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Sinais da ternura de Deus


O Grande amor dos Mártires


texto: P. Jorge Guarda
(Vigário Geral da diocese de Leiria-Fátima)

 

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Em Julho de 1936, durante a guerra civil espanhola, os anarquistas irromperam no Seminário claretiano de Barbastro e revistaram-no à procura de armas. Nada encontraram. Levaram então todos membros da comunidade para uma prisão, onde os sujeitaram a múltiplas sevícias, humilhações e sofrimentos. Duas semanas depois, entre 2 e 18 de Agosto, em 5 momentos diferentes, fuzilaram todos os padres e seminaristas. Estes 51 mártires foram beatificados pelo Papa João Paulo II em 1992.

Recentemente, tive ocasião de visitar o seu santuário e o museu memorial na cidade onde derramaram o seu sangue pela fé cristã. Ali se guardam testemunhos, recordações, escritos e os ossos deste “Seminário mártir”, como lhe chamou João Paulo II.  No livro-guia está escrito que este museu “oferece aos visitantes uma mensagem de fé, perdão, reconciliação, amor a Jesus Cristo, à Virgem Maria e à Igreja, à Congregação claretiana de que faziam parte e às suas famílias”.

Os testemunhos que deixaram são impressionantes pela fé que animava estes cristãos, quase todos jovens religiosos. Pouco antes da sua morte, Ramón Illa escreveu à família: “Com a maior alegria da alma, comunico-vos que o Senhor se digna pôr nas minhas mãos a palma do martírio; e envio-vos um pedido como testamento: que ao receberem estas linhas cantem ao Senhor pelo dom tão grande e notável como é o martírio que o Senhor se digna conceder-me. Estamos no cárcere desde o dia 20 de Julho. Há oito dias fuzilaram o padre Superior e outros Padres. Felizes eles e aqueles que vamos a seguir. Vou ser fuzilado por ser religioso e membro do clero, ou seja, por seguir as doutrinas da Igreja Católica. Graças sejam dadas ao Pai por nosso Senhor Jesus Cristo”. Este mesmo ânimo cheio de fortaleza mostravam todos os outros que registaram onde puderam o seu testemunho. Um outro escreveu: “Senhor! Perdoo de todo o meu coração a todos os meus inimigos e peço-vos que o meu sangue, que só por vosso amor derramarei lave tantos pecados como se cometeram nesta Barbastro mártir. Viva Cristo Rei e o Coração de Maria!” Além dos missionários, foram martirizados na mesma altura muitos religiosos, padres, leigos e mesmo o bispo.

 

Como se preparavam para o seu “grande dia”? Um dos testemunhos conta como viveram o dia 12 de Agosto, véspera da morte de um grande grupo: “Passámos o dia em religioso silêncio e preparando-nos para morrer amanhã; só o murmúrio santo das orações se deixa ouvir nesta sala, testemunho das nossas duras angústias: se falamos é para nos animarmos a morrer como mártires; se rezamos, é para perdoar aos nossos inimigos. Salva-os, Senhor, que não sabem o que fazem!...”. Outro deixa um apelo à consciência dos algozes: “Operários! Os Mártires morremos amando-vos e perdoando-vos. Muitos oferecemos a Deus as nossas vidas pela vossa salvação. Vede se é sincero o nosso interesse por vós! Estais envolvidos em erros sociais e religiosos, vo-lo diz quem dentro de cinco horas vai morrer! Que vejam, Senhor!” 



“Adeus, até ao céu”, é uma expressão que se repete em vários testemunhos. Um dos mártires, por falta de papel, escreve à família num lenço: “Quando vos notifiquem sobre a minha morte, estai tranquilos porque tendes um filho mártir. Até ao Céu”.

Como não ver na fortaleza e no amor destes mártires um sinal forte da ternura de Deus para com eles e, neles, para connosco. Com a fé, Deus dá-nos o amor, a esperança, a promessa da vida eterna, a alegria e muitos outros bens, que enchem de sentido e de grandeza a nossa vida, mesmo quando perseguidos e martirizados.

P. Jorge Guarda

 

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