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Em Julho de 1936, durante
a guerra civil espanhola, os anarquistas irromperam no Seminário claretiano
de Barbastro e revistaram-no à procura de armas. Nada encontraram. Levaram
então todos membros da comunidade para uma prisão, onde os sujeitaram a
múltiplas sevícias, humilhações e sofrimentos. Duas semanas depois, entre 2
e 18 de Agosto, em 5 momentos diferentes, fuzilaram todos os padres e
seminaristas. Estes 51 mártires foram beatificados pelo Papa João Paulo II
em 1992.
Recentemente, tive ocasião
de visitar o seu santuário e o museu memorial na cidade onde derramaram o
seu sangue pela fé cristã. Ali se guardam testemunhos, recordações, escritos
e os ossos deste “Seminário mártir”, como lhe chamou João Paulo II. No
livro-guia está escrito que este museu “oferece aos visitantes uma mensagem
de fé, perdão, reconciliação, amor a Jesus Cristo, à Virgem Maria e à
Igreja, à Congregação claretiana de que faziam parte e às suas famílias”.
Os testemunhos que
deixaram são impressionantes pela fé que animava estes cristãos, quase todos
jovens religiosos. Pouco antes da sua morte, Ramón Illa escreveu à família:
“Com a maior alegria da alma, comunico-vos que o Senhor se digna pôr nas
minhas mãos a palma do martírio; e envio-vos um pedido como testamento: que
ao receberem estas linhas cantem ao Senhor pelo dom tão grande e notável
como é o martírio que o Senhor se digna conceder-me. Estamos no cárcere
desde o dia 20 de Julho. Há oito dias fuzilaram o padre Superior e outros
Padres. Felizes eles e aqueles que vamos a seguir. Vou ser fuzilado por ser
religioso e membro do clero, ou seja, por seguir as doutrinas da Igreja
Católica. Graças sejam dadas ao Pai por nosso Senhor Jesus Cristo”. Este
mesmo ânimo cheio de fortaleza mostravam todos os outros que registaram onde
puderam o seu testemunho. Um outro escreveu: “Senhor! Perdoo de todo o meu
coração a todos os meus inimigos e peço-vos que o meu sangue, que só por
vosso amor derramarei lave tantos pecados como se cometeram nesta Barbastro
mártir. Viva Cristo Rei e o Coração de Maria!” Além dos missionários, foram
martirizados na mesma altura muitos religiosos, padres, leigos e mesmo o
bispo.

Como se preparavam para o
seu “grande dia”? Um dos testemunhos conta como viveram o dia 12 de Agosto,
véspera da morte de um grande grupo: “Passámos o dia em religioso silêncio e
preparando-nos para morrer amanhã; só o murmúrio santo das orações se deixa
ouvir nesta sala, testemunho das nossas duras angústias: se falamos é para
nos animarmos a morrer como mártires; se rezamos, é para perdoar aos nossos
inimigos. Salva-os, Senhor, que não sabem o que fazem!...”. Outro deixa um
apelo à consciência dos algozes: “Operários! Os Mártires morremos amando-vos
e perdoando-vos. Muitos oferecemos a Deus as nossas vidas pela vossa
salvação. Vede se é sincero o nosso interesse por vós! Estais envolvidos em
erros sociais e religiosos, vo-lo diz quem dentro de cinco horas vai morrer!
Que vejam, Senhor!”

“Adeus, até ao céu”, é uma expressão que se repete em vários testemunhos. Um
dos mártires, por falta de papel, escreve à família num lenço: “Quando vos
notifiquem sobre a minha morte, estai tranquilos porque tendes um filho
mártir. Até ao Céu”.
Como não ver na fortaleza
e no amor destes mártires um sinal forte da ternura de Deus para com eles e,
neles, para connosco. Com a fé, Deus dá-nos o amor, a esperança, a promessa
da vida eterna, a alegria e muitos outros bens, que enchem de sentido e de
grandeza a nossa vida, mesmo quando perseguidos e martirizados.
P. Jorge Guarda |