressão: «desde Jerusalém, e em todas as direcções, até à Ilíria, tenho
pregado o Evangelho de Cristo» (Rom 15, 19), é muito mais do que a linguagem
hiperbólica de um oriental.
Felizmente Paulo é um personagem acessível. Não possuímos, sobre nenhum
outro da Igreja Primitiva, tanta informação. Praticamente só sobre ele se
pode elaborar um esboço biográfico fiável e só através dele se podem
reconstruir, com notável objectividade, os primeiros passos do crescimento
da Igreja. É verdade que Paulo não é um historiador, mas a sua reflexão
teológica nasce a par da vida da Igreja e, juntamente com ela, oferece-nos
dados, em primeira mão, de grande valor.
2. 1. Fontes em primeira mão
As fontes em primeira mão são as suas Cartas. Mas é preciso, desde logo,
distinguir entre cartas autênticas e não autênticas. Actualmente
distinguem-se, entre os escritos que nos chegaram com o nome de Paulo, três
categorias, que convencionalmente podemos chamar protopaulinismo,
deuteropaulinismo e tritopaulinismo. Neste último podem incluir-se outro
conjunto de escritos, anónimos uns (Hebreus) e pseudónimos, outros que, de
um ou outro modo, estão influenciados ou confrontados com o pensamento do
grande missionário. O paulinismo reveste-se de uma espécie de corrente
centrífuga, que vai de um núcleo inicial, puro e inconfundível, até uma
periferia onde o paulino se combina com outras correntes e se acomoda a
novas situações eclesiais.
O critério é multíplice, desde o léxico até à evolução teológica em
escatologia, eclesiologia, ética, etc. Tendo isto presente, actualmente,
qualquer investigador reconhece autenticidade paulina (protopaulinismo) a
sete escritos: 1Tessalonicenses, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses,
Filémon e Romanos. Em todas estas cartas conta-se com a volta do Senhor que
está próxima (cf. 1Ts 4, 17; 1Cor 15, 52; Fl 3, 20ss; Rom13, 11ss); os
carismas têm grande importância (1Ts 5, 19ss; 1Cor 12, 8ss; Rom 12, 6) e é
escassa a adaptação da vida e mensagem cristã aos meios culturais por onde a
Igreja se vai expandindo (cf. Rom 12, 2; 1Cor 7, 29-31). Neste momento é
frequente o confronto entre as comunidades paulinas e o cristianismo de tipo
judaico. O próprio Paulo é por vezes atacado.
As Cartas aos Efésios e Colossenses (sem unanimidade total em relação a esta
última) são consideradas como uma primeira escola paulina. A polémica
judeo-cristã desapareceu quase por completo, a parusía perdeu-se de vista,
os escritos estão dominados por uma linguagem “pré-gnóstica” (conhecimento,
inteligência, ciência, etc.) e Paulo é figura indiscutível e canonizada,
como “doutor” em Efésios e como”mártir” em Colossenses.
Da terceira geração Paulina são consideradas as Cartas Pastorais (1 e 2 a
Timóteo e Tito). O tempo passou e a Igreja encarnou-se plenamente, acolhendo
a totalidade das estruturas deste mundo: casamento, senhores e escravos,
hierarquia com determinadas exigências de formação. É preciso manter uma boa
relação com as autoridades civis. Os hereges (“falsos doutores”) estão sob
vigilância. A proximidade dos tempos apostólicos obriga a velar pela
ortodoxia (“conservar o depósito”); em relação aos dissidentes não há
discussão, mas excomunhão. Predomina em grande escala o ético sobre o
teológico-kerigmático. Talvez nesta terceira geração paulina se deva colocar
2 Tessalonicenses mesmo sabendo que nem todos os estudiosos estão de acordo.
2.1.1 Como utilizar as cartas
É evidente que, para o conhecimento histórico de Paulo, as cartas autênticas
(protopaulinas) são de valor indiscutível, mas não devem desdenhar-se a
priori todos os dados biográficos ou doutrinais que nos proporcionem os
escritos de escola.
Apesar do valor que têm as cartas saídas da mão (ou ditadas) de Paulo, o seu
uso não está isento de limitações e dificuldades. Uma delas é o facto de que
se trata de cartas (não de epístolas); a carta é um escrito ocasional e
fragmentário; entre remetente e destinatários existe conhecimento prévio e
não é preciso explicar as coisas exaustivamente. Em muitos casos bastam
simples alusões. Daí a importância em descobrir com a maior precisão
possível a situação histórico comunitária em que cada Carta é escrita para
se compreenderem as alusões e pormenores. As exposições teológicas, ainda
que, por vezes, de uma certa extensão, nunca são exaustivas. O leitor tem de
“reconstruir” o pensamento do Apóstolo tendo presente os diferentes
“ouvintes”.
Outra limitação com que nos deparamos ao manejar o epistolário paulino
autêntico é que todo ele é precedido de um período bastante breve da vida do
Apóstolo: os cinco ou seis últimos anos do seu ministério. Isto faz com que
se nos escape muito do que foi o seu itinerário apostólico e doutrinal, não
obstante as suas Cartas nos oferecerem múltiplas referências a momentos
passados da sua vida.
Uma dificuldade implica também o facto de que as Cartas paulinas não estão
datadas, e, portanto, não conhecemos antecipadamente a sucessão cronológica
(as nossas Bíblias apresentam-nos por ordem de extensão, de mais para
menos). É de consenso geral que a mais antiga é a 1Tessalonicenses e a
última, talvez, Romanos, por uns designada como “Testamento Espiritual de S.
Paulo”. Mas uma ordenação cronológica satisfatória de todas elas é,
praticamente, impossível, sobretudo se se tiver presente o fenómeno do
“amálgama” ou combinações posteriores de múltiplos escritos. Em geral
considera-se que 2Coríntios e Filipenses são formadas por várias cartas (3
em Filipenses e outras 3 ou cinco, em 2Coríntios), diferentes na sua origem.
Nos últimos anos vem ganhando força a teoria de que também a 1Coríntios,
1Tessalonicenses e, talvez, Romanos não são textos unitários.
Finalmente, para a biografia de Paulo, tem de se ter presente que, por
princípio, não escreve as suas cartas a “contar a sua vida” e que, quando o
faz, costuma ser num contexto polémico, o que pode tirar objectividade, por
parcialidade, às passagens em questão. As passagens autobiográficas são: 1Ts
2,1-12; Gal 1,11 - 2,14; 1Cor 15,1-11; Fl 3,4-16; Rom 15,14-32, e grande
parte de 2Cor.
Todas estas considerações não tiram nada do seu valor às Cartas. Demonstram
simplesmente a necessidade de um método cuidadoso e exigente, por vezes um
tanto critico-técnico, de leitura e estudo.
2.2. Os Actos dos Apóstolos e a Biografia de Paulo
Bastante mais de metade dos Actos do Apóstolos são dedicados ao ministério
de Paulo. Paulo é o protagonista nessa mini-história do cristianismo
nascente. Os primeiros capítulos do livro, em que Paulo não figura, parecem
terem a intenção de o ligarem a Jesus Cristo. Tradicionalmente tem se usado
o Livro do Actos do Apóstolos para descrever a gesta apostólica do grande
missionário que foi Paulo. É partindo dos Actos que se traça o mapa das
“viagens de S. Paulo” e que encontramos em, praticamente, todas as Bíblias.
Não restam dúvidas que os Actos são escritos para as Igrejas de origem
paulina, e a legitimação da Igreja de Paulo é, ao mesmo tempo, a legitimação
da Igreja de S. Lucas.
Cada vez se relativiza mais o valor histórico dos Actos do
Apóstolos. O autor, dificilmente foi companheiro de viagem de Paulo (não
obstante as passagens “nós” de Act. 16,10-17; 20,5-15; 21,1-18; 27,1 -
28,16), não utiliza – por talvez ainda não as conhecer, uma vez que ainda
não tinham sido divulgadas – as Cartas, mas apenas memórias conservados nas
comunidades paulinas, memórias já teologizadas e, por vezes, um tanto
marcadas pela lenda.
Característica dos Actos é a centralidade de Jerusalém, dos Doze e de Pedro.
Trata-se do lugar dos actos redentores e das pessoas directamente escolhidas
e enviadas por Jesus, as únicas com capacidade para legitimar todo o
posterior missionário da Igreja, como acontece com Paulo. Por isso mesmo, o
autor, multiplicará os contactos de Paulo com Jerusalém e ressaltará a sua
dependência das autoridades desta Igreja. Por isso, enquanto Pulo afirma que
a primeira visita a Jerusalém foi privada e breve, e que só viu Pedro e
Tiago (Gal 1,18s.), nos Actos (9,28) é referida uma estadia prolongada «a
partir desse dia, ficou com eles (os Apóstolos), indo e vindo por Jerusalém
e confessando afoitamente o nome do Senhor», o que, supostamente, prevê
saídas a pregar aos pagão na Arábia ou noutros lugares (contra Gal 1,17),
pois não “se lhe permite” ir a pregar aos pagãos antes de tomar contacto com
Jerusalém, nem sem que Pedro inicie a abertura missionária (10,1 - 11,18).
No seu discurso de Antioquia de Pisídia (Act 13,31ss.), Paulo apresenta-se
como inferior aos Doze. No “Concílio de Jerusalém” não trata Pedro e Tiago
de igual para igual, mas apresenta-se mais como ouvinte (Act 15,6.12; contra
Gal 2,5ss.), e, ao longo de todo o livro nega-se-lhe o título de Apóstolo,
porque Paulo lutou toda a vida, como o deixam ver, bem claro, as suas
Cartas.
Do mesmo modo isto leva a dar grande relevo à intervenção de Pedro na casa
de Cornélio (Act 10,1 - 11,18), e a antecipá-la cronologicamente, pois, sem
dúvida, é posterior ao Concílio de Jerusalém (Act 15), uma vez que, aqui,
Pedro é apenas apóstolo dos judeus (Gal 2,8). Na realidade não é uma
passagem de grande transcendência, pois Cornélio já era “temente a Deus”
(Act 10,2) mas o autor dá ao acontecimento grande envergadura para fazer de
Pedro o pioneiro da missão aos pagãos.
Nesta mesma perspectiva não deixa de ser curioso o interesse do autor em
fazer de Paulo um judeu perseverante e fervoroso que nunca rompe com o seu
passado (Act 16,3; 18,18; 21,26; 24,17; 28,17; etc.), bem diferente das
impurezas dos seus antigos fervores judaicos (Fil 3,7) ou de quem se acomoda
às oportunidades pastorais de momento (1Co 9,19ss.).
Face à pacífica continuidade entre judaísmo e cristianismo, e à intenção
edificante do autor, em Actos atenuam-se ou dissimulam-se todas as tensões
da igreja primitiva: o problema dos helenistas (Act 6, 1-6) é reduzido a uma
questão administrativa; o “concílio” (Act 15; mas cf. Gal 2,3) decorre como
uma vasilha de azeite; entre Pedro e Paulo não há diferenças, pois Pedro usa
a linguagem paulina (Act 10,43; 15,8-11) e Paulo não tem nenhum problema com
as suas comunidades, mas, pelo contrário, é “adorado” por elas (Act
20,36-38), inclusive pelos da Palestina (Act 21,4.12-14).
O desejo de engrandecer Paulo induz o autor a fazer dele o fundador do maior
número possível de comunidades cristãs, violentando, talvez, algumas
tradições. Daí a infelicidade de textos como Actos 18, 19-21, relacionado
com a fundação de Éfeso, o silêncio sobre a fé cristã de Áquila e Priscila
(Act 18, 2), chegados a Corinto antes de Paulo. Nesta perspectiva devem
ler-se os intermináveis paralelismos entre a “paixão de Paulo” (Act 20-28) e
a de Jesus.
Também se nota uma certa apologia de Paulo não só perante outras igrejas,
mas também perante o império (o que é ao mesmo tempo apologia do
cristianismo, como religião, ou movimento não perigoso); daí a importância
das repetidas declarações da inocência de Paulo na boca dos dignitários
romanos; e, ainda o que, de negativo, significa o silêncio de Actos acerca
do Processo de Paulo.
Tudo isto pode conduzir a um simplista menosprezo dos dados de Actos. Em
muitos casos são confirmados pelas Cartas (cf. Pormenores tão
insignificantes como a fuga de Damasco escondido numa cesta, segundo Act
9,25 y 2Co 11,33). Outras muitas informações, como lugares, datas,
personagens, não estão sob a tendência do autor que assinalamos e, por isso
mesmo, se tornam, em princípio, admissíveis. A partir de Actos 20 não é
possível compaginar o texto de Lucas com as informações das Cartas.
2.3. E as cartas de escola?
Trata-se sempre de dados em segunda (ou terceira) mão, mas que, nem por
isso, se podem desprezar a priori. É possível que tanto em Efésios e
Colossenses como nas Cartas Pastorais se conservem algumas tradições
biográficas valiosas. Poderão ser sempre aproveitadas desde que não entrem
em contradição com informações mais directas. E, no que à doutrina se
refere, estes escritos mais próximos são o testemunho da fecundidade do
paulininismo, nalguns casos talvez a explicitação do que Paulo tinha deixado
no tinteiro.
Mas a situação varia muito nos diferentes escritos. Há quem opine que
Colossenses tenha sido escrita por Timóteo ainda em vida de Paulo (W.H.
Ollrog). Efésios torna-se incompreensível se não se tiver por pano de fundo
Romanos. A carta aos Hebreus contém uma elementar ressonância da teologia
paulina, do sangue e propiciatório (Rom 3,24s.), e uma alusão a Timóteo (Heb
13,23). Tiago responde a interpretações abusivas e erróneas do pensamento de
Paulo. Em 1Pedro ressoa vagamente muito o pensamento paulino, mas combinado
com outras correntes do cristianismo. 2Pedro reivindica uma interpretação
adulterada de Paulo (2Ped 3, 15s.) mas sem oferecer uma única ideia
específica do grande pensador cristão.
Um caso especialíssimo é 2Tessalonicenses, em que imita um Paulo que se
corrige ou até se contradiz a si mesmo, ao prevenir-se sobre o dano que pode
causar a uma comunidade serôdia uma espera apocalíptica febril (2Tes 2,1-2).
3. ESBOÇO BIOGRÁFICO DE PAULO
3.1. Origem, educação, profissão, estado
Paulo foi judeu da diáspora, judeu por herança, não por conversão, e de
família fariseia. Pelo seu fervor religioso, a sua ascendência não era para
ele algo indiferente, mas a garantia de ser depositário da escolha e bênção
de Abraão (Rom 9,3-5); talvez conhecesse alguns elementos da sua genealogia
pois, pelo menos, sabe a que tribo pertence (Fil 3,5). Nas suas Cartas nunca
fala do lugar do seu nascimento, mas a informação de Actos (22,3), sobre
Tarso de Cilícia, é indiscutível. Se Lucas pudesse tinha-o colocado a nascer
em Jerusalém. Há quanto tempo vivia a sua família em Tarso? Não deveriam ser
muitas gerações pois nela mantém-se muito viva a identidade judia e a
influência da cultura helénica sobre Paulo não é muito forte (contrariamente
ao que pretendiam algumas teorias do princípio do século XX que viam em
Paulo o grande helenizador do cristianismo). Nunca se soube com que
fundamento S. Jerónimo afirma que Paulo nasceu em Giscala (Galileia) e que,
portanto, tinha sido ele e não os seus antepassados, quem tinha emigrado
para a Cilicia. Sobre a sua cidadania romana (Act 16, 38; 22, 25ss; 25,11),
a hipótese mais aceitável é que a sua família tenha sido vendida como
escrava e, ao recuperar a liberdade, adquiriu dupla nacionalidade.
Não é menos complicado o que se refere à formação de Paulo. Não há dúvidas
de que era perito no uso e interpretação da Escritura. Romanos e Gálatas são
dois exemplos magistrais disso mesmo. Conhece e usa as regras da exegese
rabínica e a ficção que acompanhava o texto do Antigo Testamento (cf.1Co
10,4). Mas onde recebeu a formação? Segundo Actos 22, 3, em Jerusalém, “aos
pés de Gamaliel”. Não conhecemos nada sobre as escolas rabínicas da Cilicia;
por outro lado uma passagem de Actos, sem sombra de tendências suspeitas,
informa-nos sobre a residência de familiares de Paulo na cidade santa
(23,16). Mas não se explica com facilidade o silêncio absoluto, sobre o
assunto, nas suas Cartas. A educação recebida na célebre escola do rigorista
Gamaliel deveria figurar entre as “antigas glórias” de Paulo mencionadas em
Fil 3,5s. e 2Co 11,21s. Actos 22, 3 corresponde, na perfeição, às tendências
de Lucas.
Os alunos que se preparavam para serem rabinos aprendiam, em simultâneo, um
ofício manual, pois o artesanato, ao contrário do que acontecia no mundo
grego, estava prestigiado no judaísmo. De acordo com Actos 18, 3, Paulo,
como Áquila e Priscila, era fabricante de tendas. Nas suas Cartas refere-se,
por várias vezes, ao seu trabalho (1Tss 2,9; 2Co 11,7).
Mas é provável que, além de artesão, Saulo tenha sido missionário judeu.
Está suficientemente documentada uma grande actividade proselitista durante
o século primeiro (cf. Mt 23,15). O judeu da diáspora, pelo simples facto de
o ser, considerava-se “guia de cegos, luz dos que vivem nas trevas,
preceptor de ignorantes, mestre de crianças, etc.” (Rom 2,19s.). Pelo menos
esperava-se isto do fervor religioso de Saulo ou, talvez, algo mais. Com
efeito, na Galácia, parece que foi rotulado de “apóstata” uma vez que, ao
que parece, pregava ou não a circuncisão, segundo os lugares em que falava.
Em sua defesa, ele mesmo reconhece, que noutros tempos foi pregador da
circuncisão (Gal 5,11). É bom ter presente que não o terá feito sendo
cristão, pois deve estar a referir-se ao período anterior à sua conversão.
Muito provavelmente é acertado o misticismo do grande judeu de Tarso
percorrendo povoações e cidades da Síria (onde se encontrará com o
cristianismo) dedicado ao anúncio de Deus do Sinai e da Lei de Moisés.
Em relação ao estado civil de Saulo, o que sabemos é que, quando escreve a
1Coríntios está livre de obrigações matrimoniais e familiares (cf.7,8; 9,5);
deveria ser solteiro, viúvo ou divorciado. O normal entre os aprendizes para
rabino era casarem-se por volta dos 18 anos. Mas o celibato, por razões
religiosas, praticado em Qumrãn e por um ou outro rabino, indica-nos que não
seria impossível que Paulo fosse solteiro. E a sua doutrina acerca do
divórcio por questões de diferença religiosa (“privilégio paulino”, cf. 1Co
7,15), deixa em aberto a questão se ele mesmo beneficiou desse privilégio.
3.2.2. Forma-se uma comunidade cristã complexa
O judaísmo na Palestina era muito variado. Ia desde a ortodoxia afecta ao
templo (jerosolimitana) até à ortodoxia samaritana, passando pelos
helenistas que tinham sinagogas próprias (cf. Act 6,9) e pelos grupos
inconformistas como Qumrân, seitas baptistas, etc. Este pluralismo irá
afectar com muita prontidão a Igreja nascente, tanto porque os grupos
periféricos acolheram bem a pregação cristã inicial, como porque Jesus se
tinha dirigido especificamente a estes tipos de judaísmo (cf. Jo 1,35ss.; 4;
12, 20ss.).
A primeira grande tensão eclesial que conhecemos aparece-nos em Act 6, 1-6):
na Igreja não há igualdade, os “ortodoxos” (hebreus) levam a voz cantante ,
e os “adventícios” (helenistas) são descriminados. O problema da atenção às
mesas é a ponta do iceberg de uma diferença mais profunda. Os “sete” têm
todos nome grego (são helenistas), e não se dedicarão ao serviço de
camareiros (contra Act 6,3), mas à pregação e à realização de sinais
(milagres) (Act 6, 8; 8,5; 21,8) como os Doze. São a verdadeira hierarquia
do grupo helenista. Como os Doze são do grupo hebreu. Desde então, com uma
hierarquia própria, cada grupo terá maior autonomia e se acentuará a sua
identidade específica.
Os Helenistas, pela sua maior abertura à cultura, extraem com facilidade
consequências da mensagem de Jesus e relativizam a lei, o templo, etc. (Act
6, 11-14), comportamento que os torna odiosos ao judaísmo, não convertido, e
os distancia dos seus irmãos hebreus que continuam a ser judeus observantes
(Act. 6,7), tanto que muitos sacerdotes judeus podem aderir à igreja sem
receio de, por isso, perderem a pureza para o seu ministério.
A pregação de Estêvão, chefe do grupo helenista, torna-se insuportável para
a autoridade judia.É julgado e condenado pelo sinédrio (Act 6,15; 7,58) e a
sua igreja, judeo-cristã, é expulsa de Jerusalém (Act 8, 1b), enquanto a
igreja judeo-cristã hebreia pode continuar tranquilamente na cidade santa
(Act. 8, 1c).
3.2.3. Forte impulso na missão cristã
Os helenistas dispersos levam consigo a mensagem cristã e o seu espírito
aberto permite-lhes comunicá-la ao judaísmo heterodoxo (Samaria, cf. Act
8,6ss.), aos “tementes a Deus” (Act 8, 35) e inclusive aos simples pagãos
(Act 11,20). Muito antes de Pedro ir a Cesareia (Act 10, 1; 11,18), cidade
predominantemente pagã, onde já se encontrava Filipe (Act 8,40).
No Novo Testamento a comunidade de Antioquia da Síria deixou uma marca
profunda. Era uma comunidade mista, formada por antigos judeus e antigos
pagãos, e que se tornou num pujante centro de irradiação missionária. Pelo
seu carácter misto esta comunidade iniciou uma caminhada própria, com uma
independência das sinagogas cada vez mais acentuada, e onde os cristãos de
origem pagã (certamente incircuncisos) não podem assistir. Por isso os
crentes recebem um nome próprio: “cristãos” = messiânicos (Act 11,26).
A partir de Antioquia o cristianismo deve ter-se estendido a outros
importantes centros urbanos da Síria, concretamente a Damasco. Foi fazendo a
sua aparição e visto como um fenómeno insólito e intolerável para qualquer
judeu observante. Há uma espécie de “novas sinagogas” (as comunidades
cristãs) que se confessam messiânicas, que têm a pretensão de que Yahwéh
lhes enviou o Messias, presente no meio delas, e de, portanto, o judaísmo
ter chegado à sua plenitude, mas que descuidam muitos preceitos da lei de
Moisés e nas que, sem escrúpulo algum, convivem antigos judeus com pagãos. A
respeito da inobservância da lei judaica já podemos imaginar o processo
seguido: se em Jerusalém os helenistas já eram liberais, como o seriam
depois de terem entrado em contacto com samaritanos, tementes a Deus, ou
simples pagãos.
Está tudo preparado para um missionário judeu puritano, Saulo de Tarso, que
trabalhava por aqueles lados, cheio de zelo pela causa de Yahwéh, se lançar
na perseguição daqueles arrogantes blasfemos contra o Deus do Sinai. (Uma
observação interessante: a liberdade cristã não é uma invenção de Paulo, que
já a encontrou na Igreja que perseguiu. Paulo irá dar-lhe fundamentação
teológico-escriturística).
3.2.4. Perseguição e “conversão”
a) A perseguição e o seu alcance
O autor de Actos quer fazer Paulo grande desde o princípio, mesmo como
perseguidor. Temos de aceitar que os versículos que relatam a sua presença
na lapidação de Estêvão (Act 7,58b; 8,1a) são interpolação forçada no
contexto. Não parece que Saulo, no início dos anos 30, fosse um “jovenzito”
incapaz de participar activamente na lapidação. A perseguição, já mais
tarde, contra a Igreja de Jerusalém (Act 26, 10) não é credível, uma vez que
era uma comunidade observante da lei judaica. Paulo diz expressamente que
perseguia aqueles que não se submetiam às tradições dos seus antepassados
(Gal 1,14) e jura que as igrejas da Judeia não o conheciam pessoalmente
(Gal1, 22). Também não há indícios de que o sumo sacerdote tenha tido
atribuições judiciais sobre as sinagogas fora da Judeia, para dar a Paulo
poderes para prender os cristãos de Damasco (Act 22,5; 26,12).
É inegável que Paulo perseguiu a igreja. Ele afirma-o, claramente, em várias
passagens (Gal 1,13; 1Cor 15,9; Fil 3,6). Em que consistiu a perseguição?
Não nos dá tal informação, mas podemos pensar nos castigos impostos pelas
sinagogas que, posteriormente, ele mesmo irá suportar: “cinco vezes recebi
dos judeus quarenta açoites menos um, três vezes fui açoitado com varas, uma
vez fui apedrejado (2Cor 11, 24ss). Acerca de Damasco, como lugar de
perseguição, repetidamente afirmado pelos Actos do Apóstolos, Paulo fala
indirectamente em Gálatas 1, 17 (a teoria peregrina de que “Damasco”é um
nome simbólico que designa Qumrân, não tem fundamento credível). É mais
prudente pensar numa actividade persecutória de proporções reduzidas, talvez
circunscrita a alguma sinagoga de Damasco, e sempre por razões de
transgressão da lei. A convicção de que o messias já tinha vinda era
relativamente frequente e não escandalizava ninguém.
b) A nossa informação sobre a “conversão”
O Livro dos Actos do Apóstolos oferece-nos três narrativas pormenorizadas
(9,1-19; 22,6-21; 26,12-18) do acontecimento, indicativo da importância que
o facto tem para o autor. A amplitude que o facto merece em Actos choca com
a concisão de Paulo que, quando se refere ao encontro com o Senhor, se
limita a dizer que o Ressuscitado lhe apareceu (1Co 15,8), que viu a Jesus
nosso Senhor, (1Co 9,1), que Deus lhe revelou o seu Filho para que o
anunciasse aos gentios (Gal 1,16), e que ele já foi alcançado por Jesus
Cristo (Fil 3,12). Numa série de passagens polémicas, Paulo defende a
sua categoria de Apóstolo com todas as suas energias. Mas não o faz
descrevendo o encontro com o Senhor no caminho de Damasco. Dá a impressão
que tudo acontece como se este encontro fosse algo tão íntimo e sagrado que
não pode ser convertido em objecto de exibição. Vejamos. Se quando é
necessário fazê-lo não o faz, tê-lo-á narrado alguma vez? No “concílio” de
Jerusalém chegaram a compreender que “Aquele que operou eficazmente em
Pedro, para o apostolado da circuncisão, Esse operou também em mim, com
eficácia, em favor dos gentios” (Gal. 2, 8). Não sabemos em que termos Paulo
se explicou mas o laconismo das suas Cartas sugere que na assembleia dos
Apóstolos terá usado termos parecidos.
Como é que o autor dos Actos dos Apóstolos sabe tantas coisas acerca de S.
Paulo? Muito simplesmente porque leu o Antigo Testamento e conhece as
vocações proféticas. As três narrativas dos Actos, não obstante as suas
variantes e até contradições, reduzem-se a este esquema: teofania, queda por
terra, “reabilitação” e palavras de envio (cf. Is 6,1-10; Jer 1,4-10). É
evidente que o autor dos Actos não descreve, mas interpreta e muito
acertadamente. Assim as palavras de envio em Actos 26, 17ss estão tomadas da
vocação de Jeremias (Jer 1) e a do Servo de Yahwéh (Is 42), os dois únicos
profetas do Antigo Testamento que foram enviados aos pagãos, profetas a que
Paulo se refere quando interpreta a ocorrência (Gal 1,15). O carácter
interpretativo das narrativas dos Actos não exclui que o autor conhecesse
algumas tradições como as que se referem à casa de Judas, à rua Recta, uma
intervenção importante de um tal Ananias, etc. (Act 9,10-12). Mas entre o
imediatismo a que Paulo sempre faz referência (“não o recebi, nem aprendi de
homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo” Gal 1,12) e o papel
mediador que Actos atribui a Ananias, tem de se ficar com o auto-testemunho
de Paulo.
c) O que aconteceu, realmente?
Não é fácil descrevê-lo uma vez que Paulo não nos oferece uma informação
directa. O que está claro é que a sua vida ficou marcada por um antes e um
depois: “tudo o que para mim era lucro, reputei-o perda por Cristo” (Fil
3,7s.) e ficou transformado numa pessoa nova, com olhos novos (2Co 5,16s.).
Mas não deve exagerar-se: Paulo continuou a ser o mesmo, continuou com a sua
anterior dedicação, entusiasmo pela causa de Deus, fanatismo até ao exagero.
Antes, como agora, não havia lugar no seu coração para pactos nem
prudências. Continua a dedicar-se, igualmente, às coisas de Deus, mas
compreendidas a partir da nova revelação.
Antes escrevemos a palavra “conversão”, entre aspas, por não ser a palavra
adequada. De facto, Paulo, desde sempre era uma pessoa cumpridora,
inatacável (Fil 3,6). Sociologicamente aconteceu nele um fenómeno inverso ao
das conversões correntes: teve-se por santo até ao dia do encontro com
Cristo. Nesse dia adquiriu a consciência de pecador que não se pode salvar
pela própria justiça, mas pela que Deus oferece aos crentes (Fil 3,9). Paulo
é agora um rico empobrecido e crente (kenótico).
Quanto aos conhecimentos adquiridos no caminho de Damasco, pode falar-se de
três lições numa só: Deus está do lado dos cristãos, esses judeo-cristãos
helenistas que se afastaram da lei e partilham os seus bens espirituais com
os incircuncisos. A partir daqui fica claro que:
a) A lei
judaica não é caminho obrigatório para estar de bem com Deus, logo
b) Tem de se
pregar aos pagãos que, também para eles sem passar pelo judaísmo, há
salvação
c) O judeu
tem de abandonar o orgulho (o próprio Paulo, quando julgava estar a realizar
a acção mais nobre da sua vida, perseguir os cristãos, compreendeu que
estava completamente enganado) e não pressupor nenhuma segurança.
Uma lição de teologia (gratuidade da salvação), outra de
missionologia (Deus também acolhe os pagãos) e outra de
espiritualidade (“que ninguém se glorie”). Realmente, no caminho de
Damasco, Paulo aprende o que vai ser a raiz da teologia, a sua
espiritualidade e a sua entrega missionária. É “seu evangelho”, que não
procede de nenhuma mediação humana. Certamente, em posteriores contactos com
a Igreja, aprenderá fórmulas kerigmáticas (1Co 15,3) e outros mecanismos da
tradição (1Co 11,23), mas isso não é essência do seu evangelho.
3.3 Apostolado de Paulo no Oriente (Síria, Palestina e arredores)
3.3.1. Até ao “concílio” de Jerusalém
Ainda que telegraficamente, na carta ao Gálatas, Paulo
oferece-nos uma resenha das suas actividades neste período da sua vida. No
caminho de Damasco Paulo compreendeu que Deus o queria para apóstolo dos
gentios e dirigiu-se para o país pagão mais próximo “imediatamente parti
para a Arábia” (Gal 1,17). Então chamava-se Arábia a todo o território a
Este do Jordão: os reinos de Palmira, Nabateia, etc. Paulo foi precisamente
a Nabateia, pois isso é que explica que no seu regresso o rei Aretas (Aretas
IV, cunhado de Herodes Antipas) o perseguisse. Isto significa que a primeira
expedição missionária de Paulo não teve êxito. Só conseguiu perseguição (2Co
11,32). Esta missão é ignorada pelos Actos na medida que se pretende que
seja Pedro a iniciar a missão entre os pagãos. Por isso se diz que os que
perseguiram Paulo em Damasco não foram os enviados de Aretas, mas os judeus
(Act 9,23). Não temos presente nem alinhamos com a antiga opinião ascética
de que Paulo foi fazer três anos de penitência, no deserto da Arábia. Paulo
não era um pecador que necessitasse de um tão longo “noviciado” e a
perspectiva da proximidade do fim do mundo não lhe permitia tais luxos.
Regressado a Nabateia, e depois de uma breve estadia em Damasco, Paulo
visita Cefas (e Tiago) em Jerusalém durante duas semanas (Gal 1,18). É uma
visita feita sem pressas pois o acontecimento de Damasco converteu-o em
apóstolo de facto e de direito, sem necessidade de “consultar nem a carne
nem o sangue” (Gal 1,16s.).
De Jerusalém parte para “as regiões da Síria e Cilicia” (Gal 1,21). Trata-se
da sua terra e da região do seu encontro com o cristianismo. O Livro dos
Actos do Apóstolos apresenta-nos, em ordem inversa, a sua ida primeiro a
Tarso (9,30) e depois a Antioquia (11,25s). É um período muito longo, cerca
de 10 anos, e de que não possuímos nenhuma informação. Este período não se
pode incluir na 1.ª Viagem (Act 13-14), porque a ter sido anterior ao
“Concílio” Paulo ter-lhe-ia feito referência na Carta aos Gálatas, uma vez
que tem interesse em mostrar serviço desse tempo, ainda anterior a nenhum
reconhecimento oficial por parte de Jerusalém, reconhecimento que, por outro
lado, a Paulo lhe pareceria inútil.
Depois de um certo tempo em Antioquia e arredores, trabalhando na companhia
de Barnabé (Act 11,26), ambos foram delegados daquela comunidade para
organizar uma colecta em favor da comunidade de Jerusalém (Act 11,30).
“Completada a colecta, Barnabé e Saulo, regressaram a Jerusalém, levando
consigo João, de sobrenome Marcos” (é assim que deveria traduzir-se Act
12,25, frase que na fonte utilizada por Lucas deveria seguir a 11,30 e ser
continuada em 15,3ss). Uma vez que a colecta se realizou por indicação do
profeta Agabo (Act 11,28), Paulo pode dizer que subiu a Jerusalém “por causa
de uma revelação” (Gal 2,2)
3.3.2. O “Concílio”
Actos 14,4 fala do bom acolhimento prestado a Paulo e Barnabé em Jerusalém
(iam levar-lhe de comer!). Este acolhimento transmitiu-lhes confiança para
falarem da comunidade de Antioquia, e das comunidades libertadas da fé
judaica. Aqui surgiu um problema. Actos 15,5 mencionam o protesto de “alguns
da seita dos fariseus que tinham abraçado a fé”. Paulo, muito mais livre de
linguagem e pensamento, apelida-os de “intrusos, falsos irmãos que
sorrateiramente se infiltraram para espiar a liberdade que temos em Jesus
Cristo, a fim de nos reduzirem à escravidão” (Gal 2,4). Isto provocou um
debate, breve mas apaixonado, que se chama “Concílio de Jerusalém”.
Em Gálatas 2, 1-10 Paulo faz constar que tiveram de o escutar, que resistiu
e não cedeu, que reconheceram o seu direito (e o de Barnabé) a formarem
comunidades de incircuncisos e que nada lhes impuseram. Paulo e Barnabé, por
um lado, e Pedro e Tiago, por outro, deram-se as mãos e sancionaram o
pluralismo eclesial, na comunhão. Daí para afrente haverá dois tipos de
Igrejas, judeo-cristãs e pagano-cristãs. Paulo, seguindo a sua vocação
inicial vai dedicar-se a formar estas últimas. Paulo, como se tratasse de um
apêndice, (Gal 2,10) escreve “Recomendaram-nos somente que nos lembrássemos
dos pobres”. É o assunto das colectas a que mais tarde faremos referência.
Actos 15,20;29 menciona, pelo contrário, uma orientação adicional
(“clausulas de Tiago”) para as comunidades pagano-cristãs, que, tanto pela
exclusão radical de Paulo (“nada me impuseram”) como pelo seu conteúdo, não
devem considerar-se do “concílio”, mas surgidas noutro momento.
3.3.3. O “pós-concílio”
a) As primeiras correrias apostólicas
Depois do encontro e discussão em Jerusalém, onde Paulo e Barnabé se tinham
deslocado apenas para entregar a colecta, regressaram à sua Igreja de
Antioquia. Neste momento deverá ter acontecido o que de histórico existe em
Actos 13 – 14 (“a primeira viagem” de Paulo e Barnabé), e, provavelmente,
também, a correria missionária de Pedro descrita em Actos 9, 32-43. A maior
transcendência vai tê-la “o acontecimento Cornélio”, empolgado e fantasiado
pelo autor do Livro dos Actos dos Apóstolos, episódio indubitavelmente
posterior ao “concílio”, em que Pedro era apenas apóstolo dos circuncisos. É
a demonstração de que Deus é maior do que as igrejas e faz estalar os
limites que ela determina: Pedro converte-se em apóstolo dos pagãos e vê-se
obrigado a baptizar os incircuncisos e a comer com eles (Act 10,47-11,3).
Provavelmente é este desentendimento, provocado directamente por Deus, que
leva Pedro a deslocar-se a Antioquia para, durante algum tempo, partilhar da
vida desta comunidade mista (Gal 2,119) como natural regozijo de Paulo e
Barnabé pelo reconhecimento, de facto, da sua grande comunidade.
b) O infeliz “incidente” de Antioquia
Pedro é espiado pelos cristãos de Jerusalém, particularmente por Tiago, o
guardião da ortodoxia e dos costumes (ortopraxe) judeo-cristãs (Gal 2,12).
Perante tão inoportunos visitantes, Pedro deixa de comer (e de celebrar a
Eucaristia!) com os pagano-cristãos, e arrasta com ele os outros
judeo-cristãos, inclusive Barnabé (Gal. 2,13). É o momento em que se
descobre a insuficiência do acordo “conciliar” que tinha determinado como
deveriam viver as comunidades judeo-cristãs e pagano-cristãs, mas não as
mistas.
A atitude de Pedro, sem o pretender, provoca um cisma e, sobretudo, uma
heresia: dá a entender aos pagano-cristãos que pecou ao comer com eles e que
a salvação está condicionada pelas práticas legais judias (Gal 2,17). Paulo
não tolera isto e acusa-o de ir “contra a verdade do evangelho”. Mas Paulo
não é escutado (se o fosse tê-lo-ia dito), e a comunidade só se reunifica á
força de impor aos judeo-cristãos a legislação prevista pelo Levítico 17
tanto para os israelitas como para os “forasteiros que residem entre deles”.
É aqui que surgem “as cláusulas de Tiago” (Act 15,20-29) que o autor de
Actos faz proceder de Jerusalém.
É o momento das grandes rupturas: Paulo corta relações com Jerusalém e com
Antioquia, com Pedro, Tiago e Barnabé, organiza a sua própria equipa
missionária e dirige-se para a Europa. Com as Igrejas da Síria-Palestina
mantém um vínculo externo e significativo: as colectas que “procurou cumprir
com solicitude” (Gal 2,10).
3.4. Apostolado de Paulo no ocidente
3.4.1. A viagem para a Europa
Um membro da comunidade de Antioquia (ou de Jerusalém, segundo Act
15,27.32ss), Silas ou Silvano, empreende com Paulo a viagem para a Europa
(Act 15,40). Posteriormente vai juntar-se-lhes Timóteo (Act 16,1), o fiel
colaborador de Paulo durante todo o seu ministério (Fil 2,22). É,
historicamente, muito duvidoso que Paulo o tenha circuncidado (Act 16,3).
Paulo,Silvano e Timóteo figurarão como os evangelizadores de Tessalónica.
Do itinerário que seguiram sabemos muito pouco, pois, o Livro dos Actos dos
Apóstolos refere-se-lhe em poucos versículos. Mas Gálatas (4,13) informa-nos
que Paulo adoeceu na Galácia e, ao não poder continuar, aproveitou para
evangelizar aqueles indómitos “celtas” que tantas dores de cabeça deram às
autoridades romanas. São pagãos, pois “quando não conhecíeis a Deus,
servíeis àqueles que na realidade não são deuses (Gal 4,8). Receberam de
braços abertos o Evangelho e os evangelizadores (Gal 4,14). Estes gálatas
devem ser situados no centro da Anatólia, pois Paulo usa os nomes das
regiões e não os convencionais da administração romana.
Parece que a Paulo agradaria pregar na Ásia, Mísia e Bitínia, mas “o
Espírito de Jesus não lho permitiu” (Act. 16,6ss). Talvez seja a
interpretação que o autor de Actos faz aos “acordos conciliares” da divisão
territorial (Act 15, 28: o Espírito Santo e a nós próprios resolvemos…”.
3.4.2. O Evangelho chega à Macedónia
O Livro dos Actos menciona três comunidades fundadas por Paulo na Macedónia:
Filipos, Tessalónica e Bereia. Acontecem três paragens e sempre nas grandes
cidades. As cartas confirmam o que se refere a Filipos e Tessalónica.
Trata-se de breves paragens com a evangelização interrompida pela
perseguição. Paulo chega a Tessalónica depois de suportar ultrajes e ofensas
em Filipos (1Ts 2,2); sai, também, de Tessalónica à pressa, desejando
regressar em breve, mas não o consegue, pois satanás impediu-o (1Ts 2,18).
Deve ter tentado entrar por Bereia, mas perseguido pelos judeus de
Tessalónica (Act 17, 13s), refugiou-se em Atenas. Daí enviou Timóteo a
visitar Tessalónica (parece que não tinha participado na evangelização da
cidade, porque ficou em Filipos e, por isso, Paulo o envia com uma carta de
apresentação e recomendação – cf. 1Ts 3,2 – e, pelo facto de ser
desconhecido, não seria vítima da perseguição dos judeus) e, provavelmente
Silas a Filipos, pois “decidi ficar só em Atenas” (1Ts 3,1; cf. Act 18,5 e
2Cor 11,8s.).
O Livro dos Actos demora-se a narrar a actividade de Paulo em Atenas, mas a
estadia em Atenas, para Paulo, deve ter sido insignificante. Que saibamos
não se constituiu aí nenhuma comunidade cristã, importante (Paulo refere-se
repetidamente às comunidades de Macedónia e Acaia e nunca menciona as de
Ática). A descrição de Actos 17,16-34, é um modelo de compreensão do “génio
ateniense” e o suposto discurso de Paulo, no areópago, é uma peça de mestre.
O autor tem interesse em destacar como na cátedra dos filósofos pagãos,
célebres, de então, se senta, agora, o evangelizador e mensageiro da
verdade. Para nós, o interesse desta paragem, radica em que é aqui, por
certo, que Paulo escreve a sua primeira Carta, integrada em 1
Tessalonicenses, carta de recomendação de Timóteo e de uma certa autodefesa
do próprio Paulo, particularmente 1Ts 2,1-12 (o resto da 1Ts escreveu-o,
provavelmente, em Corinto).
3.4.3 Evangelização de Acaia
O Autor de Actos não pode esconder que Paulo não é o primeiro cristão que
chega a Corinto; já ali estavam Áquila e Priscila (Act 18,2), que Paulo não
converte ao cristianismo porque, sem dúvida, já eram cristãos. Mas Paulo,
com Silas e Timóteo (2Cor 1,19) é o primeiro evangelizador dessa importante
metrópole (1Cor 4,15; 2Cor 10,14). Corinto é a igreja melhor conhecida do
Novo Testamento, devido à sua vitalidade, conflitualidade e à abundante
relação pessoal e epistolar de Paulo com Ela. Como nas mencionadas cidades
de Macedónia, o ponto de partida da evangelização é a sinagoga. Parece que,
inclusive, se converteram dois chefes da sinagoga, Crispo e Sóstenes, mas o
grosso da comunidade era formado pelos “tementes a Deus” (isto é, gentios
simpatizantes do judaísmo, convertidos ao monoteísmo, mas não circuncidados)
e pagãos (cf.1Cor 12,2).
Insistiu-se muito no nível socioeconómico, baixo, da Igreja de Corinto; mas
não se deve ler 1Cor 1, 26ss (o néscio, o débil, o plebeu) independentemente
de 1Cor 11,20ss., onde se afirma que os ricos da comunidade humilham aos que
nada têm. E Erasto, o tesoureiro da cidade (Rom 16,23), parece ser membro da
Igreja.
Segundo Actos 18,11-18, a permanência de Paulo em Corinto prolonga-se por
mais de ano e meio e termina pouco depois de ser levado ao tribunal de
Galião. Este é um dado de capital importância para a cronologia do
ministério paulino.
3.4.4. Evangelização da Ásia
A segunda grande paragem missionária será Éfeso, capital da região natural e
província romana da Ásia, na costa de Jónia, quase em frente de Acaia e com
boas comunicações entre si.
O autor de Actos faz o impossível para que Paulo seja o fundador da
comunidade de Éfeso, mas Actos 18,19b-21 é uma interpolação clara. Quando
Paulo se estabelecer em Éfeso vai encontrar um cristianismo, ainda inseguro,
das seitas baptistas, do alexandrino Apolo e de Áquila e Priscila
(Act18,24-19,7). Paulo será o grande impulsionador da fé na Ásia.
Esta paragem de Paulo choca com a proibição mencionada em Actos 16,6. Talvez
a viagem a Antioquia de que se fala em Actos 18,22, tenha o seu fundamento
histórico no facto de se tratar de alterar a divisão “conciliar” de zonas de
missão uma vez que, desde Corinto, Paulo constatava que entre Acaia e a Ásia
não havia, praticamente, diferenças religioso-culturais.
De acordo com Actos 19,8.10 e 20,31, a estadia de Paulo em Éfeso
prolongou-se por cerca de 3 anos. É uma época de capital importância, pois
durante ela não só se evangelizará em grande escala, mas também se forjará
afigura de Paulo como teólogo e pastor. De facto, desde Éfeso, enviará as
suas Cartas aos Coríntios (talvez 6 ou 7, algumas em situações muito
tensas), aos Filipenses, a carta aos Gálatas e, talvez, a Filémon. As suas
comunidades, à medida que vão crescendo, vêm surgir dificuldades e novos
problemas, e, juntamente com os esforços missionários, partilhados por uma
grande equipa (a julgar por Rom 16, provavelmente resquícios de uma carta
aos Efésios), Paulo terá a sua responsabilidade diária: a preocupação com
todas as igrejas” (2Cor 11,28). Nesta altura Silas já não está com ele, mas
ainda tem Tito como auxiliar para os assuntos mais delicados e, sobretudo, o
infatigável Timóteo.
Da Ásia deve ter escrito Efésios e Colossenses, e talvez as Cartas
Pastorais, sinal da existência de uma preponderante escola paulina na
região. Como de costume, também em Éfeso Paulo irá sofrer perseguições e a
prisão, (1Cor 15,32; 2Cor 1,8; Fil 1,13), até perscrutar a possibilidade de
morrer antes da parusía (Fil 1,21ss; 2Cor 5,8). É significativo que, na sua
última viagem da Grécia para Jerusalém, Paulo não passe por Éfeso, e chame
os “anciãos da Igreja” para, em Mileto (Act 20,17-35), se despedir deles.
3.4.5. Último périplo à volta do mar Egeu
Terminada a sua estadia em Éfeso, Paulo viaja para Tróade, onde, ao que
parece, pensava deter-se durante algum tempo a evangelizar, mas preocupado
porque Tito se demorava em regressar de uma difícil tarefa em Corinto (2Cor
2,12s.), continua viagem para a Macedónia. Aqui irá deter-se durante algum
tempo, receberá Tito e as boas notícias, de que era portador, sobre Corinto
(2Co 7,6s.). Vai enviá-lo novamente a Corinto, agora com uma carta de
alegria e reconciliação, conservada, provavelmente, na nossa 2Corintios 1,1
- 2,13 + 7,5 - 8,24.
3.5. Até ao fim
Em Romanos 15,19 Paulo afirma que vai mudar de Sena, que irá
deslocar-se para o ocidente, concretamente para Espanha, pois na zona
ocidental do império romano já não encontra trabalho, uma vez que, “desde
Jerusalém, e em todas as direcções, até à Ilíria, tenho pregado o Evangelho
de Cristo”. A pergunta que surge é: porquê, precisamente, nesta ocasião.
Os itinerários e as paragens de Paulo estão frequentemente condicionados por
razões exteriores à simples táctica evangelizadora, como por exemplo a
perseguição dos judeus. Nalguns casos foram simples razões climáticas
(durante o inverno, as longas viagens são arriscadas) ou de saúde a
mudaremos seus planos. No presente caso a urgência não está emir a Espanha
ou a Roma, mas a Jerusalém, pois chegou o momento de fazer a entrega da
colecta (Rom 15,25s.).
3.5.1. A colecta para Jerusalém
Este assunto, relativamente frequente nas Cartas, está quase ausente nos
Actos (apenas uma ligeira referência em 24,17), talvez por não ter sido uma
actividade concretizada com grande êxito.
Vimos que o concílio foi convocado por causa de uma viagem de Barnabé e
Paulo para levarem, de Antioquia, uma colecta para Jerusalém. Actos, 11,28,
explicam que foi por causa da fome, universal, que aconteceu no tempo de
Cláudio. É, sem dúvida, uma explicação insuficiente. Se a fome era universal
muito dificilmente poderíamos cristãos de Antioquia sustentar os de
Jerusalém. É mais plausível contar com a fome local da Judeia que coincidiu
com a fome universal do tempo de Cláudio. Sabe-se que o ano 48 foi um ano de
fome na Judeia, devido à seca do ano 46/47 e ao ano sabático 47/48, durante
o qual não se cultiváramos campos. A fome estendeu-se pelo império Romano,
do oriente ao ocidente, entre os anos 49/51.
Com respeito às decisões “conciliares” a única que Paulo reconhece é “ter
presente os pobres, que procurou fazer com grande solicitude” (Gal 2,10). A
interpretação mais provável desta passagem é: terminado pacificamente o
encontro em Jerusalém, pedem a Paulo que não se esqueça de que, em
Jerusalém, cada sete anos, se repetirá a mesma situação do ano 48. De facto
Paulo não realiza colectas periódicas, por exemplo anuais, mas apenas uma,
que vai entregar no ano 55 (coincide com a substituição de Félix por Festo,
actualmente datada com alto grau de probabilidade) isto é, o seguinte ano
sabático. Procurou cumpri-lo com grande empenho, uma vez que aborda o tema
em várias Cartas desta época 1Cor 16,1-4; 2Cor 8 y 9; Rom 15,25-31. Menciona
como participantes na colecta a Corinto, Galácia e Macedónia. Um sinal de
que, inclusive para o autor de Actos, esta é a finalidade da viagem a
Jerusalém pode, encontrá-lo em que Paulo vai acompanhado por toda uma
comitiva, delegação de diversas comunidades participantes (Act 20,4).
3.5.2. A viagem à cidade santa
A partir deste momento os Actos são a única fonte de informação que temos,
pois que, Romanos 15, apenas nos deixa com o anúncio e a intenção da viagem.
Paulo não embarca em Corinto para a Palestina, mas viaja por terra até à
Macedónia. Parece que, efectivamente, passou o inverno em Corinto (1Cor
16,6), pois vai celebrar a Páscoa em Filipos (Act 20,6) e tem pressa em
chegar a Jerusalém para o Pentecostes (Act 20,16). Actos entretêm-se em
descrever, de uma maneira idealizada a despedida de Paulo das suas
comunidades de Tróade e Mileto e não menciona mais nenhuma paragem até à
Síria-Palestina: Tiro, Ptolemaida e Cesareia que descreve também, de modo
ideal, a visita de Paulo a estas comunidades.
3.5.3. O processo
A partir deste momento, a descrição da viagem apenas pretende estabelecer
paralelos entre a “Paixão de Paulo” e a de Jesus, tanto na subida para
Jerusalém como nas três predições da paixão (Act 20,22s; 21,4; 21,11). O
processo judicial, como o de Jesus, será primeiro perante a autoridade
judaica, depois a romana. Paulo receberá uma bofetada por ordem do sumo
sacerdote (Act 23,2). Como Jesus, Paulo comparecerá não só perante os
governantes romanos, mas também perante um rei, Agripa I, (Act 26), será
confrontado com um cabecilha de revolucionários do tipo de Barrabás (Act
21,38), será flagelado (Act 22,24s) e três vezes será declarado inocente
pela autoridade civil (Act 23,29; 25,18; 26,31). Em todos os episódios o
autor de Actos fornece uma série de nomes de altos dignitários romanos, a
maior parte deles atestados pela história. É discutível que o processo, na
Palestina, tenha terminado com o envio do réu para Roma (Act 27-28). Nunca
outra cidade teve a pretensão de que Paulo tivesse morrido nela e ali
conservasse as suas relíquias. Mas há muitas passagens deste processo que
nos escapam.
3.5.4. Com os cristãos de Jerusalém e de Roma
As informações que temos são muito escassas, mas ilustrativas. Paulo não
entra em Jerusalém aclamado por multidões e Tiago parece recebê-lo com
alguma reserva e um certo distanciamento: “A teu respeito disseram-lhes que
ensinas a todos os judeus espalhados entre os pagãos a apostasia em relação
à lei de Moisés” (Act 21,21) e não se hospeda em casa de Tiago, chefe da
Igreja local mas em casa de um tal Mnasão (Act 21,16). Não sabemos nada
acerca de alguma possível defesa de Paulo, durante o processo, pelos
cristãos de Jerusalém. E é significativo que a colecta, cuja entrega era o
objectivo desta viagem à cidade santa (Rom 15,25-28), nem sequer seja
mencionada. É indício, quase certo, de que a mesma terá sido recusada, coisa
que Paulo já temia que viesse a acontecer (Rom 15,31). Apesar do acordo
conciliar (Gal 2,10), a comunidade de Jerusalém deve ter tido escrúpulos em
receber donativos que passaram pelas mãos pagãs (de pagãos-cristãos). Paulo
vai completando o cálice e aproximando-se da cruz do Mestre.
O autor de Actos apresenta a chegada de Paulo a Roma como um autêntico
cortejo triunfal (Act 28,15), mas não oferece nenhuma outra informação
acerca da comunidade de Paulo com a comunidade cristã da capital do império.
A recepção gloriosa contrasta com a informação posterior de que teve de
viver, durante dois anos numa casa alugada (Act 28,30). Será possível que o
apóstolo, que tinha preparado cuidadosamente a sua ida para Roma mediante
uma carta exemplar, não tenha encontrado, na hora da verdade, quem o
hospedasse em sua casa? É muito possível que, numa comunidade como a de
Roma, em que o elemento judeu tinha um peso notável, a fama de Paulo não
fosse do melhor. Talvez reparar essa fama e imprimir na comunidade um selo
paulino fosse o verdadeiro objectivo que Paulo se propunha ao escrever-lhes
e visitá-los.
3.5.5. O desenlace
Os leitores dos Actos dos Apóstolos sempre estranharam que o autor do texto,
depois de seguir passo a passo o processo, não escreva uma única palavra
sobre o veredicto imperial. Durante muito tempo defendeu-se a hipótese de
que o autor terminou a sua obra enquanto Paulo estava a ser julgado. Mas
esta hipótese, hoje, não tem base de apoio. Primeiramente textos como Act
20,24-25;38 indicam que o autor sabe que Paulo morreu. Depois o autor fala
de um determinado período, “dois anos”, de cativeiro e não de uma situação
que ainda continuasse. E, finalmente, o livro não pode ter sido escrito numa
data tão precoce.
Tradicionalmente defendeu-se que, neste primeiro processo romano, Paulo
teria sido absolvido. O fundamento desta opinião assenta na suposta idade
Paulo a Espanha e numa nova viagem pela Grécia que se vislumbra nas Cartas
Pastorais. Paulo teria morrido, efectivamente, mártir em Roma, ainda que não
no processo narrado nos Actos dos Apóstolos, mas num outro processo
posterior. Presentemente, a opinião unânime, é que as Cartas Pastorais não
são de Paulo, mas da sua escola, e a concretização deste seu desejo de
viajar a Espanha (Rom 15,24.28) é mais do que discutível, já que uma
tradição, sempre dependente de Clemente Romano, não é suficientemente
explícito e cujas fontes de informação não são fidedignas.
O silêncio do autor dos Actos dos Apóstolos tem mais importância. Se Paulo
tivesse sido absolvido no tribunal imperial, um dado de grande valor para a
intenção apologética de S. Lucas, tão evidente em passagens como Act 23,29;
25,18; 26,31. Esta absolvição teria sido a cereja em cima do bolo na
sequência paixão-glorificação com que Lucas, em paralelo com o seu
evangelho, procura terminar a aventura paulina. Neste caso o silêncio é
eloquente. O processo de Paulo narrado em Act. 21-28 concluiu com a sua
condenação. Mas ele poderia dizer com muito mais razão do que o poeta latino
"exegi
monumentum aere perennius... non omnis moriar".
4. AS COMUNIDADES PAULINAS
4.1. O surgir das comunidades
“Fui eu que vos gerei, em Cristo Jesus, por meio do Evangelho
(1Cor 4,15). As comunidades nascem da pregação, que, segundo o dá a entender
1 Tes 1,9-10, tem dois momentos: em primeiro lugar realiza-se algum tipo de
“teodiceia” (“converteste-vos a Deus depois de terdes abandonado os ídolos,
para servir ao Deus vivo e verdadeiro”); num segundo momento apresenta-se o
kérigma especificamente cristão (“esperar a seu filho Jesus, que há-de vir
dos céus, a quem ressuscitou dos mortos e nos salvou da cólera futura”).
Quando a pregação se dirige aos judeus refere-se ao primeiro passo.
No geral a pregação começa nas sinagogas ou noutros locais de encontro dos
judeus (Act 16,13), e costuma ter bastante êxito entre os que “temem a
Deus”, uma vez que, de certo modo, Paulo lhe oferece um judaísmo “barato”
(sem a exigência da, para eles, repugnante circuncisão). E, dos tementes a
Deus, com facilidade se dá o salto para os pagãos. Isto conduz, geralmente,
a conflitos com os judeus não convertidos e a verdadeiras perseguições
contra Paulo (Act 18,12) e contra a comunidade cristã (1Tes 2,14). Isto
provoca a fuga, precipitada, de Paulo deixando a comunidade “em maus
lençóis” e preocupado com o seu futuro difícil (1Tes 3,1-8). Talvez, muito
antes da ruptura geral entre a Igreja e a sinagoga, ela se tenha dado já com
as comunidades paulinas (Act 19,9).
4.2. Organização e atenção pastoral
Não há muita informação acerca deste assunto mas, apenas, algumas ideias
elementares. Para além das possíveis reuniões nas sinagogas a que os
judeo-cristãos e os antigos “tementes a Deus” podem assistir, organizam-se
as comunidades domésticas. Paula, frequentemente, saúda uma determinada
pessoa e a “igreja que se reúne em sua casa”. Talvez as diferentes igrejas
domésticas se reúnam periodicamente numa assembleia mais alargada,
principalmente quando são visitadas por Paulo ou pelos seus delegados ou,
então, quando recebem alguma carta sua (Gal 1,2: “às Igrejas da Galácia”).
No progresso da comunidade tem importância os carismas; mas a par deles às
instituições mais ou menos permanentes. Já em 1Tes 5,12 mencionam-se
“responsáveis” que trabalham pela comunidade. Acção pastoral, frequente, é a
visita de delegados de Paulo, especialmente Timóteo (1Cor 4,17; 16,10; Fil
2,19; 1Tes 3,2.6). Excepcionalmente é Paulo quem se desloca para dirimir
assuntos de maior gravidade (2Cor 13,1s.).
Mas o grande elo de ligação com as comunidades são as Cartas. Nelas
abordam-se desde dificuldades doutrinais até problemas essenciais da vida
quotidiana.
4.3. Problemática mais frequente no desenvolvimento das Comunidades
4.3.1. Evangelização rápida e insuficiente
O primeiro problema que afecta as comunidades é a sua deficiente
formação, pois o tempo da fundação costuma ser muito curto por causa da
perseguição movida ao apóstolo missionário e aos seus colaboradores.
Frequentemente as comunidades têm de fazer frente à perseguição dos judeus
(com o correspondente risco da apostasia) e às dificuldades práticas e
teológicas para as quais não possuem a necessária bagagem doutrinal (cf.
1Tes 3,10: "completar o que falta à vossa fé”).
4.3.2. Desorientação por intromissões
Isto complica-se quando as comunidades são visitadas por pregadores cristãos
de outras tendências; gera-se a confusão. E este fenómeno não é raro. Aos
Filipenses põe-nos em guarda contra “os cães ou os maus trabalhadores, ou os
falsos circuncisos (Fil 3,2); aos Gálatas, contra os que “pretendem
perverter o Evangelho de Cristo” (Gal 1,7); aos Coríntios contra os que
“escravizam, devoram, exploram, tratam com arrogância e batem no rosto”
(2Cor 11,20).
Embora nem sempre sejam bem identificados os agitadores parecem ser,
sobretudo, judeo-cristãos, vindos da palestina e de Antioquia, que
desconfiam da evangelização feita por Paulo e que, algumas vezes, se escudam
na autoridade de Pedro e da Igreja de Jerusalém (1Cor 1,12; cf. Gal 2,6-9).
Talvez tivessem a intenção de conseguir que nas comunidades de Paulo,
predominantemente judeo-cristãs, se observasse o fundamental da Lei e assim
Jerusalém pudesse receber, sem escrúpulos, a colecta que as referidas
comunidades lhes enviassem.
4.3.3.Ol carácter misto da comunidade
Ainda que maioritariamente pagano-cristãs, em todas as comunidades paulinas
há elementos judeo-cristãos. A evangelização costumava começar pelas
sinagogas. O convívio entre os dois grupos trás consigo uma série de
problemas, sobretudo no que se refere a comensalidade. Certamente que os
judeus da diáspora deveriam ser pouco escrupulosos na relação com os pagãos
mas, no geral, continuavam a seguir as tradicionais normas referentes à
alimentação. Paulo falará dos que têm “conhecimento” e do que o não têm
(1Cor 8,7), de fortes e débeis (Rom 14,2; 15,1). Repete-se, decerto modo, o
mesmo problema que provocou conflitos em Antioquia. Agora, a posição de
Paulo, é menos radical, e prefere que sejam os pagano-cristãos a ceder para
não escandalizaremos judeo-cristãos (débeis).
4.3.4. Harmonia no uso dos carismas
A estas comunidades recém-nascidas o Espírito vai-as enriquecendo com a
multiplicidade de dons para o seu crescimento. Paulo está satisfeito por
isso, e quere que não se “apague o Espírito” (1Tes 5,19). O problema surge
quando os agraciados pelo Espírito entram em competitividade e surgem
complexos de superioridade e inferioridade (1Cor 12,15-21), ou quando
pretendem usar os carismas para o prestígio pessoal, em vez de o usarem para
edificação da Igreja (1Cor 14,12). Isso vai permitir a Paulo desenvolver uma
profunda teologia dos dons espirituais.
4.3.5. Dificultosa implantação de uma nova ética
A opção pela fé como obediência ao kérigma escutado não comporta uma mudança
instantânea dos hábitos morais. A mudança será progressiva e acontecerá por
influência do Espírito Santo e mediação de orientações pastorais. Paulo
conhece a depravação pagã, por exemplo, em matéria sexual e talvez tenha
conhecimento de que alguns membros da comunidade cristã mantêm esses velhos
hábitos. Daí as suas severas admoestações aos Tessalonicenses (1Tes 4,3),
Coríntios (1Cor 6,18) contra a fornicação.
Um comportamento que não está de acordo com a fé comum é a injusta partilha
dos bens. Por isso Paulo se irrita contra a humilhação dos pobres de Corinto
(1Cor 11,22) e se manifesta em favor da igualdade económica, inclusive,
entre as comunidades (2Cor 8,13).
Uma dificuldade no campo ético pode originá-la a doutrina paulina da
justificação prévia às boas obras e, portanto, dependente das mesmas. O
problema da Carta de Tiago já está referido em Rom 6,2, “os que morremos
para o pecado, como podemos viver no pecado?”.
5. AS CARTAS PAULINAS
Foram um meio muito importante de acção pastoral e de relação recíproca
entre Paulo e as suas comunidades. Infelizmente não se conservou nenhuma
carta das comunidades a Paulo, o seu apóstolo fundador, mas sabemos que
existiram (1Cor 7,1). A correspondência entre Paulo e as suas comunidades
foi, nalguns momentos, extraordinariamente frequente e rápida,
particularmente durante a crise de Corinto. Normalmente o portador das
Cartas era um seu colaborador (principalmente Timóteo e Tito) que costumava
trazer, por palavra, a reacção da comunidade aos escritos em questão.
5.1. O género
Antes de mais é conveniente dizer que os escritos de Paulo são cartas e não
epístolas. Dirige-as a uma pessoa conhecida, a uma comunidade concreta, numa
conjuntura específica. Nelas observa-se sempre uma relação afectiva
(positiva ou negativa) entre o remetente e os seus destinatários. E não são
raras as saudações de pessoas concretas a outras pessoas concretas.
E, sem dúvida, estes escritos não são simples cartas, pois quase sempre
levam um certo timbre da autoridade apostólica, o qual as aproxima das
“cartas oficiais”. Além disso encontram-se nelas longos desenvolvimentos
doutrinais que ultrapassam o específico da situação.
5.2. A variedade
Ainda que se mantenha sempre fiel ao género carta, Paulo sabe usá-lo nas
suas múltiples variedades. No seu epistolário encontramos a carta de
recomendação, quase privada (Filémon), a carta a que poderíamos chamar de
“entretimento e desabafo familiar” (uma incluída em 1Tes e outra em Fil), a
carta especificamente de cariz pastoral (a chamada “carta resposta” incluída
em 1Cor), a carta apologética (Gálatas) e a carta “ultimatum” 2Cor 10-13) e,
finalmente, a carta que se aproxima da epistola ou tratado (Romanos)
5.3. A forma literária
Paulo utiliza o esquema usual no seu tempo, mas cristianizado. Basta
comparar qualquer um dos escritos paulinos com a carta (seguramente
fictícia) em que se promulgam os acordos “conciliares” (Act 15, 23-29). O
“saúde” pagão é transformado, em Paulo, por “graça e paz” ou outra forma
litúrgica semelhante.
Como em todas as épocas, as Cartas de Paulo constam de um cabeçalho,
desenvolvimento (ou corpo) e conclusão.
No cabeçalho costuma haver três elementos: a chamada “inscriptio”
(remetente/es, destinatário/s e saudação), acção de graças (ou bênção, em
2Cor 1,3), e uma oração ou expressão de um desejo (cujo tema costuma ser o
crescimento da comunidade na fé e no amor). A análise detalhada do cabeçalho
pode oferecer uma primeira chave para compreender a carta. Assim, quando há
polémica ou tensão, Paulo multiplica os seus títulos (cf. Gal 1,1), do mesmo
modo quando necessita de apresentar (Rom 1, 1-5). Neste ponto é de notar
que, se há outros remetentes (Timóteo, Tito, etc.) os títulos costuma ser
apenas para Paulo (1Cor 1,1). A acção de graças diz muito acerca do estado
da comunidade, por isso falta em Gálatas e fala de “palavra e conhecimento”
em 1Coríntios 1,5.
O corpo da carta é, naturalmente, muito variado. Costumamos
encontrar, nele, material doutrinal e de exortação, frequentemente nesta
mesma ordem, outras vezes entremeado ou alternado à medida que são abordados
os temas. Quanto mais familiar é a carta, menos se atém à ordem
convencional. Na secção doutrinal ou de argumentação encontram-se, por
vezes, preciosas passagens autobiográficas, assim como profundas ou curiosas
exegeses veterotestamentárias. A exortação (ou parenésis) é mais concreta ou
mais genérica segundo o conhecimento que Paulo tem da comunidade.
A conclusão não segue um esquema rígido. Frequentemente começa com
expressões do género “escrevi-vos…”, “por outro lado…”. Costumam aparecer,
nelas, breves conselhos ou recomendações, algumas notícias pessoais como
planos de viagem, etc., e as já conhecidas saudações de determinadas pessoas
(1Cor 16,19; Rom 16,21-23) ou a pessoas concretas (Rom 16,3-16). E termina
com a saudação de Paulo, sempre de teor litúrgico e especificamente cristão.
Em muitos casos, com a fusão das cartas, o cabeçalho e a conclusão
desapareceram, fenómeno normal uma vez que se tratava de elementos mais
circunstanciais do escrito paulino.
6. A CONSERVAÇÃO DA HERANÇA PAULINA
6.1. As cartas e a sua recepção
As cartas de Paulo às suas Comunidades não foram, desde o princípio,
documentos sagrados. Ele escreve por motivos determinados, circunstanciais e
momentâneos, seguramente sem contar com que os seus escritos fossem
coleccionados e passassem para a posteridade.
Provavelmente foram conservados, primeiramente, por particulares ou chefes
das igrejas locais. Certamente que nem todas as cartas foram do agrado dos
seus destinatários. Por isso mesmo temos de contar que algumas se terão
perdido e que outras se conservaram por mera casualidade, talvez nas mãos de
algum dissidente da igreja local. Outros, pelo contrário, puderam ser, desde
o primeiro momento, apreciados tesouros.
6.2. Uma primeira "revalorização"
Enquanto Paulo foi vivo não era necessário o frequente ou repetido recurso
às suas cartas. Ele podia, pessoalmente, orientar ou solucionar os
problemas, corrigir, apoiar, etc. A sua morte fez com que fosse necessário
recorrer aos seus escritos e a sua categoria de mártir do Evangelho
deu-lhes um valor que antes não tinham. É altura de mostrar as relíquias e
de iniciar o intercâmbio das Cartas entre as diferentes comunidades
destinatárias. Põe-se em marcha, timidamente, a colecção.
6.3. Paulo continua a crescer
Os escritos de Paulo eram cartas, escritos circunstanciais. Mas passada
aquela conjuntura específica, apreciam-se noutra perspectiva: são obras
teológico-espirituais nas quais, o enquadramento espácio-temporal, cada vez
contará menos. Do que as comunidades necessitam é de orientação actualizada,
mas partindo do pensamento paulino originário. Esta actualização irá ser
concretizada pela “escola paulina”, conceito que não é fácil de precisar e
que nas diferentes zonas geográficas se reveste de características
distintas.
Parece que aconteceram duas formas de conservar e desenvolver o pensamento
paulino. Nuns lugares compõem-se escritos de imitação, em nome do Apóstolo,
reutilizando o seu material, combinando-o com outros elementos de pensamento
e submetendo-o a novas influências culturais do tempo e de outras correntes
do cristianismo, procurando, assim, responder a novas situações da igreja.
Isto deve ter acontecido principalmente na zona de Éfeso. Alguns chamam-lhe
“paulinismo asiático” ou “paulinismo criativo”. É o caso de Colossenses,
Efésios, 1 e 2Timóteo, Tito.
Noutros lugares, pelo contrário, procurou-se fazer uma conservação mais
“material” do paulino e o que aconteceu foi a fusão de diferentes escritos.
Parece que cada comunidade procurou fazer um único livro com a herança do
Apóstolo. Em Tessalónica provavelmente existiam duas cartas que foram
condensadas numa única, a 1 aos Tessalonicenses (a 2 aos Tessalonicenses é
muito mais tardia e, provavelmente, não teve nada a ver com Tessalónica). Em
Filipos conservam-se duas ou três cartas e, com elas, fez-se igualmente uma
só, a Carta aos Filipenses. Em Corinto existia muito material e, ao que
parece, reuniram-no em três blocos: primeiramente cópias dos escritos
paulinos, escritos em Corinto e dirigidos a outras comunidades (Roma e
Éfeso) que deram lugar á nossa Carta aos Romanos. Depois procedeu-se á
recolha do que foi escrito à própria comunidade de Corinto, mas um conjunto
de cartas desagradáveis e violentas que tiveram de escondidas até mais tarde
(a 2aos Coríntios), enquanto que outro grupo pode reunir e difundir, com
relativa facilidade (a 1 aos Coríntios). É significativo que Clemente
Romano, na sua carta aos Coríntios, cite frequentemente a 1 Coríntios e
pareça desconhecer a 2 aos Coríntios. A este outro tipo de escola e de
comportamento tem se chamado “paulinismo europeu” ou “paulinismo
conservador” (H.M. Schenke - K.M. Fischer).
Provavelmente a colecção final fez-se em Corinto (ou em Éfeso, segundo
outros). Quanto à ordem como as Cartas foram reunidas pode ter havido vários
ensaios em diferentes Igrejas, mas a julgar pelos testemunhos do séc. II (Marción,
Canon de Muratori, Tertuliano) procurou-se começar a colecção com a
1Coríntios (daí a dedicatória universal que se apresenta em 1,2b) e
concluí-la com Romanos (com a doxologia final à sabedoria de Deus,
acrescentada em 16, 25-27). É claro que houve a preocupação em fazer, de
toda a herança paulina, um só livro e unitário.
6.4. Para além das suas fronteiras originais
Mas o pensamento de Paulo e o seu prestígio de Apóstolo não ficou encerrado
no limite das suas comunidades ou escolas. A quase totalidade do Novo
Testamento ficou mais ou menos “tocada” de paulinismo. A tradição, que
atribui a obra de Lucas a um companheiro de Paulo, estava consciente, ao
menos, de que a comunidade a que se destinava tinha uma grande admiração
pelo Apóstolo e que talvez mergulhasse as suas raízes mais profundas na
actividade paulina.
A antiga constatação de paulinismo, no Evangelho de Marcos continua o seu
caminho apoiando-se em notáveis coincidências de terminologia.
A carta de S. Tiago parece fazer eco de uma polémica à voltada interpretação
da doutrina paulina. 1 Pedro usa as categorias paulinas da vida cristã como
novo nascimento, a morte representada de Cristo, a Igreja como templo, etc.
Em 2 Pedro nota-se um esforço por salvar as cartas paulinas de discussões
hermenêuticas. E alguns intérpretes de Apocalipse 11 vêm nos “dois
testemunhos” glorificados, entre outros simbolismos, uma alusão a Pedro e
Paulo, já mártires reconhecidos, inclusive, pela igreja joanina.
Naturalmente, em toda esta irradiação, o paulinismo não podia permanecer
puro. Paulatinamente vão-se combinando com outras tendências teológicas e
eclesiais, perdendo artistas e convertendo-se em património da grande
Igreja.
6.5. Até se integrar no cânon unitário da Grande Igreja
Já antes indicamos como o cristianismo nascente teve diferentes linhas de
desenvolvimento, de acordo com os diferentes tipos de judaísmo (cf. 3.2.2.).
Provavelmente só no caso do protopaulismo se pode falar de uma linha pura,
“incontaminada”. Globalmente pode falar-se de cristianismo petrino
(não por causa do pensamento de Pedro, que desconhecemos, mas pela sua
pessoa), procedente do judaísmo ortodoxo (sacerdócio, farisaísmo, escribas,
templo, …), conservado nos Evangelhos Sinópticos e Actos dos Apóstolos.
Cristianismo paulino, com origens no judaísmo helenista e conservado,
fundamentalmente, nas Cartas de Paulo e da sua escola. Cristianismo
joanino, originário do judaísmo heterodoxo e periférico (samaritanos,
baptistas, essénios, etc.), presente no 4.º Evangelho, Cartas de João e
Apocalipse
O cristianismo joanino teve de se integrar no paulino e petrino para
sobreviver. Sinal de tal integração é João 21 (com a afirmação do Primado de
Pedro) ou o Apocalipse 11 (a canonização dos dois testemunhas). O joanismo
não integrado terminou em seitas herético-gnósticas.
A fusão do petrinismo e paulinismo foi mais lenta. O grande indício desta
fusão vamos encontrá-lo no emparelhamento de Pedro e Paulo, nos Actos dos
Apóstolos, livro em que, por mais de uma ocasião, Pedro “prega” sermões de
inconfundível cunho paulino. A 1 Carta de Pedro contém, essencialmente,
doutrina paulina, agora, supostamente, pregada por Pedro. Na 2 Carta de
Pedro, que poderia chamar-se a “pérola” ou “jóia” do Novo Testamento,
oferece-se-nos a ficção de um Pedro que ensina, apoiado nas Cartas de Paulo,
e declara que estas são “Escritura” e quer protegê-las de interpretações
tendenciosas (2Pd 3,16).
Com este abraço dos dois grandes Apóstolos se limam as arestas de épocas e
escritos anteriores e fica constituído o livro unitário que alimentará, para
sempre, a fé da Grande Igreja.
7. CRONOLOGIA
7.1. Datação da vida e escritos de Paulo
7.1.1. Critérios
Não temos tanta documentação sobre nenhuma personagem do Novo Testamento
como Paulo e, sem dúvida, faltam-nos dados para compormos uma satisfatória
cronologia da sua vida e da sua obra. Nas suas Cartas apenas nos aparece uma
referência à história profana: a menção do rei Aretas (2Cor 11,32). Por
vezes oferece-nos cronologias relativas ou comparativas da sua própria
actividade, mas sempre a partir de um ponto de referência fácil, como é o
caso dos “catorze anos” de Gálatas 2,1. Devem entender-se a partir da sua
conversão ou da sua anterior visita a Jerusalém, mencionada em Gálatas 1,18?
Catorze anos antes de escrever 2Coríntios 12, 2 parece ter passado por uma
profunda experiência espiritual, mas não temos mais nenhum dado para a
localizarmos.
Temos de tomar dos Actos dos Apóstolos os principais pontos de referência.
Neles mencionam-se personagens da história civil, como Cláudio, Herodes
Agripa, Galião, António Félix e Pórcio Festo, Cláudio Lisias, Agripa e
Berenice, etc., com alguns dos quais, parece, que Paulo se relacionou. Mas a
cronologia destes mesmos personagens não é fiável. Há, além do mais, textos
cronológicos que são ambíguos como, por exemplo, o biénio mencionado em Act.
24,27. Refere-se ao mandato de Félix ou um interregno entre ele e Festo?
Optamos pela 1ª possibilidade. Finalmente, os anos sabáticos da Judeia são
um bom ponto de referência para compreender e datar as colectas (J.
Jeremias), mas curiosamente não são mencionadas nem por Paulo nem pelos
Actos dos Apóstolos. As cronologias que apresentamos combinarão informações
de diferentes procedências e nem todas com o mesmo grau de certeza.
7.1.2. Proposta
Apresentamos uma cronologia da actividade apostólica de Paulo e
uma possível localização dos seus escritos inseridos na mesma. Devemos ter
presente que não existe acordo entre os especialistas sobre a cronologia. No
entanto, os estudos mais recentes sobre Paulo e a sua actividade apostólica
vão coincidindo, cada vez mais, com a cronologia que apresentamos neste
estudo. (Em itálico colocamos as datas que indicam acontecimentos da
história civil e que se revestem de especial interesse na relação com a
história de Paulo).
|
Início da nossa era |
Nasce Saulo, em Tarso de Cilicia |
|
Cercado ano 35 |
Conversão-vocação de Paulo |
|
Anos 35 ao 37/38 |
Actividade de Paulo na Arábia/Nabateia (Ga 1,17) |
|
Anos 37 a 40 |
Domínio de Aretas sobre Damasco |
|
Ano 37/38 |
Paulo volta a Damasco e foge para Jerusalém (2Co 11,32). Entrevista
de Paulo com Cefas (Gal 1,18) |
|
Anos 38-48 |
Paulo na Síria e Cilicia. Sua vinculação à comunidade de Antioquia (Gal
1,21; Act 11,25s.) |
|
Anos 46-48 |
Seca e ano sabático na Judeia. Carestia que coincide com a fome
universal no tempo de Cláudio (Act 11,27s.) |
|
Primavera de 48 |
Barnabé e Paulo em Jerusalém com a colecta de Antioquia Act 12,25 +
15,3s.). Realiza-se o "concilio" (Gal 2,1-10; Act15,5ss.).
Reconhecimento oficial de Paulo |
|
Anos 48-49 |
"Primeira viagem" de Paulo e Barnabé? (Act 13-14) e episódio de
Cornélio (Act 10,1-11,18) |
|
Inícios de 49 |
"Conflito de Antioquia" (Gal 2,11-15). Paulo, autónomo, parte para a
Europa. Evangelização da Galácia (Act 16,1-10) |
|
Outono de 49 |
Evangelização de Macedónia (y de Atenas?) (Act 16,12 - 17,34) |
|
Finais de 49 |
E Atenas, redacção de 1Tessalonicenses A, enviada por meio de
Timóteo (1Ts 3,2) |
|
Ano 49 |
Expulsão dos judeus de Roma por Cláudio (Act 18,2) |
|
Inverno 49-50 |
Paulo estabelece-se em Corinto |
|
Inícios de 50 |
Redacção de 1 Tessalonicenses B, no regresso de Timóteo (1Tes 3,6) |
|
Junho de 51 a
Maio de 52 |
Galião procônsul de Acaia |
|
Verão de 51 |
Paulo comparece perante Galião; pouco depois abandona Corinto (Act
18,12-18) |
|
Outono de 51 |
Visita de Paulo a Antioquia e às comunidades de Galácia (Act 18,22s;
Gal 4,13) |
|
Inícios de 52 |
Paulo estabelece-se em Éfeso. Dois anos e meio. Época especialmente
fecunda, pois ali escreve a maior parte da sua correspondência
Coríntios e Filipenses, a carta a os Gálatas e a carta a Filémon.
Época de especiais tensões com Corinto; bons serviços de Tito em
momentos delicados. |
|
Meados de 54 |
Paulo sai de Éfeso, passa por Tróade e detém-se, uns tempos na
Macedónia (2Cor 2,12; 7,5). Escreve a última carta aos Coríntios
(2Cor 1,1 - 2,13 + 7,5 - 8,24); leva-a Tito |
|
Inverno 54-55 |
Paulo em Corinto (Act 20,3; 1Cor 16,6). Escreve a carta aos Romanos
uma carta a Éfeso, conservada em Rom 16,1-23 e, talvez também, em
Rom 14,1 - 15,6. Provavelmente é também, de agora, a polémica carta
a Filipos (Fil 3,2 - 4,9 ?) |
|
Ano 54-55 |
Ano sabático na Judeia. O ano 55 é de escassez |
|
Primavera de 55 |
Paulo vai de Corinto para Macedónia. A Páscoa em Filipos (Act 20,6),
1 de Abril. Segue por Tróade e Mileto |
|
Pentecostes de 55 |
(20 de Maio): chegada a Jerusalém com a colecta |
|
1 de Julho de 55 |
Pórcio Festo substitui Félix (Act 24,27) |
|
Verão de 55 |
Paulo detido no templo; processo perante o sinédrio e perante os
magistrados romanos; prisão em Cesareia, talvez de dois o três
meses, enquanto esperava a nau para Roma |
|
Outono/Inverno 55-56 |
Navegação para Roma (Act 27,1 - 28,10) |
|
Anos 56-58 |
Paulo em prisão domiciliária, em Roma (Act 28,30) |
|
Ano 58 |
Processo de Paulo, perante o tribunal imperial, condenação e morte |
7.2. Datação dos escritos deutero/tritopaulinismo
Trata-se, também aqui, de uma datação aproximada, uma vez que
existe uma grande incerteza à volta deste tema.
|
Anos 60/70 (ou 90 segundo outros) |
Carta aos Colossenses |
|
Anos 90/100 |
Carta aos Efésios |
|
Final do século I/Princípios do II |
1 Timóteo, 2 Timóteo, Tito |
|
Anos 90/95 |
Carta aos Hebreus |
|
Década de 80 |
Segunda carta aos Tessalonicenses |
8. MAPAS
Apresentamos os mapas das viagens de S. Paulo. Podemos encontrá-los, também,
em qualquer edição da Bíblia Sagrada que usualmente utilizamos.

LECTIO DIVINA
Na
apresentação deste conjunto de temas já fizemos referência à “Lectio
Divina”. Antes de entrar, directamente, no estudo das Cartas achei por bem
colocar este apêndice sobre o tema, partindo da estrutura clássica para
outra, mais actual, em 8 etapas.
Durante vinte
séculos a Igreja foi aprendendo a ler a BÍBLIA para aprofundar o mistério de
Jesus Cristo e descobrir a vontade de Deus em cada época da história.
Origines, estudioso/amante da Bíblia do séc. III, nascido em Alexandria,
exortava a que se lesse a Bíblia «com o coração aberto e em clima de
oração». A esta forma de ler a Bíblia deu o formoso nome de “LECTIO
DIVINA”, que significa “Leitura de Deus”.
Esta forma de ler a Bíblia está a ser recuperada e o Concílio Vaticano II,
sempre que fala das fontes que alimentam a vida cristã, remete para a
leitura da Palavra de Deus.
Guigo, monge
cartuxo do séc. XII imaginava o itinerário da “Lectio divina” como uma
escada de quatro degraus:
-
o 1º degrau é a leitura;
-
o 2º degrau é a meditação;
-
o 3º degrau é a oração;
- o 4º degrau
é a contemplação. É a escada que une o céu à terra.
Descreve, assim estes quatro momentos:
-
A Leitura (Lectio) é o estudo assíduo das Sagradas Escrituras feito
com atenção.
-
A Meditação (Meditatio) é a diligente actividade da mente que procura
conhecer as verdades ocultas no texto que lê.
-
A Oração (Oratio) é o impulso fervoroso do coração que nos leva para
Deus, impulso que procura afastar o mal e alcançar o bem
-
A Contemplação (Contemplatio) é a elevação da mente para Deus.
Apresentamos, de seguida, um método para a Leitura da Palavra de Deus –
leitura-escuta-orante da Sagrada Escritura –, em 8 etapas que parte do
encontro comigo mesmo, passa pelo encontro com a Palavra e com Deus e, por
fim, projecta-me para o encontro com os irmãos.
1.
Statio (Preparação) – Preparo-me para
escutar a Palavra de Deus. Preparo o lugar, a mente,... procuro fazer
silêncio interior e exterior e criar disposição para a escuta.
2.
Lectio (Leitura)
– A Palavra escutada. Ler
o texto com atenção e procurar compreendê-lo.
3.
Meditatio (Meditação) –
A Palavra compreendida. Procurar perceber o significado da Palavra. Que diz?
Que me diz? Quem me diz?
4.
Oratio (Oração) –
A minha palavra responde à
Palavra. Rezo o texto...
5.
Contemplatio (Contemplação) –
A Palavra adorada. Silêncio diante da Palavra, contemplação...
6.
Discretio (Discernimento)
– A Palavra confrontada. Prolongo a escuta, faço o discernimento, analiso.
Procuro perceber a vontade de Deus através da Palavra.
7.
Collatio (Palavra partilhada)
– Diálogo com os irmãos acerca da Palavra. Procura-se juntos partilhar a
Palavra e discernir a vontade de Deus.
8.
Actio (Acção)
– A Palavra em acção. A
Palavra dá frutos, cumpre-se, realiza-se. Tem implicações na vida, torna-se
testemunho, anúncio, compromisso.
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