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Queridos irmãos:
1.
Os ecos da celebração do Bicentenário do nascimento do Padre Fundador vão
chegando até nós em línguas e expressões culturais muito variadas.
Verifica-se, no entanto, uma profunda sintonia em torno dum património comum
que pretendemos seguir, colocando-o ao serviço da Igreja e da humanidade.
Reconheceria hoje Claret, na Congregação, a encarnação do seu sonho
missionário? Esta pergunta acompanha-nos, de modo especial, neste tempo
jubilar em que comemoramos o segundo centenário do seu nascimento. Sabemos
que o Padre Fundador teria de se contextualizar social, cultural e
eclesialmente. Olharia e observaria a nossa maneira de viver e evangelizar.
Que lindo seria se aquele desejo poderoso de que Deus fosse conhecido,
amado, servido e louvado que dinamizou a sua vida, o pudesse perceber em
nós, como motivação permanente das nossas vidas, comunidades e projectos
missionários! A celebração do Bicentenário tem-nos levado a uma consciência
mais profunda e dinâmica de nossa identidade e da necessidade de a vivermos
e expressarmos de maneira nova, para que não morra, antes permaneça viva e
portadora de vida para muitos.
2.
Há dois meses, no Brasil, estavam reunidos com o Governo Geral os Superiores
Maiores da Congregação. Que tema deve polarizar a atenção do próximo
Capítulo Geral? Que rumo devemos traçar para promover a participação activa
de todos os claretianos no discernimento capitular? Estas duas perguntas
orientaram a nossa reflexão durante aqueles dias. Através de um diálogo
intenso, demo-nos conta de que o Capítulo deveria ter como ponto central o
tema da “Identidade Claretiana”. Não por sentirmos a necessidade de fazer um
exercício teórico de definição da mesma; o caminho percorrido pela renovação
congregacional deixou-nos um corpo doutrinal sólido e profundo. A urgência
do tema surgia da imperiosa necessidade de aprofundar e interiorizar as
características fundamentais da identidade claretiana e de buscar um novo
modo de a expressarmos hoje num contexto social, eclesial e cultural bem
diferente de há muitos anos. A partir desta perspectiva e com este objectivo
vamos empreender o caminho capitular.
3.
Neste caminho capitular convido-vos todos a participar, através desta carta
em que vos anuncio
oficialmente a celebração do XXIV Capítulo Geral,
que acontecerá durante o mês de Agosto de 2009.
A. UM TEMA PARA O
CAPÍTULO
4.
O
Governo Geral, acolhendo as sugestões do Encontro com os Superiores Maiores,
decidiu enunciar da seguinte maneira o tema que vai centralizar a reflexão
no nosso itinerário até ao Capítulo:
“CHAMADOS A EVANGELIZAR: COMO VIVER HOJE A NOSSA VOCAÇÃO MISSIONÁRIA”.
Para nós, falar em identidade é situar-nos em chave missionária: somos
missionários. O número 26 do Directório di-lo de maneira clara e muito bela:
“A Palavra ‘missionário’, entendida a partir da experiência espiritual de
Santo António Maria Claret, define a nossa identidade carismática. O título
‘Missionário Apostólico’, que ele recebeu, sintetiza o seu ideal de viver ao
estilo dos Apóstolos. Esta maneira de viver implica ser discípulo e seguir o
Mestre, viver os Conselhos Evangélicos em comunidade de vida com Jesus e com
o grupo dos chamados, ser enviado e anunciar a Boa Nova do Reino ao mundo
inteiro. A unção do Espírito para anunciar o Evangelho, e a comunhão com
Cristo, o Profeta por excelência, faz-nos participantes da função profética.
5.
O enunciado do tema que será reflectido e partilhado nesta etapa capitular
quer salientar três aspectos importantes. Fomos “chamados”: a vocação é um
dom que deve ser acolhido e a que temos de dar resposta; exige um estilo de
vida que, no nosso caso, é uma vida consagrada e partilhada com os irmãos na
comunidade. Fomos chamados para “evangelizar”: este é o objectivo do
chamamento; o Senhor quer-nos missionários, envia-nos. Esta vocação, importa
vivê-la “hoje”. Há que renovar a nossa adesão a este projecto de vida,
conscientes das motivações e das dificuldades que encontramos no momento
histórico e no ambiente cultural em que nos toca viver, desejosos de sermos
sal que dá sabor evangélico e luz que indica o horizonte do Reino no mundo
de hoje.
6.
É-nos concedida, uma nova oportunidade para partilharmos a maneira como
vivemos esta identidade: a percepção do mundo a que a vivência desta
identidade nos conduz; as exigências que projecta sobre a nossa vida; os
sonhos de futuro que em nós desperta; os vínculos que cria entre aqueles que
partilham o mesmo chamamento e lhe desejam responder; os medos que uma vida
de radical fidelidade provoca em nós; a nossa abertura a Deus, aos irmãos e
ao mundo. Seriam tantas as perguntas! Será maravilhoso e inspirador poder
partilhar estas vivências e estes sonhos. Este o primeiro passo necessário
para podermos formular os contributos e propostas que irão enriquecer a
reflexão capitular e constituir a base das decisões que o Capítulo deverá
tomar para os próximos anos da vida congregacional. Sim, as nossas propostas
têm de nascer da vida; mas de uma vida aberta a Deus, ao partilharmos com os
irmãos a nossa opção de viver “para que todos tenham vida”; em resumo, de
uma vida consagrada inteiramente ao serviço do Reino no seguimento de Jesus.
7.
Iniciamos, pois, o caminho rumo ao Capítulo. Permitam que chame a atenção
para duas referências fundamentais no começo do nosso itinerário capitular:
as Constituições e a realidade. Partilhei esta reflexão com os
Superiores Maiores reunidos no Brasil. Quero-a propor a todos, porque me
parece importante não perdermos de vista estes dois pontos que devem guiar
as nossas reflexões e orientar as nossas propostas.
B. O QUE NOS DIZEM AS
CONSTITUIÇÕES SOBRE O CAPÍTULO GERAL
8.
As Constituições dão-nos algumas indicações precisas sobre a natureza e os
objectivos do Capítulo (cf. CC 153-155). Tais indicações devem ser o nosso
ponto de partida. Antes de começardes os vossos trabalhos, seria bom reler
estes números das Constituições.
9.
As Constituições dizem-nos, antes de mais, que o Capítulo está ao serviço
do carisma. Acredito que se trata de uma observação óbvia, mas de suma
importância. É uma afirmação que nos situa numa perspectiva de fé:
convida-nos a entrar num atento diálogo com o Senhor que nos chamou e que
nos continua a chamar através de múltiplas mediações. A referência à Palavra
de Deus que nos convoca; a memória do Fundador que foi instrumento da
Providência para dar corpo a este carisma com que Deus quis agraciar a
Igreja; o caminho que a Congregação tem feito ao relê-lo no decorrer da sua
história, são aspectos fundamentais a ter em conta. Manter o carisma vivo,
procurar que permaneça fonte de vida para aqueles que o receberam e ver como
pode continuar a fecundar a vida da Igreja e a prestar um serviço relevante
à humanidade, eis as funções próprias dum Capítulo. A nossa razão de ser na
Igreja e no mundo reside, precisamente, neste carisma. Ao seu serviço, pois,
se deve situar o Capítulo Geral.
10.
As Constituições definem o Capítulo Geral como “expressão
da comunhão de vida e de
missão de todo o Instituto”. A nossa Congregação nasceu como
comunidade missionária. Só permanecerá fiel à inspiração original na medida
em que continuar a ser “comunidade missionária”. O Capítulo deve saber
expressar e promover esta comunhão que nos faz sentir a todos irmãos, e
consolidar ao mesmo tempo seu carácter missionário. Precisamos de saber
escutar-nos mutuamente; de nos deixarmos questionar pelas preocupações e
propostas que nascerem das diferentes comunidades claretianas ao calor da
vida partilhada com o povo; de nos ajudarmos mutuamente a ler estas
situações em chave missionária e a buscar uma resposta que, no respeito pela
diversidade, seja fiel ao carisma claretiano. A nossa comunidade tem-se
enriquecido, nos últimos tempos, com a presença de irmãos de contextos
culturais diversificados. Construir a comunhão é uma tarefa apaixonante, mas
supõe uma verdadeira ascese por parte de cada um. O grande desafio que temos
de enfrentar, durante esses dias, é o de traçar rumos que nos ajudem a
consolidar a comunhão e a definir melhor as chaves que podem garantir a
fidelidade dos nossos projectos pastorais e actividades ao carisma
missionário claretiano.
11.
Dizem-nos também as Constituições que o Capítulo é um momento
muito importante de avaliação da vida da Congregação.
Trata-se de ver como estamos a assumir o projecto de vida missionária,
proposto nas Constituições, e a expressá-lo na espiritualidade, nas relações
comunitárias, nos programas formativos, nas iniciativas pastorais, nas
estruturas de Governo e no funcionamento de economia. Teremos ainda que
lançar mão do discernimento que fizemos há seis anos sobre a nossa vida e
missão no contexto do novo milénio, então recém-começado, e ver até que
ponto fomos capazes de efectivar as prioridades que tomámos. Traduzimos tudo
isso no documento “Para que tenham vida”, guia das nossas programações
durante estes anos. Não podemos esquecer essas duas referências
fundamentais, se quisermos continuar a crescer carismaticamente.
12.
As Constituiçõs recordam-nos igualmente que “o Capítulo aplica à
Congregação a doutrina da Igreja sobre
a Vida Religiosa e o apostolado”.
Em
comunhão com a Igreja vivemos o nosso carisma e, através dele, queremos
enriquecer o seu património espiritual e dinamizar a sua projecção
missionária. A consciência da comunhão eclesial não pode deixar de nos
acompanhar na reflexão destes dias. Importa escutar a voz da Igreja
Universal e das Igrejas Particulares e estar muito atentos aos novos
horizontes que temos pela frente. A adesão cordial à Igreja foi uma das
características do nosso Fundador, como nos recordava o Papa na sua mensagem
à Congregação a propósito do Bicentenário. Sabemos que a Vida Consagrada tem
uma missão profética dentro da Igreja e que ser fiel a ela constitui uma
exigência da vocação recebida. A comunhão eclesial constrói-se com o esforço
e a colaboração de todos e constitui um sinal da presença do Senhor que
acompanha o caminhar da humanidade.
13.
O Capítulo – prosseguem as Constituições - “exerce uma função magisterial
em relação ao património espiritual da Congregação”. Cabe-lhe reler o
carisma nos novos contextos históricos e culturais e “promulgar os
decretos e disposições” que forem julgados necessários para manter o
vigor da vida missionária. Só a partir dum profundo conhecimento
da nossa tradição seremos capazes de lhe dar novas expressões, de modo a
tornar a nossa presença e o nosso trabalho pastorais verdadeiramente
relevantes para a Igreja e para o mundo de hoje. A celebração do Capítulo
Geral deve-nos ajudar a reforçar o sentido de pertença à comunidade
congregacional e a tomar renovada consciência da sua história e do seu
esforço por ser fiel ao carisma recebido, nos diversos tempos e lugares. O
caminho pré-capitular impele-nos a buscar a maneira de exprimir, hoje, um
carisma que, para manter a sua vitalidade, precisa de saber dialogar com as
situações concretas da humanidade em cada momento histórico.
14.
Finalmente, o Capítulo elege o “Superior Geral e seus Consultores”, a
fim de confirmarem os seus irmãos na vocação e animarem a Congregação a
trilhar os rumos apontados. Importa ter presente estas indicações, quando
avançarmos no diálogo sobre o tema do próximo Capítulo Geral.
C. O CONTEXTO DO
CAPÍTULO
15.
Um segundo aspecto que desejo sublinhar é o do contexto em que o Capítulo
Geral se realiza. Celebra-se num momento histórico particular, a que não
somos indiferentes. A situação do mundo, a hora eclesial que estamos a
viver, os desafios que hoje se levantam à Congregação, interpelam-nos e
reclamam um esforço sério de reflexão. Só a partir daí poderemos situar a
nossa vida e missão dentro da história da salvação. As Constituições, ao
definirem a nossa missão na Igreja, recordam-nos as palavras da “Gaudium et
Spes”: “partilhando as esperanças e as alegrias, as tristezas e as angústias
das pessoas, sobretudo dos pobres, procuramos dar a nossa colaboração a
todos os que se empenham na transformação do mundo conforme o desígnio de
Deus” (CC 46). Esta inserção na história faz parte da nossa missão e é o que
a torna verdadeiramente relevante. Pede-nos, pois, uma especial atenção ao
momento histórico em que vivemos. Esta observação pretende ir mais além da
simples constatação de factos ou da mera análise social. Colocados perante
determinada situação humana, desafiados somos a olhar com mais atenção para
aqueles que sofrem e a nos deixarmos questionar profundamente. No documento
do último Capítulo Geral falou-se da necessidade de “nos deixarmos tocar”
pelos pobres (cf. PTV 67,1). As perguntas que daí brotam devem inquietar-nos
de tal modo que não possamos deixar de agir, de buscar resposta para os
gritos que nos chegam com força ao coração. O ministério profético surge
sempre de uma profunda comunhão com Deus e com a situação do povo. Aceno
apenas a alguns aspectos incontornáveis na reflexão sobre os três pontos de
referência que definem a nossa realidade.
a. A situação do mundo
16. Toda
a gente concorda em dizer que a globalização define o momento histórico
actual. Embora possa abrir imensas possibilidades à solidariedade e à
construção de um mundo mais humano, constatamos, tristemente, que se está a
converter numa estrutura ao serviço dos interesses dos que detêm o poder e
querem impô-lo globalmente. O sofrimento e a exclusão produzidos têm, para
nós, nomes concretos de pessoas e de povos, que vêem esmagados os seus
direitos, a sua dignidade, o respeito pela sua cultura, a sua língua, o seu
ambiente, enfim, a sua vida. Vivemos e desenvolvemos o nosso ministério no
meio dessas pessoas e povos. Daí algumas interpelações: que globalização se
reflecte na nossa maneira de viver e de pensar? Ao serviço de que tipo de
globalização estão as nossas estruturas pastorais? Como nos vêem e nos
sentem as vítimas da globalização neoliberal que pesa sobre elas, como uma
cruz que as faz cair sem nenhuma perspectiva de se poderem levantar?
Pensamos nos refugiados, nos povos indígenas marginalizados, nos emigrantes
forçados a abandonar os seus países para poderem sobreviver; ou no crescente
número de meninos de rua, nas imensas massas humanas que vegetam nas
periferias das grandes concentrações urbanas e num infindo etc. que, entre
todos, poderíamos completar. O doloroso grito da África ressoa com
particular intensidade num mundo que prefere olhar para outros horizontes.
17.
Neste mundo globalizado parece que todos se sentem de algum modo ameaçados.
Vemos como crescem os fundamentalismos que, muitas vezes, se exprimem
através de acções violentas. Parece que a solução não consiste em escutar e
acolher o outro, mas em suprimi-lo ou em impor-lhe a própria visão da
realidade. No último Capítulo Geral dissemos que a nossa evangelização tinha
de se realizar em chave de diálogo: intercultural, inter-religioso e
ecuménico. Como nos colocamos ao serviço do diálogo? Como integrar as
exigências deste diálogo no nosso estilo de vida? Enquanto servidores da
Palavra, somos servidores do diálogo de Deus com a humanidade. Que significa
isso, em concreto, para cada um de nós e para as nossas comunidades?
18.
Falamos de uma cultura “light”. Parece que os nossos contemporâneos estão
cada vez menos preocupados com as perguntas fundamentais presentes no
coração de cada ser humano. Por isso, anunciar o Evangelho nestas condições
torna-se cada dia mais difícil. A nossa própria fé sente-se questionada. Em
muitos lugares do opulento primeiro mundo, a nossa presença afigura-se quase
supérflua. Noutros, convertemo-nos, por vezes, em gestores de projectos que,
se melhoram certamente as condições de vida de muitas pessoas, revelam-se,
com frequência, incapazes de abrir as suas existências à Palavra e de
imprimir novos rumos à história dos seus povos. Que nos diz tudo isto? Como
lemos as perguntas que brotam de esta realidade?
19.
Vivemos na era das comunicações, mas cresce, simultaneamente, o número de
pessoas que sofrem terríveis experiências de solidão. Até que ponto nos
sentimos chamados a partilhar o tempo e a amizade com essas pessoas? Como
podemos ser, para elas, fonte de consolação, sinal da presença do Pai? Por
outra parte, todo o tipo de mensagens chega a milhões de pessoas, cada dia,
através da internet. Para nós, servidores da Palavra, a nova sociedade da
informação constitui um grande desafio. Que palavras queremos partilhar com
aqueles que se alimentam, principalmente, de palavras e imagens que aparecem
na rede, palavras e imagens que, muitas vezes, não semeiam esperança nem
comunicam verdadeiros valores humanos?
20.
No nosso viver quotidiano, deparamos também com sinais que nos revelam a
presença de Deus no mundo. São cada vez mais numerosas, por exemplo, as
pessoas e os grupos que lutam por um mundo alternativo e que sabem orientar
a sua vida a partir de valores capazes de saciar as necessidades de amor e
de verdade que se aninham no coração de cada ser humano. Sentimo-nos
próximos de essas pessoas e identificados com muitos dos seus projectos?
Sabemos acolher o apelo do Senhor que nos chega por meio das suas propostas
e do seu testemunho? Como se explica, então, a resistência de alguns
claretianos a colaborar mais activamente nestas iniciativas? Não poderíamos,
antes, dar-lhes uma profundidade nova, à luz da Palavra de Deus?
21.
O actual momento histórico está cheio de sinais de esperança. Para citar
somente alguns: cresce a consciência ecológica e não diminui o esforço de
muitas nações para estabelecer regras que garantam às gerações futuras uma
natureza plena de vida. Recentemente, as Nações Unidas aprovaram uma
moratória sobre a pena de morte, o que nos faz esperar o fortalecimento duma
crescente consciência da dignidade da pessoa. A luta por esta dignidade da
pessoa e seus direitos fundamentais suscita grandes movimentos de
solidariedade, como o atestam os acontecimentos de Myanmar e do Tibete.
22.
Saibamos olhar o mundo, para podermos discernir o apelo de Deus neste tempo
histórico. É grato verificar que se fazem comoventes gestos concretos de
humanidade, descobrir a procura da verdade nas sugestões de muitos
pensadores, ver reflectida a beleza de Deus nas expressões de tantos
artistas. Convidados nos sentimos a dedicar mais energia àqueles que têm
sede de aproximação e de carinho; através desta relação, abrimo-nos à
experiência do amor do Pai. Sim, o Capítulo deve expressar hoje o nosso
carisma, e o primeiro passo é tomar consciência do hoje que vivemos. Não
saltemos este passo importante.
b. O momento eclesial
23.
A Igreja, após a celebração do jubileu do ano 2000, entrou no terceiro
Milénio com um projecto pastoral apresentado pelo Papa João Paulo II na
Carta Apostólica “Novo Milenio
Ineunte”.
O jubileu foi um momento intenso de vida eclesial, acompanhado de símbolos
de profundo significado: o pedido de perdão; os gestos de reconciliação; a
memória da Igreja mártir; as diversas celebrações que sublinharam a
fraternidade em torno de Jesus e a esperança gerada pelo abrir do coração à
sua mensagem e pessoa; a denúncia das injustiças que destroem o projecto de
Deus para os seus filhos (recordemos a revindicação do cancelamento da
dívida externa dos países pobres); o compromisso com o diálogo
inter-religioso e ecuménico, que estabelece bases mais sólidas nos esforços
pela paz e pela harmonia entre os povos. Todos nós recordamos a celebração
do jubileu nas nossas próprias Igrejas. Já não passa de uma recordação ou
ainda continua a ser fonte de vigor espiritual e dinamismo evangelizador?
24.
A partir da experiência de um intenso encontro com Cristo, foi-nos proposta
de novo, nessa altura, a vocação à santidade como um desafio para o cristão
do terceiro milénio. Nessa linha, fomos convidados a desenvolver uma
espiritualidade solidamente fundada na escuta da Palavra e na vivência do
mistério eucarístico e cultivada por meio da oração e da vida sacramental.
Fazia-se um forte apelo ao anúncio audacioso da Palavra, sempre com uma
atitude de diálogo, buscando novas linguagens em sintonia com a vida do ser
humano de hoje. Foi-nos pedido que déssemos prioridade ao testemunho da
caridade, o que, no âmbito da vida interna da Igreja, supõe um profundo
compromisso de comunhão eclesial: aí se acolhem e relacionam entre si as
diversas formas de vida cristã, bem como os diferentes carismas que permitem
à Igreja crescer na vivência do mistério de Cristo e no cumprimento eficaz
da sua missão. Na esfera da projecção missionária da Igreja, o testemunho da
caridade exigia um compromisso claro pela paz, pela justiça e por respostas
concretas às situações de pobreza e exclusão, infelizmente tão abundantes no
mundo de hoje. O Papa, finalmente, apontava os novos areópagos, que reclamam
criatividade e audácia por parte da Igreja.
25.
A ressonância que a morte do Papa João Paulo II teve no mundo inteiro
fez-nos adquirir uma renovada consciência de que a Igreja continua a ser um
ponto de referência e de que o Evangelho de Jesus, quando proclamado com
respeito e convicção, e testemunhado com radicalidade, acaba sempre por
tocar o coração humano.
26. Bento
XVI orienta-nos para os aspectos fundamentais do mistério cristão e
convida-nos a encontrar caminhos que abrem espaço ao Evangelho na nossa
sociedade. A experiência do Mistério do amor de Deus revelado em Jesus é
testemunhada pela comunidade dos seus discípulos, abre o coração à esperança
e cria pessoas capazes de contribuir para que a realidade actual se torne “o
novo céu e a nova terra” prometidos pelo Senhor. Jesus acompanha-nos e
leva-nos a uma experiência de Deus que enche o coração e transforma a vida.
27. As
Igrejas de cada Continente continuam a acompanhar o seu povo, a escutar os
seus clamores e a fortalecer as suas esperanças. Viver hoje como comunidade
de discípulos de Jesus ao serviço da vida desses povos é o núcleo principal
do planeamento pastoral que a Igreja da América Latina fez na Assembleia da
Aparecida. Poderíamos citar, igualmente as orientações de outras Igrejas
continentais. No ano 2009 realizar-se-á o Sínodo Africano, que vai continuar
a orientar o caminho da Igreja desse Continente.
28.
Insisto nestes pontos, porque me parece que o discernimento capitular tem de
se inserir neste caminho eclesial e de definir a nossa colaboração na
realização deste projecto. Há decerto, na Igreja, sinais de involução; algumas
pessoas, a partir de uma compreensão errónea da missão, parecem mais
preocupadas em manter espaços de prestígio e de poder do que em colocar-se,
gratuitamente, ao serviço do anúncio do Evangelho. Não é também menos certo
que, muitas vezes, se pretende eliminar o carisma da vida consagrada ou dos
diversos Institutos, em função de uma disciplina que não ajuda, seguramente,
o crescimento harmonioso da comunidade eclesial nem o desenvolvimento
dinâmico da sua missão. Tudo isto é verdade e, por isso, importa fazer um
exame crítico,
ainda que cheio de amor e respeito, da situação eclesial.
Amamos profundamente a Igreja e nela queremos
ser,
como o nosso Fundador, instrumentos de renovação e dinamismo missionário.
Como servidores da Palavra, sentimo-nos especialmente chamados a viver, com
particular intensidade, o Sínodo sobre “a Palavra de Deus na vida e missão
da Igreja” que Bento XVI convocou para o próximo mês de Outubro.
c.
A Congregação hoje
29.
A situação do nosso Instituto é um terceiro ponto de referência. Temo-lo
repetido muitas vezes: a geografia humana da Congregação está a mudar e tem
as suas consequências. Reporto-me ao que vos dizia na circular “Testemunhos
e Mensageiros de Deus da vida”. Durante o Capítulo examinaremos, calmamente,
como estamos a assumir esta mudança e com que
estratégias lhe vamos dando resposta.
30.
Neste momento gostaria de frisar unicamente a implicação que isto pode ter
no processo de discernimento capitular.
As
frentes apostólicas da Congregação têm-se multiplicado e, por
isso, multiplicaram-se também as actividades pastorais. Tudo isto pode
enriquecer o património missionário do Instituto, respondendo à palavra de
ordem que nos deu o Fundador de “nos valermos de todos os meios possíveis”
para o anúncio do Evangelho. Tenho a impressão de que esta multiplicação de
iniciativas apostólicas se faz, por vezes, sem suficiente discernimento e
sem reflexão séria e profunda sobre as exigências do carisma que recebemos e
que deve caracterizar o nosso contributo para a missão eclesial. Não receio
a
diversidade, antes a considero uma riqueza. Mas preocupa-me a dispersão que
dilui a identidade e não ajuda a garantir o carácter verdadeiramente
missionário das nossas actividades. Temos de aprender a integrar solidamente
o sentido de intuição, disponibilidade e catolicidade que as Constituições
nos pedem (cf. CC 48).
31.
A Congregação tem feito um grande esforço, no processo de renovação
pós-conciliar, para definir as grandes linhas que devem nortear a vida
missionária. Há quase trinta anos, no Capítulo de 1979, pude contemplar, no
novo texto das Constituições, o fruto da reflexão pós-conciliar em torno do
projecto de vida missionária claretiana. O mesmo Capítulo, através de “A
missão do claretiano hoje”, soube expressar, naquele particular momento
histórico, as opções missionárias que deveriam configurar a vida das
comunidades e a projecção evangelizadora do Instituto. Aquele documento
constituiu, sem dúvida, um instrumento muito importante de discernimento
sobre as novas presenças missionárias que se criaram, a revisão de posições
apostólicas e a definição dos projectos pastorais das Províncias, das
Delegações e de cada actividade. Os Capítulos posteriores salientaram os
aspectos que merecem atenção especial em cada momento, aprofundando e
explicitando a riqueza carismática contida nas opções tomadas.
32.
É hora de nos perguntarmos: que opções e projectos deveriam caracterizar a
resposta missionária claretiana na nova situação do mundo e da
Igreja?
Não podemos fazer tudo nem tudo é válido, à luz da nossa identidade
missionária. Os projectos missionários de alguns Organismos, mais do que
propor linhas inspiradoras da
acção apostólica e das estruturas mais adequadas para uma evangelização
verdadeiramente profética, limitam-se a oferecer um elenco das actividades
que se vão realizando e que nasceram, por vezes, sem o devido processo de
discernimento no âmago da comunidade e do Organismo. Torna-se difícil
priorizar a
atribuição
de
pessoal e de recursos económicos, quando não existe um quadro de referência
claro em relação às opções e prioridades apostólicas. É mais difícil a
pastoral vocacional quando não existe clareza em torno da identidade e da
maneira de a traduzir. Que significa hoje, para nós, ser “servidores da
Palavra”, de uma palavra
profética? Como exprimir esta identidade no actual momento
histórico e nos diversos contextos onde estamos
presentes? O que é que este carisma nos leva a preferir e para
onde exige que
orientemos o olhar? A partir da preparação do Capítulo,
importa buscar resposta a estas perguntas.
33.
Um Capítulo Geral tem de evitar, certamente, meras declarações genéricas,
que dificilmente incidem na vida das pessoas e das
comunidades. Mas tem de evitar, igualmente, cair na tentação de querer dar
respostas a problemas pontuais
que se devem resolver
noutras instâncias de governo. O Capítulo precisa de encontrar uma linguagem
que lhe permita falar ao coração de cada membro do Instituto e formular
orientações capazes de se traduzirem em projectos e iniciativas
missionárias. As decisões concretas que o próprio Capítulo Geral, os
Capítulos Provinciais e Assembleias ou Governos, nos seus diferentes níveis
de competência, deverão tomar, precisam de um quadro de referência que
assegure a sua fidelidade carismática. Esperamos que a activa participação
de todos no processo de reflexão pré-capitular nos ajude a encontrar a
palavra oportuna que a Congregação necessita neste momento.
D. UMA PROPOSTA
CONCRETA DE TRABALHO
34.
Para percorrer o caminho que nos leva ao XXIV Capítulo Geral, faremos uma
proposta concreta de trabalho. No encontro do Governo Geral com os
Superiores Maiores insistiu-se, repetidamente, na necessidade de fazermos
aflorar a experiência pessoal de cada claretiano e de a partilharmos na
Comunidade. Aí começa a nossa busca. A partir daí, animados e questionados
pela palavra que brota da vida de cada irmão, elaboraremos propostas que
facilitem o discernimento capitular.
35.
Concretamente, propomos que se organize um ou dois dias de retiro - os que
forem precisos - nas vossas comunidades, sobre o tema capitular,
centrando-se na experiência de cada um em relação à vivência de sua vocação
missionária claretiana e às interrogações que vos ocorrem neste momento
concreto da história. Oferecemos, para isso, uma meditação e umas perguntas
que facilitem a reflexão pessoal e a partilha comunitária.
36.
Avancem, depois, para um segundo momento: a elaboração de algumas propostas
ou sugestões que ajudem o Capítulo a reflectir sobre o tema proposto e a
formular as orientações de que a Congregação precisa para continuar a
crescer na sua vida missionária ao longo dos próximos anos. Poderão fazê-lo
dedicando, para isso, algumas reuniões comunitárias durante os meses
indicados no calendário capitular. Estas propostas, convenientemente
redigidas, devem ser enviadas ao Governo Provincial, que as fará chegar à
Secretaria Geral. Oferecemos, igualmente, um breve questionário para
facilitar a elaboração das ditas propostas.
37.
Estimulo-vos a participar activamente neste itinerário
capitular. É um momento importante para a vida da Congregação e para cada um
de nós.
Dispomos, pois, de nova oportunidade para aprofundarmos a
vivência do dom com que o Senhor nos agraciou, e também para crescermos na
comunhão fraterna e fortalecermos a projecção apostólica. Não desperdicemos
esta ocasião!
38.
A presença de Maria acompanhar-nos-á na caminhada. Como ela, procuraremos
conservar e meditar no coração as palavras que nos chegam da experiência dos
irmãos, o grito dos que esperam o anúncio do Evangelho,
o convite do Senhor a darmos prioridade ao Reino, confiando inteiramente na
sua Providência. Neste itinerário de discernimento capitular, deve-nos
iluminar a experiência de Maria na Anunciação. Que ela desperte em nós um
“Sim” que rasgue novos horizontes de esperança para a nossa vida e nos faça
instrumentos capazes de os rasgarmos também para o caminhar da humanidade.
39.
Neste ano do Bicentenário, começamos o nosso itinerário capitular com a
esperança de que a memória do Padre Fundador suscite em nós o desejo de
encarnar o ideal da vida missionária; esse ideal que ele exprimiu, de forma
cintilante, na “definição do missionário claretiano”.
Roma, 19 de Março de 2008

Ano 2008
19 de
Março Carta de anúncio do Capítulo Geral
Maio Envio do questionário e materiais
Setembro Nomeação da Comissão pré-capitular
15 de
Setembro Envio do guião das Memórias
24 de
Outubro Início do período de eleição de Delegados
Ano 2009
31 de
Janeiro Fim do período de eleição de Delegados
1-9 de
Fevereiro Designação de capitulares nomeados pelo Governo Geral
11 de
Fevereiro Convocatória do Capítulo Geral
1 de
Março Envio das memórias dos Organismos e dos contributos sobre o
tema capitular à Secretaria Geral
15-22 de
Abril Reunião da Comissão pré-capitular
10 de
Maio Envio do instrumentum laboris
do
Capítulo aos capitulares e às comunidades
20 de
Maio Conselhos para a aprovação das Memórias do Governo Geral
Querido
irmão:
Estamos
a iniciar a preparação do próximo Capítulo Geral, que se celebrará em Agosto
de 2009. Neste mesmo folheto podes ler, se já o não fizeste, a carta de
anúncio que o P. Geral enviou a toda a Congregação. Começará, também, de
imediato, o período de eleição dos delegados e a elaboração das Memórias.
Perante esta sucessão de acontecimentos, podes sentir-te um pouco
constrangido: Outro Capítulo Geral? Outro questionário? Mais reuniões? Para
que serve tudo isso?
O Capítulo diz-me respeito
Talvez
penses que se trata de um assunto respeitante apenas aos provinciais e
delegados, um assunto que, no fundo, tem pouco a ver contigo. A verdade é
que cada novo Capítulo traz consequências para a vida de toda a Congregação,
para ti também, mesmo que nem sempre tenhas consciência disso. Lembras-te,
por exemplo, de qual foi a primeira prioridade do Capítulo de 2003? Foi a
reorganização congregacional! Nestes anos foram criados seis novos
organismos maiores: Indonésia-Timor Leste (2005), África Central (2005),
Santiago (2007), Northeast Índia (2007), West Nigeria (2007), Brasil (2008).
Muitos claretianos sentiram directamente as suas implicações. O envio de
missionários e estudantes para outros organismos diferentes dos seus
afectou também o ritmo vital de muitas comunidades. Isto é apenas um exemplo
de como as decisões capitulares influenciam mais do que, à primeira vista,
parece. Podemos vencer as tentações de cepticismo e de preguiça se, desde o
princípio, compreendermos que o Capítulo também é assunto nosso e fizermos
um esforço por nos empenharmos o mais possível na vida da Congregação.
Às voltas com a identidade
É normal
que o que diz respeito a todos seja discernido, também, por todos. O próximo
Capítulo Geral propõe-se abordar particularmente o tema da nossa identidade
claretiana no contexto actual. Como refere o P. Geral na carta de anúncio, o
título proposto para o tema capitular é “Chamados a evangelizar. Como viver
a nossa vocação missionária hoje”. É um eco do lema que nos tem acompanhado
durante o Bicentenário do nascimento do Fundador: “Nascido para
evangelizar”. Nessa mesma carta, o P. Geral explica as razões que levaram o
Governo Geral a escolher este tema, depois de consultar todos os
superiores maiores da Congregação, no encontro realizado no Brasil. Por que
motivo abordar agora a questão da identidade? Não foi suficientemente
esclarecida ao longo dos últimos quarenta anos? Não estaremos preocupados de
mais com as nossas coisas, alheios às verdadeiras perguntas e necessidades
das pessoas?
A
Congregação percorreu, sem dúvida, um longo caminho de esclarecimento, mas
precisamos fazê-lo nosso. Os processos colectivos de “recepção” requerem
tempo e, sobretudo, esforço e perseverança. Por outro lado, nas últimas
décadas têm-se produzido notáveis mudanças no mundo, na Igreja e na própria
Congregação, mudanças que afectam a nossa maneira de entender e viver a
vocação missionária e que exigem de nós uma nova resposta. É provável que,
numa sociedade como a nossa, caracterizada, entre outras coisas, pelo
fenómeno da pluripertença, tenhas perguntado mais de uma vez: Em que
consiste ser claretiano? Está ao mesmo nível de ser professor num colégio ou
responsável por uma actividade pastoral? Qual é o meu verdadeiro rosto
dentro da ampla rede de relações que caracteriza a minha vida? Em que me
diferencio de outras formas de vida cristã?
A identidade não é uma fórmula, mas sim uma
experiência
Pois
bem, reflectir sobre a identidade não significa buscar fórmulas feitas: “Já
passou o tempo de procurar fórmulas que nos definam e pelas quais nos
identifiquemos” (MCH 131). O Capítulo de 1979 situou-nos na
perspectiva correcta: “Recuperar a própria identidade claretiana, criar uma
verdadeira comunhão de vida e acção apostólica e alcançar a autêntica
disponibilidade para a missão não são coisas que se fazem por decreto,
nem por mera informação, nem mesmo pelo estudo, ainda que
este seja um dado imprescindível. O que é preciso é situarmo-nos de novo no
centro da nossa experiência vocacional” (MCH 128). Esta é a chave:
reviver a experiência vocacional. No título do tema capitular,
faz-se referência à nossa condição de chamados (sinal de que a
vocação é um dom e implica um estilo de vida pessoal e comunitário) e,
também, ao objectivo de nossa missão: evangelizar (que consiste em
comunicar o mistério de Cristo, em diálogo com as pessoas, as culturas e os
povos).
Por esta
razão, o ponto de partida para preparar o Capítulo consiste em tomar
consciência desta experiência que dá sentido ao que somos e partilhá-la com
os irmãos de comunidade. O que nos faz ser claretianos não é o que
imaginamos sobre nós mesmos, mas o dom que o Senhor nos concedeu, o
chamamento a segui-l’O como fez a Santo António Maria Claret. Por meio
deste dom contribuímos para a construção da Igreja e da sociedade.
É
impossível renovar a vida da Congregação, se cada um de nós não renovar a
experiência da sua própria vocação. Precisamos, uma e outra vez, de saber
quem nos chama, com quem devemos partilhar o caminho e a que
missão nos chama.
Decadência ou renovação?
Pertencemos a uma Congregação que tem experimentado diversas
transformações ao longo da sua história, embora hoje se encontre em fases
muito diferentes de evolução conforme as diversas regiões. Na Europa e na
América vivemos tempos de redução numérica e de concentração de organismos.
Na África e na Ásia, pelo contrário, estamos numa fase de crescimento e
expansão. Como interpretar este fenómeno no seu conjunto? Os especialistas
em sociologia da vida religiosa falam de quatro fases na evolução dum
Instituto:
1) A fase
da fundação, que se caracteriza por uma alta intensidade carismática,
escassez de meios, problemas de localização e limitações de pessoal.
2) A fase
da codificação, caracterizada pela expressão e transmissão do carisma
através de uma regra escrita, cuja observância os superiores recomendam com
insistência.
3) A fase
da estabilização institucional, na qual se conquista maior
crescimento numérico, se completa a codificação-interpretação do carisma e
se multiplicam as obras apostólicas. Esta fase de plenitude é acompanhada,
muitas vezes, por uma certa rotina carismática e por uma atitude de
conformismo e aburguesamento.
4) A fase
crítica, na qual a instituição entra num processo imparável de
questionamento e, por vezes, de decadência que pode levar ao desaparecimento
ou, pelo contrário, como reacção, a uma profunda renovação pessoal e
institucional.
É muito
arriscado aplicar esquemas rígidos a uma realidade viva, formada por
pessoas. Contudo, é provável que a nossa Congregação, que na altura do
Capítulo terá completado 160 anos de existência, se situe globalmente entre
a fase terceira e a quarta. Existem muitos indicadores típicos de
estabilização institucional (obras consolidadas, abundante
regulamentação interna, suficientes recursos), mas também algumas crises
(diminuição de pessoal em várias regiões, elevada média de idade, escassez
de vocações, dificuldades na transmissão do carisma, individualismo, etc.).
O fogo que arde dentro
Esta
conjuntura histórica pode ser vivida como um “kairós”, um tempo favorável,
desde que aprendamos a lição de fundo. O mais determinante para o futuro não
é o que acontece “fora” e que não podemos controlar (factores demográficos,
sócio-políticos, económicos, culturais, etc.), mas o que se passa “dentro”
de nós (a força do próprio carisma e a maneira como o vivemos). É um facto
comprovado na história da vida religiosa que, se não se der uma forte
revitalização carismática das pessoas, a decadência dos
Institutos acaba por ser inevitável. De nada servem os programas de futuro,
as estratégias vocacionais ou as reformas organizativas.
A
proximidade dum Capítulo Geral é uma boa ocasião para te perguntares como te
situas neste processo, o que podes fazer para contribuir para uma renovação
cada vez mais profunda da Congregação e, portanto, da nossa missão na Igreja
e no mundo. Não sejas claretiano, simplesmente, para satisfazer alguns
desejos infantis ou para realizar o “teu” projecto de vida. Na origem da tua
vocação, experimentastes que Jesus, te olhou e disse, como aos apóstolos:
“Vem e segue-me”. Ele desfez os teus planos e incorporou-te nos seus. Como
poderias viver com alegria a vida comunitária, o trabalho apostólico, os
teus momentos de sofrimento ou as tuas crises sem recordares este
chamamento, sem o colocares no primeiro plano dos teus interesses e afectos?
Viver e fazer com outros: o desafio da comunidade
Por
outro lado, reviver a própria experiência vocacional não é algo que se
limita à própria pessoa. Significa descobrir que sua vocação é sempre
con-vocação. Jesus continua a chamar a cada um de nós pelo nome, mas nunca
nos envia sozinhos: envia-nos em comunidade. Este foi também o sonho de
Claret: “fazer com outros” o que não podia fazer sozinho. Esta esplêndida
visão desaparece quando nos deixamos vencer pela tentação, hoje muito
frequente, do individualismo, quando colocamos os nossos interesses acima
das necessidades da Igreja a da Congregação. Nenhum de nós aceitou o convite
para ser claretiano simplesmente para fazer uma carreira, para “ser alguém”
na sociedade, mas para colaborar numa missão que vai além dos nossos
projectos pessoais. Estávamos conscientes das renúncias que isto supunha;
mas, também da beleza e da alegria que Deus oferece a quem “sai da sua
terra” (cf Gn 12,1), “vende tudo” (cf Mc 10,21), “deixa
família e bens” (cf Mc 1,18-19).
Como
consagrados, pela profissão, os talentos que recebemos e os que ganhamos com
o nosso esforço, convertemo-los em oferenda ao serviço de Deus e dos mais
necessitados. Reside aqui uma clara diferença em relação à pertença a
qualquer outro tipo de organização. É verdade que, na prática, nem tudo é
perfeito. Tanto na tua Comunidade como na tua Província e na Congregação,
terás encontrado muitos defeitos. Nem sempre as nossas comunidades
correspondem ao que se espera de um grupo entusiasta que “busca o Senhor” ou
ao que necessitamos como seres humanos: liberdade, estímulo, alegria,
perdão. Com frequência, na tentativa de equilibrar os diversos elementos da
nossa vida, a comunidade fica a perder. No entanto, a partir da aceitação
realista e compassiva dessa pobreza começa sempre um caminho de
transformação. Quando aceitamos a própria fragilidade, estamos em condições
de aceitar a fragilidade alheia. Nunca vivemos com as pessoas que
escolhemos, mas com os irmãos que Deus nos dá como presente, estímulo e, por
vezes, também como prova. Em todo o caso, acima de qualquer sentimento
volúvel, somos chamados a tomar cada dia a decisão de amar.
Enviados a evangelizar a todo o mundo
Por
último, o tema capitular tem a ver, também, com o sentido a imprimir hoje à
nossa missão de evangelizadores. Temos reflectido muito sobre os múltiplos
factores que a condicionam e sobre o modo de a entendermos, vivermos e
expressarmos. Mas tudo é em vão se, por trás das reflexões e propostas, não
houver um sujeito que vibra, um discípulo de Jesus que aceita com alegria
“ser enviado”. Como estás a viver esta atitude de disponibilidade? Quando
alguém se prende demasiado ao próprio trabalho, comunidade ou Organismo,
torna-se muito difícil realizar a missão pedida a todo o Instituto. É certo
que o nosso Fundador, à medida que foi amadurecendo, diversificou também os
meios para o anúncio da Palavra. Das missões populares e dos exercícios
espirituais foi-se abrindo ao apostolado de imprensa, à criação de grupos e
associações, às Obras de promoção social, ao ensino, à formação de agentes
de evangelização, etc. Esta enorme variedade, enriquecida posteriormente
pela Congregação ao longo da sua história, tem levado alguns a afirmar que
“tudo é claretiano” e que, portanto, não é necessário fazer opções ou
definir prioridades.
Não
podemos esquecer que, no caso de Claret, a diversidade correspondia a um só
objectivo, o qual imprimia uma profunda unidade ao seu agir missionário: que
Deus fosse “conhecido, amado, servido e louvado por todos”. Podemos falar,
pois, de muitas actividades, mas de uma só missão: a de Jesus, tal como
Claret a encarnou. Vives assim? Sentes orgulho dos diferentes modos de
viver a única missão? Valorizas, de verdade, o que outros irmãos claretianos
realizam? Sentes que o que fazes se insere dentro de um grande projecto que
vai além do teu próprio trabalho? Estás disposto a assumir a parte que te
toca nesse projecto comum, inclusive, renunciando a outros projectos
pessoais?
Ao
Capítulo Geral caberá esclarecer de que modo a nossa missão é uma proposta
que nasce do evangelho de Jesus e estabelece diálogo de vida com outras
formas de entender e transformar a existência humana. Como claretianos, não
devemos impor nada, mas sim propor, com convicção e fidelidade, a verdade, a
beleza e a vida de Jesus. Sem este fogo, como poderíamos prosseguir a nossa
missão no meio de tantas dificuldades que hoje encontramos?
O que tu fazes é parte da obra
Ao longo
dos meses que faltam para o Capítulo Geral e durante a celebração do mesmo,
teremos ocasião de continuar a dar passos. O que fazes, ainda que te pareça
insignificante, é parte da obra. A Congregação não pode prescindir de
nenhum dos seus membros porque cada um de nós é uma mensagem de Deus para os
demais. Que palavra trazes dentro? Quais são as tuas preocupações e os teus
sonhos? Procura exprimi-los, a fim de enriquecerem a vida de todos.
As
perguntas que seguem abaixo podem ajudar-te a aprofundar a tua própria
experiência e a preparar o posterior diálogo comunitário.
Oxalá o
dia de retiro seja uma ocasião para dares graças a Deus e a Maria pelo dom
da vocação recebida, bem como para encontrares novos estímulos e reforçares
a tua fidelidade.
1.
O Capítulo Geral de 1979 afirmou que “ser claretianos é, para nós, a
forma concreta de sermos homens, cristãos, religiosos, sacerdotes e
apóstolos” (MCH, 132). Tenho vivido a minha vida missionária a partir
desta chave? O que é que me tem ajudado mais a alimentar a minha identidade
claretiana ao longo dos anos? Onde tenho encontrado mais dificuldades?
2.
Sinto que a minha vida e ministério fazem parte de uma comunidade
missionária? Como experimento e exprimo em gestos concretos a minha pertença
à Congregação? Estou disposto a assumir as exigências que a mesma implica?
3.
De que maneira o contexto social e eclesial em que vivo afecta a
minha identidade claretiana (modo de compreender e viver os votos, a oração,
a vida comunitária, o compromisso missionário, etc.)?
4.
Que sonhos acalento para o futuro da Congregação? Como julgo que
deveríamos responder às necessidades das pessoas e dos povos a partir do
nosso carisma?

1.
Tendo em conta as experiências vividas por cada um de nós, os
problemas de identidade que temos de encarar como Congregação e, sobretudo,
as fontes da nossa espiritualidade missionária, o que é que nos pode ajudar
mais a alimentar a nossa vocação claretiana nos dias de hoje?
2.
Que elementos da vida comunitária importa sublinhar hoje para
que as nossas comunidades sejam verdadeiramente claretianas? Que modelos de
comunidade poderíamos pôr em prática para que, salvaguardando sempre os
elementos essenciais, respondamos melhor às diferentes tarefas missionárias
e à especificidade dos contextos em que vivemos?
3.
Partindo da realidade formativa actual, que traços da identidade
claretiana deveríamos salientar mais, quer nos processos de formação
inicial quer nos da formação permanente?
4.
Que novas propostas pastorais nos podem ajudar a responder
mais criativamente, a partir das nossas opções missionárias, às necessidades
e desafios que observamos nos diferentes contextos?
5.
Como prosseguir de maneira mais eficaz os processos de
reorganização da Congregação? Como incrementar a comunicação de bens
em ordem a atender melhor as necessidades missionárias da Congregação?

I.
Carta de anúncio do Capítulo Geral
II.
Calendário de preparação
III.
Meditação
IV.
Perguntas para a reflexão pessoal e diálogo comunitário
V.
Perguntas para a reunião comunitária em ordem
a
elaborar propostas para o Capítulo |