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O meu interesse pelo tema
teve, como estímulo, o programa de estudos da Licenciatura Canónica em
Teologia, que contemplava, entre outros temas, “A Palavra de Deus na Bíblia,
na Liturgia e no Testemunho da Igreja”. Constitui assunto bem actual: o
anúncio da Palavra de Deus, o seu acolhimento, a relação com a Igreja, a sua
interpretação pelo Magistério e a sua importância no diálogo
inter-religioso. Outra motivação importante é a de que “A Palavra de Deus na
vida e na missão da Igreja” seria o tema do Sínodo dos Bispos, celebrado em
Outubro de 2008. Também, o ambiente da celebração do Bicentenário do
nascimento de Claret estimulou a minha investigação. Assim sendo, propus-me
abordar o tema da Palavra de Deus e a sua incidência na vida e obra de
Claret.
1. “Santo António Maria Claret, Apóstolo da Palavra”. Eis o título do
primeiro capítulo que sublinha o desabrochar e o amadurecer de um grande
apóstolo, num tempo hostil às realidades religiosas e eclesiais. De facto,
no século XIX, em toda a Espanha e Cuba, onde Claret exerceu o seu
ministério apostólico, viviam-se momentos de difícil transição política,
económica e social; todas as estruturas sociais estavam abaladas, e pelo
mesmo facto, as bases da Igreja se sentiam profundamente afectadas.
Claret não
hesita em considerar que são os “males” de Espanha e de Cuba as causas de
tal situação. Resume os males de Espanha em três: protestantismo ou perda da
catolicidade, advento da república e comunismo. As consequências destes
males eram enormes. Por isso, Claret dizia que se devia manter sempre muito
recolhido e devoto interiormente; e que devia rezar e enfrentar todos os
males da Espanha, como lhe foi manifestado pelo Senhor. Os males de Cuba que
o Arcebispo tinha de enfrentar eram: a exploração da escravatura; a falta de
estabilidade familiar; a pouca afeição à Igreja e a progressiva
descristianização.
Impunha-se,
portanto, no espírito de Claret, a vontade de vencer todos esses males com a
força da Palavra de Deus: “Meu Deus! Prometo-vos que o vou fazer. Pregarei,
escreverei e farei circular profusamente livros bons e folhetos, a fim de
sufocar o mal com a abundância do bem”.
2. O segundo
capítulo fala-nos da sua entrega total ao serviço da Palavra de Deus: como
se deixou tocar por ela; como a Palavra influenciou a sua vida; e a noção
que tinha da mesma.
Claret afirma
que se sentia “afeiçoado” às Sagradas Escrituras desde a infância, mas o
ponto crucial do seu encontro com a Palavra de Deus deu-se num momento de
crise de fé, em Barcelona, quando, durante a Missa, ouviu a passagem do
Evangelho de Mateus que dizia: “Que importa ganhar o mundo inteiro, se se
vier a perder a sua vida?”. A partir daí, só pensava no modo como servir a
Deus e os irmãos. Por isso, decidiu ser sacerdote, entrou no seminário em
Vic, tentou uma vida mais radical na Cartuxa; foi para Roma a fim de se pôr
à disposição da Propaganda Fide; tentou ser jesuíta, para ser enviado
em missão; regressou a Vic. Como a sua paróquia não era suficiente para
abarcar tanto ardor apostólico, pediu ao seu prelado para o deixar pregar
fora das fronteiras da mesma, onde quer que o enviasse.
A pregação é o
primeiro meio que Claret usa para difundir a Palavra de Deus. É, aliás, a
forma de evangelização mais comum no seu tempo, a que ele chama “sermões”,
em forma de “missões populares”. Para ele, a pregação tem uma finalidade
muito nobre: “Que Deus seja conhecido, amado e servido por todos”.
Como segundo
meio de evangelização, Claret utiliza a imprensa. Segundo os especialistas,
foi um dos religiosos do século XIX que mais impulsionou a difusão da
imprensa católica, durante a segunda metade do século. Nos seus escritos,
procura sublinhar a importância da Palavra de Deus, em relação a tudo o
mais. Quer na sua Autobiografia, quer nos outros escritos, é esse o
elemento essencial que prevalece: a leitura da Palavra deve ocupar sempre o
primeiro lugar.
Falando da
importância da Eucaristia, Claret estabelece uma relação intrínseca entre
esta e a Palavra contida nas Escrituras, e mostra que, para além do Pão da
Vida que é a Eucaristia, o homem tem necessidade do Pão do entendimento, que
é a Verdade. Insiste por isso que “O que temos de pedir e de dar
continuamente às almas é o que se chama panis vitae et intelectus, ou
seja, a Eucaristia e a Bíblia, ou melhor, a divina Palavra. Há portanto, em
Claret, uma inter-relação entre Pão e Palavra, que constituem o alimento
completo na vida do crente.
Outra ideia
que merece destaque, no pensamento de Claret, é a unidade e a realização das
três dimensões da Palavra de Deus, em Jesus Cristo. Para Claret, Ela não é
simplesmente palavra, mas Palavra de Deus encarnada, consagrada e pregada.
Em resumo, a Palavra, o Verbo que encarnou no seio de Maria (Lc 1, 30-35),
que foi ungido pelo Espírito Santo (Lc 4, 18) é que tem de ser anunciado e
“pregado”. A palavra anunciada é isso mesmo: o Verbo acolhido e transmitido
à comunidade crente.
Mas o anúncio
da Palavra é missão de toda a Igreja. Claret trata a questão nestes termos:
“Assim como Deus se serve da Igreja para nos dar o Verbo divino, incarnado e
consagrado, também quer servir-se da mesma para nos entregar o verbum
divinum scriptum et traditum. O Vaticano II viria confirmar que
constitui tarefa fundamental do Magistério, ao serviço da Palavra, saber
ouvir, interpretar e apresentar, com carácter vinculativo, a Palavra de Deus
(DV 10).
3. A missão claretiana, segundo os documentos da Congregação,
está inserida na missão da Igreja que, por natureza própria, é missionária.
É neste sentido que o terceiro capítulo tratou especialmente da Palavra como
herança transmitida pelo Fundador, Claret, aos seus irmãos de Congregação. A
Congregação é uma grande obra que começa a 16 de Julho de 1849. Com mais
cinco sacerdotes, dotados do mesmo espírito, Claret queria que dessem
continuidade à sua obra apostólica.
Consciente, pois, da sua missão evangelizadora, a Congregação Claretiana
expandiu-se pelo mundo, de acordo com o desejo e as esperanças do seu
Fundador. Ele almejava que saísse de Catalunha, se expandisse pela África,
pela América Latina e pelos Estados Unidos. Considerando a geografia dos
lugares onde estão radicados hoje os Claretianos, percebe-se que a
Congregação se universalizou e marca, actualmente, uma presença
evangelizadora nos cinco continentes.
E a Palavra de Deus, sendo fundamental na vida de Claret e da Congregação,
encontra um lugar privilegiado, nos principais documentos desta Instituição.
Está bem consignada nas Constituições, no Directório e nos Documentos dos
Capítulos Gerais da Congregação. Dos Capítulos Gerais pós-conciliares,
destaco os que trataram exclusivamente do tema da Palavra de Deus,
nomeadamente Missão Claretiana Hoje, Servidores da Palavra e
Em Missão Profética. Também o Capítulo previsto para 2009, sob o
tema, Chamados a evangelizar, responderá a uma questão actual: como
viver, hoje, a vocação missionária?
Na verdade, o hoje da missão interpela e constitui um desafio. Como Claret,
na sua luta incansável pela renovação da Igreja e pela evangelização do
mundo que despertava no século XIX, agora compete aos seus continuadores
serem “novos apóstolos”, numa Igreja que, precisamente, quer orientar-se
claramente para uma “nova evangelização” do mundo. Desde a sua fundação, a
Congregação tem vivido experiências diversas no anúncio da Palavra de Deus,
resultantes efectivamente das circunstâncias do tempo e do lugar. Os
documentos da Congregação no-lo atestam. Sobretudo os Capítulos Gerais, a
exemplo de Claret e em sintonia com a Igreja do nosso tempo, procuraram, na
vida e no caminhar da humanidade, os sinais e a voz de Deus.
Concluindo, convém reter como importante que a Palavra de Deus é sempre viva
e sempre actual. Durante toda a história da Igreja, muito se reflectiu sobre
a Palavra de Deus e sobre a sua acção na vida dos homens, sobre as diversas
formas de a acolher, ou não! O que pode acontecer é que os homens descuidem
– para utilizar palavras de Claret – o essencial, que é o Pão da Palavra. Em
Espanha e Cuba, por exemplo, Claret foi, no meio de tantas adversidades, um
lutador incansável. Para refrear a vaga das ideologias contrárias à fé e
repor a Palavra divina no seu devido lugar, lutou contra as tentativas
minimizadoras da mensagem cristã; estimulou a difusão da Palavra, no meio do
povo, nos corações simples, dispostos a escutá-la, meditá-la e vivê-la. No
seu tempo, não havia muita difusão da Palavra de Deus. Poder-se-ia mesmo
afirmar que a Bíblia era desconhecida. Por isso, recomendava que se
tornassem os livros das Sagradas Escrituras familiares a todos. Nas
abundantes obras que Claret escreveu, há uma inquietação e solicitude em
despertar e aprofundar a fé, em vivê-la através da meditação da Palavra. O
seu zelo apostólico e o espírito missionário levaram-no a encontrar formas
de dar continuidade a esta grande obra, de espalhar a Palavra por toda a
parte. Foi feliz o itinerário missionário da Congregação, a solicitude com
que os seus filhos deram continuidade a esta obra sublime do carisma
claretiano. Aos desafios evangelizadores da sua época, Claret soube dar
respostas adequadas. Os reptos de hoje precisam também dessa audácia e
criatividade.
Francisco de Assis
Lopes de Brito
(Resumo da dissertação)
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