C
hamados a Evangelizar

Como viver hoje
a nossa vocação missionária

 

 

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Anúncio e preparação do XXIV Capítulo Geral

 

Rectângulo arredondado: I. CARTA DE ANÚNCIO DO XXIV CAPÍTULO GERAL
 
 

 

 

Queridos irmãos:

1. Os ecos da celebração do Bicentenário do nascimento do Padre Fundador vão chegando até nós em línguas e expressões culturais muito variadas. Verifica-se, no entanto, uma profunda sintonia em torno dum património comum que pretendemos seguir, colocando-o ao serviço da Igreja e da humanidade. Reconheceria hoje Claret, na Congregação, a encarnação do seu sonho missionário? Esta pergunta acompanha-nos, de modo especial, neste tempo jubilar em que comemoramos o segundo centenário do seu nascimento. Sabemos que o Padre Fundador teria de se contextualizar social, cultural e eclesialmente. Olharia e observaria a nossa maneira de viver e evangelizar. Que lindo seria se aquele desejo poderoso de que Deus fosse conhecido, amado, servido e louvado que dinamizou a sua vida, o pudesse perceber em nós, como motivação permanente das nossas vidas, comunidades e projectos missionários! A celebração do Bicentenário tem-nos levado a uma consciência mais profunda e dinâmica de nossa identidade e da necessidade de a vivermos e expressarmos de maneira nova, para que não morra, antes permaneça viva e portadora de vida para muitos.

 2. Há dois meses, no Brasil, estavam reunidos com o Governo Geral os Superiores Maiores da Congregação. Que tema deve polarizar a atenção do próximo Capítulo Geral? Que rumo devemos traçar para promover a participação activa de todos os claretianos no discernimento capitular? Estas duas perguntas orientaram a nossa reflexão durante aqueles dias. Através de um diálogo intenso, demo-nos conta de que o Capítulo deveria ter como ponto central o tema da “Identidade Claretiana”. Não por sentirmos a necessidade de fazer um exercício teórico de definição da mesma; o caminho percorrido pela renovação congregacional deixou-nos um corpo doutrinal sólido e profundo. A urgência do tema surgia da imperiosa necessidade de aprofundar e interiorizar as características fundamentais da identidade claretiana e de buscar um novo modo de a expressarmos hoje num contexto social, eclesial e cultural bem diferente de há muitos anos. A partir desta perspectiva e com este objectivo vamos empreender o caminho capitular.

 3. Neste caminho capitular convido-vos todos a participar, através desta carta em que vos anuncio oficialmente a celebração do XXIV Capítulo Geral, que acontecerá durante o mês de Agosto de 2009.

 

A. UM TEMA PARA O CAPÍTULO

 4. O Governo Geral, acolhendo as sugestões do Encontro com os Superiores Maiores, decidiu enunciar da seguinte maneira o tema que vai centralizar a reflexão no nosso itinerário até ao Capítulo: “CHAMADOS A EVANGELIZAR: COMO VIVER HOJE A NOSSA VOCAÇÃO MISSIONÁRIA”. Para nós, falar em identidade é situar-nos em chave missionária: somos missionários. O número 26 do Directório di-lo de maneira clara e muito bela: “A Palavra ‘missionário’, entendida a partir da experiência espiritual de Santo António Maria Claret, define a nossa identidade carismática. O título ‘Missionário Apostólico’, que ele recebeu, sintetiza o seu ideal de viver ao estilo dos Apóstolos. Esta maneira de viver implica ser discípulo e seguir o Mestre, viver os Conselhos Evangélicos em comunidade de vida com Jesus e com o grupo dos chamados, ser enviado e anunciar a Boa Nova do Reino ao mundo inteiro. A unção do Espírito para anunciar o Evangelho, e a comunhão com Cristo, o Profeta por excelência, faz-nos participantes da função profética.

 5. O enunciado do tema que será reflectido e partilhado nesta etapa capitular quer salientar três aspectos importantes. Fomos “chamados”: a vocação é um dom que deve ser acolhido e a que temos de dar resposta; exige um estilo de vida que, no nosso caso, é uma vida consagrada e partilhada com os irmãos na comunidade. Fomos chamados para “evangelizar”: este é o objectivo do chamamento; o Senhor quer-nos missionários, envia-nos. Esta vocação, importa vivê-la “hoje”. Há que renovar a nossa adesão a este projecto de vida, conscientes das motivações e das dificuldades que encontramos no momento histórico e no ambiente cultural em que nos toca viver, desejosos de sermos sal que dá sabor evangélico e luz que indica o horizonte do Reino no mundo de hoje.

   6. É-nos concedida, uma nova oportunidade para partilharmos a maneira como vivemos esta identidade: a percepção do mundo a que a vivência desta identidade nos conduz; as exigências que projecta sobre a nossa vida; os sonhos de futuro que em nós desperta; os vínculos que cria entre aqueles que partilham o mesmo chamamento e lhe desejam responder; os medos que uma vida de radical fidelidade provoca em nós; a nossa abertura a Deus, aos irmãos e ao mundo. Seriam tantas as perguntas! Será maravilhoso e inspirador poder partilhar estas vivências e estes sonhos. Este o primeiro passo necessário para podermos formular os contributos e propostas que irão enriquecer a reflexão capitular e constituir a base das decisões que o Capítulo deverá tomar para os próximos anos da vida congregacional. Sim, as nossas propostas têm de nascer da vida; mas de uma vida aberta a Deus, ao partilharmos com os irmãos a nossa opção de viver “para que todos tenham vida”; em resumo, de uma vida consagrada inteiramente ao serviço do Reino no seguimento de Jesus.

 7. Iniciamos, pois, o caminho rumo ao Capítulo. Permitam que chame a atenção para duas referências fundamentais no começo do nosso itinerário capitular: as Constituições e a realidade. Partilhei esta reflexão com os Superiores Maiores reunidos no Brasil. Quero-a propor a todos, porque me parece importante não perdermos de vista estes dois pontos que devem guiar as nossas reflexões e orientar as nossas propostas.

 

B. O QUE NOS DIZEM AS CONSTITUIÇÕES SOBRE O CAPÍTULO GERAL

 8. As Constituições dão-nos algumas indicações precisas sobre a natureza e os objectivos do Capítulo (cf. CC 153-155). Tais indicações devem ser o nosso ponto de partida. Antes de começardes os vossos trabalhos, seria bom reler estes números das Constituições.

 9. As Constituições dizem-nos, antes de mais, que o Capítulo está ao serviço do carisma. Acredito que se trata de uma observação óbvia, mas de suma importância. É uma afirmação que nos situa numa perspectiva de fé: convida-nos a entrar num atento diálogo com o Senhor que nos chamou e que nos continua a chamar através de múltiplas mediações. A referência à Palavra de Deus que nos convoca; a memória do Fundador que foi instrumento da Providência para dar corpo a este carisma com que Deus quis agraciar a Igreja; o caminho que a Congregação tem feito ao relê-lo no decorrer da sua história, são aspectos fundamentais a ter em conta. Manter o carisma vivo, procurar que permaneça fonte de vida para aqueles que o receberam e ver como pode continuar a fecundar a vida da Igreja e a prestar um serviço relevante à humanidade, eis as funções próprias dum Capítulo. A nossa razão de ser na Igreja e no mundo reside, precisamente, neste carisma. Ao seu serviço, pois, se deve situar o Capítulo Geral.

10. As Constituições definem o Capítulo Geral como “expressão da comunhão de vida e de missão de todo o Instituto”. A nossa Congregação nasceu como comunidade missionária. Só permanecerá fiel à inspiração original na medida em que continuar a ser “comunidade missionária”. O Capítulo deve saber expressar e promover esta comunhão que nos faz sentir a todos irmãos, e consolidar ao mesmo tempo seu carácter missionário. Precisamos de saber escutar-nos mutuamente; de nos deixarmos questionar pelas preocupações e propostas que nascerem das diferentes comunidades claretianas ao calor da vida partilhada com o povo; de nos ajudarmos mutuamente a ler estas situações em chave missionária e a buscar uma resposta que, no respeito pela diversidade, seja fiel ao carisma claretiano. A nossa comunidade tem-se enriquecido, nos últimos tempos, com a presença de irmãos de contextos culturais diversificados. Construir a comunhão é uma tarefa apaixonante, mas supõe uma verdadeira ascese por parte de cada um. O grande desafio que temos de enfrentar, durante esses dias, é o de traçar rumos que nos ajudem a consolidar a comunhão e a definir melhor as chaves que podem garantir a fidelidade dos nossos projectos pastorais e actividades ao carisma missionário claretiano.

 11. Dizem-nos também as Constituições que o Capítulo é um momento muito importante de avaliação da vida da Congregação. Trata-se de ver como estamos a assumir o projecto de vida missionária, proposto nas Constituições, e a expressá-lo na espiritualidade, nas relações comunitárias, nos programas formativos, nas iniciativas pastorais, nas estruturas de Governo e no funcionamento de economia. Teremos ainda que lançar mão do discernimento que fizemos há seis anos sobre a nossa vida e missão no contexto do novo milénio, então recém-começado, e ver até que ponto fomos capazes de efectivar as prioridades que tomámos. Traduzimos tudo isso no documento “Para que tenham vida”, guia das nossas programações durante estes anos. Não podemos esquecer essas duas referências fundamentais, se quisermos continuar a crescer carismaticamente.

 12. As Constituiçõs recordam-nos igualmente que “o Capítulo aplica à Congregação a doutrina da Igreja sobre a Vida Religiosa e o apostolado”. Em comunhão com a Igreja vivemos o nosso carisma e, através dele, queremos enriquecer o seu património espiritual e dinamizar a sua projecção missionária. A consciência da comunhão eclesial não pode deixar de nos acompanhar na reflexão destes dias. Importa escutar a voz da Igreja Universal e das Igrejas Particulares e estar muito atentos aos novos horizontes que temos pela frente. A adesão cordial à Igreja foi uma das características do nosso Fundador, como nos recordava o Papa na sua mensagem à Congregação a propósito do Bicentenário. Sabemos que a Vida Consagrada tem uma missão profética dentro da Igreja e que ser fiel a ela constitui uma exigência da vocação recebida. A comunhão eclesial constrói-se com o esforço e a colaboração de todos e constitui um sinal da presença do Senhor que acompanha o caminhar da humanidade.

 13. O Capítulo – prosseguem as Constituições - “exerce uma função magisterial em relação ao património espiritual da Congregação”. Cabe-lhe reler o carisma nos novos contextos históricos e culturais e “promulgar os decretos e disposições” que forem julgados necessários para manter o vigor da vida missionária. Só a partir dum profundo conhecimento da nossa tradição seremos capazes de lhe dar novas expressões, de modo a tornar a nossa presença e o nosso trabalho pastorais verdadeiramente relevantes para a Igreja e para o mundo de hoje. A celebração do Capítulo Geral deve-nos ajudar a reforçar o sentido de pertença à comunidade congregacional e a tomar renovada consciência da sua história e do seu esforço por ser fiel ao carisma recebido, nos diversos tempos e lugares. O caminho pré-capitular impele-nos a buscar a maneira de exprimir, hoje, um carisma que, para manter a sua vitalidade, precisa de saber dialogar com as situações concretas da humanidade em cada momento histórico.

 14. Finalmente, o Capítulo elege o “Superior Geral e seus Consultores”, a fim de confirmarem os seus irmãos na vocação e animarem a Congregação a trilhar os rumos apontados. Importa ter presente estas indicações, quando avançarmos no diálogo sobre o tema do próximo Capítulo Geral.

 

C. O CONTEXTO DO CAPÍTULO

 15. Um segundo aspecto que desejo sublinhar é o do contexto em que o Capítulo Geral se realiza. Celebra-se num momento histórico particular, a que não somos indiferentes. A situação do mundo, a hora eclesial que estamos a viver, os desafios que hoje se levantam à Congregação, interpelam-nos e reclamam um esforço sério de reflexão. Só a partir daí poderemos situar a nossa vida e missão dentro da história da salvação. As Constituições, ao definirem a nossa missão na Igreja, recordam-nos as palavras da “Gaudium et Spes”: “partilhando as esperanças e as alegrias, as tristezas e as angústias das pessoas, sobretudo dos pobres, procuramos dar a nossa colaboração a todos os que se empenham na transformação do mundo conforme o desígnio de Deus” (CC 46). Esta inserção na história faz parte da nossa missão e é o que a torna verdadeiramente relevante. Pede-nos, pois, uma especial atenção ao momento histórico em que vivemos. Esta observação pretende ir mais além da simples constatação de factos ou da mera análise social. Colocados perante determinada situação humana, desafiados somos a olhar com mais atenção para aqueles que sofrem e a nos deixarmos questionar profundamente. No documento do último Capítulo Geral falou-se da necessidade de “nos deixarmos tocar” pelos pobres (cf. PTV 67,1). As perguntas que daí brotam devem inquietar-nos de tal modo que não possamos deixar de agir, de buscar resposta para os gritos que nos chegam com força ao coração. O ministério profético surge sempre de uma profunda comunhão com Deus e com a situação do povo. Aceno apenas a alguns aspectos incontornáveis na reflexão sobre os três pontos de referência que definem a nossa realidade.

 

a. A situação do mundo

 16. Toda a gente concorda em dizer que a globalização define o momento histórico actual. Embora possa abrir imensas possibilidades à solidariedade e à construção de um mundo mais humano, constatamos, tristemente, que se está a converter numa estrutura ao serviço dos interesses dos que detêm o poder e querem impô-lo globalmente. O sofrimento e a exclusão produzidos têm, para nós, nomes concretos de pessoas e de povos, que vêem esmagados os seus direitos, a sua dignidade, o respeito pela sua cultura, a sua língua, o seu ambiente, enfim, a sua vida. Vivemos e desenvolvemos o nosso ministério no meio dessas pessoas e povos. Daí algumas interpelações: que globalização se reflecte na nossa maneira de viver e de pensar? Ao serviço de que tipo de globalização estão as nossas estruturas pastorais? Como nos vêem e nos sentem as vítimas da globalização neoliberal que pesa sobre elas, como uma cruz que as faz cair sem nenhuma perspectiva de se poderem levantar? Pensamos nos refugiados, nos povos indígenas marginalizados, nos emigrantes forçados a abandonar os seus países para poderem sobreviver; ou no crescente número de meninos de rua, nas imensas massas humanas que vegetam nas periferias das grandes concentrações urbanas e num infindo etc. que, entre todos, poderíamos completar. O doloroso grito da África ressoa com particular intensidade num mundo que prefere olhar para outros horizontes.

 17. Neste mundo globalizado parece que todos se sentem de algum modo ameaçados. Vemos como crescem os fundamentalismos que, muitas vezes, se exprimem através de acções violentas. Parece que a solução não consiste em escutar e acolher o outro, mas em suprimi-lo ou em impor-lhe a própria visão da realidade. No último Capítulo Geral dissemos que a nossa evangelização tinha de se realizar em chave de diálogo: intercultural, inter-religioso e ecuménico. Como nos colocamos ao serviço do diálogo? Como integrar as exigências deste diálogo no nosso estilo de vida? Enquanto servidores da Palavra, somos servidores do diálogo de Deus com a humanidade. Que significa isso, em concreto, para cada um de nós e para as nossas comunidades?

 18. Falamos de uma cultura “light”. Parece que os nossos contemporâneos estão cada vez menos preocupados com as perguntas fundamentais presentes no coração de cada ser humano. Por isso, anunciar o Evangelho nestas condições torna-se cada dia mais difícil. A nossa própria fé sente-se questionada. Em muitos lugares do opulento primeiro mundo, a nossa presença afigura-se quase supérflua. Noutros, convertemo-nos, por vezes, em gestores de projectos que, se melhoram certamente as condições de vida de muitas pessoas, revelam-se, com frequência, incapazes de abrir as suas existências à Palavra e de imprimir novos rumos à história dos seus povos. Que nos diz tudo isto? Como lemos as perguntas que brotam de esta realidade?

 19. Vivemos na era das comunicações, mas cresce, simultaneamente, o número de pessoas que sofrem terríveis experiências de solidão. Até que ponto nos sentimos chamados a partilhar o tempo e a amizade com essas pessoas? Como podemos ser, para elas, fonte de consolação, sinal da presença do Pai? Por outra parte, todo o tipo de mensagens chega a milhões de pessoas, cada dia, através da internet. Para nós, servidores da Palavra, a nova sociedade da informação constitui um grande desafio. Que palavras queremos partilhar com aqueles que se alimentam, principalmente, de palavras e imagens que aparecem na rede, palavras e imagens que, muitas vezes, não semeiam esperança nem comunicam verdadeiros valores humanos?

 20. No nosso viver quotidiano, deparamos também com sinais que nos revelam a presença de Deus no mundo. São cada vez mais numerosas, por exemplo, as pessoas e os grupos que lutam por um mundo alternativo e que sabem orientar a sua vida a partir de valores capazes de saciar as necessidades de amor e de verdade que se aninham no coração de cada ser humano. Sentimo-nos próximos de essas pessoas e identificados com muitos dos seus projectos? Sabemos acolher o apelo do Senhor que nos chega por meio das suas propostas e do seu testemunho? Como se explica, então, a resistência de alguns claretianos a colaborar mais activamente nestas iniciativas? Não poderíamos, antes, dar-lhes uma profundidade nova, à luz da Palavra de Deus?

 21. O actual momento histórico está cheio de sinais de esperança. Para citar somente alguns: cresce a consciência ecológica e não diminui o esforço de muitas nações para estabelecer regras que garantam às gerações futuras uma natureza plena de vida. Recentemente, as Nações Unidas aprovaram uma moratória sobre a pena de morte, o que nos faz esperar o fortalecimento duma crescente consciência da dignidade da pessoa. A luta por esta dignidade da pessoa e seus direitos fundamentais suscita grandes movimentos de solidariedade, como o atestam os acontecimentos de Myanmar e do Tibete.

 22. Saibamos olhar o mundo, para podermos discernir o apelo de Deus neste tempo histórico. É grato verificar que se fazem comoventes gestos concretos de humanidade, descobrir a procura da verdade nas sugestões de muitos pensadores, ver reflectida a beleza de Deus nas expressões de tantos artistas. Convidados nos sentimos a dedicar mais energia àqueles que têm sede de aproximação e de carinho; através desta relação, abrimo-nos à experiência do amor do Pai. Sim, o Capítulo deve expressar hoje o nosso carisma, e o primeiro passo é tomar consciência do hoje que vivemos. Não saltemos este passo importante.

 

b. O momento eclesial

 23. A Igreja, após a celebração do jubileu do ano 2000, entrou no terceiro Milénio com um projecto pastoral apresentado pelo Papa João Paulo II na Carta Apostólica “Novo Milenio Ineunte”. O jubileu foi um momento intenso de vida eclesial, acompanhado de símbolos de profundo significado: o pedido de perdão; os gestos de reconciliação; a memória da Igreja mártir; as diversas celebrações que sublinharam a fraternidade em torno de Jesus e a esperança gerada pelo abrir do coração à sua mensagem e pessoa; a denúncia das injustiças que destroem o projecto de Deus para os seus filhos (recordemos a revindicação do cancelamento da dívida externa dos países pobres); o compromisso com o diálogo inter-religioso e ecuménico, que estabelece bases mais sólidas nos esforços pela paz e pela harmonia entre os povos. Todos nós recordamos a celebração do jubileu nas nossas próprias Igrejas. Já não passa de uma recordação ou ainda continua a ser fonte de vigor espiritual e dinamismo evangelizador?

 24. A partir da experiência de um intenso encontro com Cristo, foi-nos proposta de novo, nessa altura, a vocação à santidade como um desafio para o cristão do terceiro milénio. Nessa linha, fomos convidados a desenvolver uma espiritualidade solidamente fundada na escuta da Palavra e na vivência do mistério eucarístico e cultivada por meio da oração e da vida sacramental. Fazia-se um forte apelo ao anúncio audacioso da Palavra, sempre com uma atitude de diálogo, buscando novas linguagens em sintonia com a vida do ser humano de hoje. Foi-nos pedido que déssemos prioridade ao testemunho da caridade, o que, no âmbito da vida interna da Igreja, supõe um profundo compromisso de comunhão eclesial: aí se acolhem e relacionam entre si as diversas formas de vida cristã, bem como os diferentes carismas que permitem à Igreja crescer na vivência do mistério de Cristo e no cumprimento eficaz da sua missão. Na esfera da projecção missionária da Igreja, o testemunho da caridade exigia um compromisso claro pela paz, pela justiça e por respostas concretas às situações de pobreza e exclusão, infelizmente tão abundantes no mundo de hoje. O Papa, finalmente, apontava os novos areópagos, que reclamam criatividade e audácia por parte da Igreja.

 25. A ressonância que a morte do Papa João Paulo II teve no mundo inteiro fez-nos adquirir uma renovada consciência de que a Igreja continua a ser um ponto de referência e de que o Evangelho de Jesus, quando proclamado com respeito e convicção, e testemunhado com radicalidade, acaba sempre por tocar o coração humano.

26. Bento XVI orienta-nos para os aspectos fundamentais do mistério cristão e convida-nos a encontrar caminhos que abrem espaço ao Evangelho na nossa sociedade. A experiência do Mistério do amor de Deus revelado em Jesus é testemunhada pela comunidade dos seus discípulos, abre o coração à esperança e cria pessoas capazes de contribuir para que a realidade actual se torne “o novo céu e a nova terra” prometidos pelo Senhor. Jesus acompanha-nos e leva-nos a uma experiência de Deus que enche o coração e transforma a vida.

27. As Igrejas de cada Continente continuam a acompanhar o seu povo, a escutar os seus clamores e a fortalecer as suas esperanças. Viver hoje como comunidade de discípulos de Jesus ao serviço da vida desses povos é o núcleo principal do planeamento pastoral que a Igreja da América Latina fez na Assembleia da Aparecida. Poderíamos citar, igualmente as orientações de outras Igrejas continentais. No ano 2009 realizar-se-á o Sínodo Africano, que vai continuar a orientar o caminho da Igreja desse Continente.

28. Insisto nestes pontos, porque me parece que o discernimento capitular tem de se inserir neste caminho eclesial e de definir a nossa colaboração na realização deste projecto. Há decerto, na Igreja, sinais de involução; algumas pessoas, a partir de uma compreensão errónea da missão, parecem mais preocupadas em manter espaços de prestígio e de poder do que em colocar-se, gratuitamente, ao serviço do anúncio do Evangelho. Não é também menos certo que, muitas vezes, se pretende eliminar o carisma da vida consagrada ou dos diversos Institutos, em função de uma disciplina que não ajuda, seguramente, o crescimento harmonioso da comunidade eclesial nem o desenvolvimento dinâmico da sua missão. Tudo isto é verdade e, por isso, importa fazer um exame crítico, ainda que cheio de amor e respeito, da situação eclesial. Amamos profundamente a Igreja e nela queremos ser, como o nosso Fundador, instrumentos de renovação e dinamismo missionário. Como servidores da Palavra, sentimo-nos especialmente chamados a viver, com particular intensidade, o Sínodo sobre “a Palavra de Deus na vida e missão da Igreja” que Bento XVI convocou para o próximo mês de Outubro.

 

c. A Congregação hoje

 29.    A situação do nosso Instituto é um terceiro ponto de referência. Temo-lo repetido muitas vezes: a geografia humana da Congregação está a mudar e tem as suas consequências. Reporto-me ao que vos dizia na circular “Testemunhos e Mensageiros de Deus da vida”. Durante o Capítulo examinaremos, calmamente, como estamos a assumir esta mudança e com que estratégias lhe vamos dando resposta.

 30.    Neste momento gostaria de frisar unicamente a implicação que isto pode ter no processo de discernimento capitular. As frentes apostólicas da Congregação têm-se multiplicado e, por isso, multiplicaram-se também as actividades pastorais. Tudo isto pode enriquecer o património missionário do Instituto, respondendo à palavra de ordem que nos deu o Fundador de “nos valermos de todos os meios possíveis” para o anúncio do Evangelho. Tenho a impressão de que esta multiplicação de iniciativas apostólicas se faz, por vezes, sem suficiente discernimento e sem reflexão séria e profunda sobre as exigências do carisma que recebemos e que deve caracterizar o nosso contributo para a missão eclesial. Não receio a diversidade, antes a considero uma riqueza. Mas preocupa-me a dispersão que dilui a identidade e não ajuda a garantir o carácter verdadeiramente missionário das nossas actividades. Temos de aprender a integrar solidamente o sentido de intuição, disponibilidade e catolicidade que as Constituições nos pedem (cf. CC 48).

 31. A Congregação tem feito um grande esforço, no processo de renovação pós-conciliar, para definir as grandes linhas que devem nortear a vida missionária. Há quase trinta anos, no Capítulo de 1979, pude contemplar, no novo texto das Constituições, o fruto da reflexão pós-conciliar em torno do projecto de vida missionária claretiana. O mesmo Capítulo, através de “A missão do claretiano hoje”, soube expressar, naquele particular momento histórico, as opções missionárias que deveriam configurar a vida das comunidades e a projecção evangelizadora do Instituto. Aquele documento constituiu, sem dúvida, um instrumento muito importante de discernimento sobre as novas presenças missionárias que se criaram, a revisão de posições apostólicas e a definição dos projectos pastorais das Províncias, das Delegações e de cada actividade. Os Capítulos posteriores salientaram os aspectos que merecem atenção especial em cada momento, aprofundando e explicitando a riqueza carismática contida nas opções tomadas. 

32. É hora de nos perguntarmos: que opções e projectos deveriam caracterizar a resposta missionária claretiana na nova situação do mundo e da Igreja? Não podemos fazer tudo nem tudo é válido, à luz da nossa identidade missionária. Os projectos missionários de alguns Organismos, mais do que propor linhas inspiradoras da acção apostólica e das estruturas mais adequadas para uma evangelização verdadeiramente profética, limitam-se a oferecer um elenco das actividades que se vão realizando e que nasceram, por vezes, sem o devido processo de discernimento no âmago da comunidade e do Organismo.  Torna-se difícil priorizar a atribuição  de pessoal e de recursos económicos, quando não existe um quadro de referência claro em relação às opções e prioridades apostólicas. É mais difícil a pastoral vocacional quando não existe clareza em torno da identidade e da maneira de a traduzir. Que significa hoje, para nós, ser “servidores da Palavra”, de uma palavra profética? Como exprimir esta identidade no actual momento histórico e nos diversos contextos onde estamos presentes? O que é que este carisma nos leva a preferir e para onde exige que orientemos o olhar? A partir da preparação do Capítulo, importa buscar resposta a estas perguntas.

 33. Um Capítulo Geral tem de evitar, certamente, meras declarações genéricas, que dificilmente incidem  na vida das pessoas e das comunidades. Mas tem de evitar, igualmente, cair na tentação de querer dar respostas a problemas pontuais que se devem resolver noutras instâncias de governo. O Capítulo precisa de encontrar uma linguagem que lhe permita falar ao coração de cada membro do Instituto e formular orientações capazes de se traduzirem em projectos e iniciativas missionárias. As decisões concretas que o próprio Capítulo Geral, os Capítulos Provinciais e Assembleias ou Governos, nos seus diferentes níveis de competência, deverão tomar, precisam de um quadro de referência que assegure a sua fidelidade carismática. Esperamos que a activa participação de todos no processo de reflexão pré-capitular nos ajude a encontrar a palavra oportuna que a Congregação necessita neste momento.

 

D. UMA PROPOSTA CONCRETA DE TRABALHO

 34. Para percorrer o caminho que nos leva ao XXIV Capítulo Geral, faremos uma proposta concreta de trabalho. No encontro do Governo Geral com os Superiores Maiores insistiu-se, repetidamente, na necessidade de fazermos aflorar a experiência pessoal de cada claretiano e de a partilharmos na Comunidade.  Aí começa a nossa busca. A partir daí, animados e questionados pela palavra que brota da vida de cada irmão, elaboraremos propostas que facilitem o discernimento capitular.

 35. Concretamente, propomos que se organize um ou dois dias de retiro - os que forem precisos - nas vossas comunidades, sobre o tema capitular, centrando-se na experiência de cada um em relação à vivência de sua vocação missionária claretiana e às interrogações que vos ocorrem neste momento concreto da história. Oferecemos, para isso, uma meditação e umas perguntas que facilitem a reflexão pessoal e a partilha comunitária.

 36. Avancem, depois, para um segundo momento: a elaboração de algumas propostas ou sugestões que ajudem o Capítulo a reflectir sobre o tema proposto e a formular as orientações de que a Congregação precisa para continuar a crescer na sua vida missionária ao longo dos próximos anos. Poderão fazê-lo dedicando, para isso, algumas reuniões comunitárias durante os meses indicados no calendário capitular. Estas propostas, convenientemente redigidas, devem ser enviadas ao Governo Provincial, que as fará chegar à Secretaria Geral. Oferecemos, igualmente, um breve questionário para facilitar a elaboração das ditas propostas.

 37. Estimulo-vos a participar activamente neste itinerário capitular. É um momento importante para a vida da Congregação e para cada um de nós. Dispomos, pois, de nova oportunidade para aprofundarmos a vivência do dom com que o Senhor nos agraciou, e também para crescermos na comunhão fraterna e fortalecermos a projecção apostólica. Não desperdicemos esta ocasião!

 38. A presença de Maria acompanhar-nos-á na caminhada. Como ela, procuraremos conservar e meditar no coração as palavras que nos chegam da experiência dos irmãos, o grito dos que esperam o anúncio do Evangelho, o convite do Senhor a darmos prioridade ao Reino, confiando inteiramente na sua Providência. Neste itinerário de discernimento capitular, deve-nos iluminar a experiência de Maria na Anunciação. Que ela desperte em nós um “Sim” que rasgue novos horizontes de esperança para a nossa vida e nos faça instrumentos capazes de os rasgarmos também para o caminhar da humanidade.

 39. Neste ano do Bicentenário, começamos o nosso itinerário capitular com a esperança de que a memória do Padre Fundador suscite em nós o desejo de encarnar o ideal da vida missionária; esse ideal que ele exprimiu, de forma cintilante, na “definição do missionário claretiano”.

 

            Roma, 19 de Março de 2008


 

 

Rectângulo arredondado: II. CALENDÁRIO DE PREPARAÇÃO
DO CAPÍTULO GERAL
 

 

 

 

 

Ano 2008

19 de Março        Carta de anúncio do Capítulo Geral

Maio                    Envio do questionário e materiais

Setembro             Nomeação da Comissão pré-capitular

15 de Setembro   Envio do guião das Memórias

24 de Outubro     Início do período de eleição de Delegados

 

Ano 2009

31 de Janeiro       Fim do período de eleição de Delegados

1-9 de Fevereiro  Designação de capitulares nomeados pelo Governo Geral

11 de Fevereiro   Convocatória do Capítulo Geral 

1 de Março          Envio das memórias dos Organismos e dos contributos sobre o tema capitular à Secretaria Geral  

15-22 de Abril     Reunião da Comissão pré-capitular

10 de Maio          Envio do instrumentum laboris do Capítulo aos capitulares e às comunidades

20 de Maio          Conselhos para a aprovação das Memórias do Governo Geral


 

 

Rectângulo arredondado: III. MEDITAÇÃO
 

Querido irmão:

 Estamos a iniciar a preparação do próximo Capítulo Geral, que se celebrará em Agosto de 2009. Neste mesmo folheto podes ler, se já o não fizeste, a carta de anúncio que o P. Geral  enviou a toda a Congregação. Começará, também, de imediato, o período de eleição dos delegados e a elaboração das Memórias. Perante esta sucessão de acontecimentos, podes sentir-te um pouco constrangido: Outro Capítulo Geral? Outro questionário? Mais reuniões? Para que serve tudo isso?

 

O Capítulo diz-me respeito

 Talvez penses que se trata de um assunto respeitante apenas aos provinciais e delegados, um assunto que, no fundo, tem pouco a ver contigo. A verdade é que cada novo Capítulo traz consequências para a vida de toda a Congregação, para ti também, mesmo que nem sempre tenhas consciência disso. Lembras-te, por exemplo, de qual foi a primeira prioridade do Capítulo de 2003? Foi a reorganização congregacional! Nestes anos foram criados seis novos organismos maiores: Indonésia-Timor Leste (2005), África Central (2005), Santiago (2007), Northeast Índia (2007), West Nigeria (2007), Brasil (2008). Muitos claretianos sentiram directamente as suas implicações. O envio de missionários e estudantes para outros organismos diferentes dos seus  afectou também o ritmo vital de muitas comunidades. Isto é apenas um exemplo de como as decisões capitulares influenciam mais do que, à primeira vista, parece. Podemos vencer as tentações de cepticismo e de preguiça se, desde o princípio, compreendermos que o Capítulo também é assunto nosso e fizermos um esforço por nos empenharmos o mais possível na vida da Congregação.

 

Às voltas com a identidade

 É normal que o que diz respeito a todos seja discernido, também, por todos. O próximo Capítulo Geral  propõe-se abordar particularmente o tema da nossa identidade claretiana no contexto actual. Como refere o P. Geral na carta de anúncio, o título proposto para o tema capitular é “Chamados a evangelizar. Como viver a nossa vocação missionária hoje”. É um eco do lema que nos tem acompanhado durante o Bicentenário do nascimento do Fundador: “Nascido para evangelizar”. Nessa mesma carta, o P. Geral explica as razões que  levaram o Governo Geral a escolher este tema, depois de  consultar  todos os superiores maiores da Congregação, no encontro realizado no Brasil. Por que motivo abordar agora a questão da identidade? Não foi suficientemente esclarecida ao longo dos últimos quarenta anos? Não estaremos preocupados de mais com as nossas coisas, alheios às verdadeiras perguntas e necessidades das pessoas?

A Congregação percorreu, sem dúvida, um longo caminho de esclarecimento, mas precisamos fazê-lo nosso. Os processos colectivos de “recepção” requerem tempo e, sobretudo, esforço e perseverança. Por outro lado, nas últimas décadas têm-se produzido notáveis mudanças  no mundo, na Igreja e na própria Congregação, mudanças que afectam a nossa maneira de entender e viver a vocação missionária e que exigem de nós uma nova resposta. É provável que, numa sociedade como a nossa, caracterizada, entre outras coisas, pelo fenómeno da pluripertença, tenhas perguntado mais de uma vez: Em que consiste ser claretiano? Está ao mesmo nível de ser professor num colégio ou responsável por uma actividade pastoral? Qual é o meu verdadeiro rosto dentro da  ampla rede de relações que caracteriza a minha vida? Em que me diferencio de outras formas de vida cristã?

 

A  identidade não é  uma  fórmula, mas sim uma experiência

 Pois bem, reflectir sobre a identidade não significa buscar fórmulas feitas: “Já passou o tempo de procurar fórmulas que nos definam e pelas quais nos identifiquemos” (MCH 131). O Capítulo de 1979 situou-nos na perspectiva correcta: “Recuperar a própria identidade claretiana, criar uma verdadeira comunhão de vida e acção apostólica e alcançar a autêntica disponibilidade para a missão não são coisas que se fazem por decreto, nem por mera informação, nem mesmo pelo estudo, ainda que este seja um dado imprescindível. O que é preciso é situarmo-nos de novo no centro da nossa experiência vocacional” (MCH 128). Esta é a chave: reviver a experiência vocacional. No  título do tema capitular, faz-se referência à nossa condição de chamados (sinal de que a vocação é um dom e implica um estilo de vida pessoal e comunitário) e, também, ao objectivo de nossa missão: evangelizar (que consiste em comunicar o mistério de Cristo, em diálogo com as pessoas, as culturas e os povos).

Por esta razão, o ponto de partida para preparar o Capítulo consiste em tomar consciência desta experiência que dá sentido ao que somos e partilhá-la com os irmãos de comunidade. O que nos faz ser claretianos não é o que imaginamos sobre nós mesmos, mas o dom que o Senhor nos concedeu, o chamamento a segui-l’O como  fez a Santo António Maria Claret. Por meio deste dom contribuímos para a construção da Igreja e da sociedade.

É impossível renovar a vida da Congregação, se cada um de nós não renovar a experiência da sua própria vocação. Precisamos, uma e outra vez, de saber quem nos chama, com quem devemos partilhar o caminho e a que  missão nos chama.

 

Decadência ou renovação?

 Pertencemos a uma Congregação que tem experimentado  diversas transformações ao longo da sua história, embora hoje se encontre em fases muito diferentes de evolução conforme as diversas regiões. Na Europa e na América vivemos tempos de redução numérica e de concentração de organismos. Na África e na Ásia, pelo contrário, estamos numa fase de crescimento e expansão. Como interpretar este fenómeno no seu conjunto? Os especialistas em sociologia da vida religiosa falam de quatro fases na evolução dum Instituto:  

1) A fase da fundação, que se caracteriza por uma alta intensidade carismática, escassez de meios, problemas de localização e limitações de pessoal.

2) A fase da codificação, caracterizada pela expressão e transmissão do carisma através de uma regra escrita, cuja observância os superiores recomendam com insistência.

3) A fase da estabilização institucional, na qual se conquista maior crescimento numérico, se completa a codificação-interpretação do carisma e se multiplicam as obras apostólicas. Esta fase de plenitude é acompanhada, muitas vezes, por uma certa rotina carismática e por uma atitude de conformismo e aburguesamento.

4) A fase crítica, na qual a instituição entra num processo imparável de questionamento e, por vezes, de decadência que pode levar ao desaparecimento ou, pelo contrário, como reacção, a uma profunda renovação pessoal e institucional.

É muito arriscado aplicar esquemas rígidos a uma realidade viva, formada por pessoas. Contudo, é provável que a nossa Congregação, que na altura do Capítulo terá completado 160 anos de existência, se situe globalmente entre a fase terceira e a quarta. Existem muitos indicadores típicos de estabilização institucional (obras consolidadas, abundante regulamentação interna, suficientes recursos), mas também algumas crises (diminuição de pessoal em várias regiões, elevada média de idade, escassez de vocações, dificuldades na transmissão do carisma, individualismo, etc.).

 

O fogo  que arde dentro

 Esta conjuntura histórica pode ser vivida como um “kairós”, um tempo favorável, desde que aprendamos a lição de fundo. O mais determinante para o futuro não é o que acontece “fora” e que não podemos controlar (factores demográficos, sócio-políticos, económicos, culturais, etc.), mas o que se passa “dentro” de nós (a força do próprio carisma e a maneira como o vivemos). É um facto comprovado na história da vida religiosa que, se não se der uma forte revitalização carismática das pessoas, a decadência dos Institutos acaba por ser inevitável. De nada servem os programas de futuro, as estratégias vocacionais ou as reformas organizativas.

A proximidade dum Capítulo Geral é uma boa ocasião para te perguntares como te situas neste processo, o que podes fazer para contribuir para uma renovação cada vez mais profunda da Congregação e, portanto, da nossa missão na Igreja e no mundo. Não sejas claretiano, simplesmente, para satisfazer alguns desejos infantis ou para realizar o “teu” projecto de vida. Na origem da tua vocação, experimentastes que Jesus, te olhou e disse, como aos apóstolos: “Vem e segue-me”. Ele desfez os teus planos e incorporou-te nos seus. Como poderias viver com alegria a vida comunitária, o trabalho apostólico, os teus momentos de sofrimento ou as tuas crises sem recordares este chamamento, sem o colocares no primeiro plano dos teus interesses e afectos?

 

Viver e fazer com  outros: o desafio da comunidade

 Por outro lado, reviver a própria experiência vocacional não é algo que se limita à própria pessoa. Significa descobrir que sua vocação é sempre con-vocação. Jesus continua a chamar a cada um de nós pelo nome, mas nunca nos envia sozinhos: envia-nos em comunidade. Este foi também o sonho de Claret: “fazer com outros” o que não podia fazer sozinho. Esta esplêndida visão desaparece quando nos deixamos vencer pela tentação, hoje  muito frequente, do individualismo, quando colocamos os nossos interesses acima das necessidades da Igreja a da Congregação. Nenhum de nós aceitou o convite para ser claretiano simplesmente para fazer uma carreira, para “ser alguém” na sociedade, mas para colaborar numa missão que vai além dos nossos projectos pessoais. Estávamos conscientes das renúncias que isto supunha; mas, também da beleza e da alegria que Deus oferece a quem “sai da sua terra” (cf Gn 12,1), “vende tudo” (cf Mc 10,21), “deixa família e bens” (cf Mc 1,18-19).

Como consagrados, pela profissão, os talentos que recebemos e os que ganhamos com o nosso esforço,  convertemo-los em oferenda ao serviço de Deus e dos mais necessitados. Reside aqui uma clara diferença em relação à pertença a qualquer outro tipo de organização. É verdade que, na prática, nem tudo é perfeito. Tanto na tua Comunidade como na tua Província e na Congregação, terás encontrado muitos defeitos. Nem sempre as nossas comunidades correspondem ao que se espera de um grupo entusiasta que “busca o Senhor” ou ao que necessitamos como seres humanos: liberdade, estímulo, alegria, perdão. Com frequência, na tentativa de equilibrar os diversos elementos da nossa vida, a comunidade fica a perder. No entanto, a partir da aceitação realista e compassiva dessa pobreza começa sempre um caminho de transformação. Quando aceitamos a própria fragilidade, estamos em condições de aceitar a fragilidade alheia. Nunca vivemos com as pessoas que escolhemos, mas com os irmãos que Deus nos dá como presente, estímulo e, por vezes, também como prova. Em todo o caso, acima de qualquer sentimento volúvel, somos chamados a tomar cada dia a decisão de amar.

 

Enviados a evangelizar a todo o  mundo

 Por último, o tema capitular tem a ver, também, com o sentido a imprimir hoje à nossa missão de evangelizadores. Temos reflectido muito sobre os múltiplos factores que a condicionam e sobre o modo de a entendermos, vivermos e expressarmos. Mas tudo é em vão se, por trás das reflexões e propostas, não houver um sujeito que vibra, um discípulo de Jesus que aceita com alegria “ser enviado”. Como estás a viver esta atitude de disponibilidade? Quando alguém se prende demasiado ao próprio trabalho, comunidade ou Organismo, torna-se muito difícil realizar a missão pedida a todo o Instituto. É certo que o nosso Fundador, à medida que foi amadurecendo, diversificou também os meios para o anúncio da Palavra. Das missões populares e dos exercícios espirituais foi-se abrindo  ao apostolado de imprensa, à criação de grupos e  associações, às Obras de promoção social, ao ensino, à  formação de agentes de evangelização, etc. Esta enorme variedade, enriquecida posteriormente pela Congregação ao longo da sua história, tem levado alguns a afirmar que “tudo é claretiano” e que, portanto, não é necessário fazer opções ou definir prioridades.

Não podemos esquecer que, no caso de Claret, a diversidade correspondia a um só objectivo, o qual imprimia uma profunda unidade ao seu agir missionário: que Deus fosse “conhecido, amado, servido e louvado por todos”. Podemos falar, pois, de muitas actividades, mas de uma só missão: a de Jesus, tal como Claret a encarnou. Vives assim?  Sentes orgulho dos diferentes modos de viver a única missão? Valorizas, de verdade, o que outros irmãos claretianos realizam? Sentes que o que fazes se insere dentro de um grande projecto que vai além do teu próprio trabalho? Estás disposto a assumir a parte que te toca nesse projecto comum, inclusive,  renunciando a outros projectos pessoais?

Ao Capítulo Geral caberá esclarecer de que modo a nossa missão é uma proposta que nasce do evangelho de Jesus e estabelece diálogo de vida com outras formas de entender e transformar a existência humana. Como claretianos, não devemos impor nada, mas sim propor, com convicção e fidelidade, a verdade, a beleza e a vida de Jesus. Sem este fogo, como poderíamos prosseguir a nossa missão no meio de tantas dificuldades que hoje encontramos?

 

O  que tu fazes é parte da obra

 Ao longo dos meses que faltam para o Capítulo Geral e durante a celebração do mesmo, teremos ocasião de continuar a dar passos. O que fazes, ainda que te pareça insignificante, é parte da obra. A Congregação não pode prescindir  de nenhum dos seus membros porque cada um de nós é uma mensagem de Deus para os demais. Que palavra trazes dentro? Quais são as tuas preocupações e os teus sonhos? Procura exprimi-los, a fim de enriquecerem a vida de todos.

As perguntas que seguem abaixo podem ajudar-te a aprofundar  a tua própria experiência e a preparar o posterior diálogo comunitário.

Oxalá o dia de retiro seja uma ocasião para dares graças a Deus e a Maria pelo dom da vocação recebida, bem como para encontrares novos estímulos e reforçares a tua  fidelidade.

 

 

Rectângulo arredondado: IV. Perguntas para a reflexão pessoal
e Diálogo Comunitário
 

 

 

 1.                  O Capítulo Geral de 1979 afirmou que “ser claretianos é, para nós, a forma concreta de sermos homens, cristãos, religiosos, sacerdotes e apóstolos” (MCH, 132). Tenho vivido a minha vida missionária a partir desta chave? O que é que me tem ajudado mais a alimentar a minha identidade claretiana ao longo dos anos? Onde tenho encontrado mais dificuldades?

2.                  Sinto que a minha vida e ministério fazem parte de uma comunidade missionária? Como experimento e exprimo em gestos concretos a minha pertença à Congregação? Estou disposto a assumir as exigências que a mesma implica?

3.                  De que maneira o contexto social e eclesial em que vivo afecta a minha identidade claretiana (modo de compreender e viver os votos, a oração, a vida comunitária, o compromisso missionário, etc.)?

4.                  Que sonhos acalento para o futuro da Congregação? Como julgo que deveríamos responder às necessidades das pessoas e dos povos a partir do nosso carisma?

  

Rectângulo arredondado: V. PERGUNTAS PARA A REUNIÃO COMUNITÁRIA EM ORDEM A ELABORAR PROPOSTAS
PARA O CAPÍTULO

  

 

 


 

 

1.                  Tendo em conta as experiências vividas por cada um de nós, os problemas de identidade que temos de encarar como Congregação e, sobretudo, as fontes da nossa espiritualidade missionária, o que é que nos pode ajudar mais a alimentar a nossa vocação claretiana nos dias de hoje?

2.                  Que elementos da vida comunitária importa sublinhar hoje para que as nossas comunidades sejam verdadeiramente claretianas? Que modelos de comunidade poderíamos pôr em prática para que, salvaguardando sempre os elementos essenciais, respondamos melhor às diferentes tarefas missionárias e à especificidade dos contextos em que vivemos?

3.                  Partindo da realidade formativa actual, que traços da identidade claretiana deveríamos salientar mais, quer nos processos de formação inicial quer nos da formação permanente?

4.                  Que novas propostas pastorais nos podem ajudar a responder mais criativamente, a partir das nossas opções missionárias, às necessidades e desafios que observamos nos diferentes contextos?

5.                  Como prosseguir de maneira mais eficaz os processos de reorganização da Congregação? Como incrementar a comunicação de bens em ordem a atender melhor as necessidades missionárias da Congregação?

  

Rectângulo arredondado: ÍNDICE

  

 

 
 

I.          Carta de anúncio do Capítulo Geral

II.        Calendário de preparação

III.      Meditação

IV.      Perguntas para a reflexão pessoal e diálogo comunitário

V.        Perguntas para a reunião comunitária em ordem

a elaborar propostas para o Capítulo

 

 

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