A Palavra de Deus

na vida e obra de António Maria Claret

por P. Francisco de Assis, cmf

 

 

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O meu interesse pelo tema teve, como estímulo, o programa de estudos da Licenciatura Canónica em Teologia, que contemplava, entre outros temas, “A Palavra de Deus na Bíblia, na Liturgia e no Testemunho da Igreja”. Constitui assunto bem actual: o anúncio da Palavra de Deus, o seu acolhimento, a relação com a Igreja, a sua interpretação pelo Magistério e a sua importância no diálogo inter-religioso. Outra motivação importante é a de que “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja” seria o tema do Sínodo dos Bispos, celebrado em Outubro de 2008. Também, o ambiente da celebração do Bicentenário do nascimento de Claret estimulou a minha investigação. Assim sendo, propus-me abordar o tema da Palavra de Deus e a sua incidência na vida e obra de Claret.
 

1. “Santo António Maria Claret, Apóstolo da Palavra”. Eis o título do primeiro capítulo que sublinha o desabrochar e o amadurecer de um grande apóstolo, num tempo hostil às realidades religiosas e eclesiais. De facto, no século XIX, em toda a Espanha e Cuba, onde Claret exerceu o seu ministério apostólico, viviam-se momentos de difícil transição política, económica e social; todas as estruturas sociais estavam abaladas, e pelo mesmo facto, as bases da Igreja se sentiam profundamente afectadas.

            Claret não hesita em considerar que são os “males” de Espanha e de Cuba as causas de tal situação. Resume os males de Espanha em três: protestantismo ou perda da catolicidade, advento da república e comunismo. As consequências destes males eram enormes. Por isso, Claret dizia que se devia manter sempre muito recolhido e devoto interiormente; e que devia rezar e enfrentar todos os males da Espanha, como lhe foi manifestado pelo Senhor. Os males de Cuba que o Arcebispo tinha de enfrentar eram: a exploração da escravatura; a falta de estabilidade familiar; a pouca afeição à Igreja e a progressiva descristianização.

            Impunha-se, portanto, no espírito de Claret, a vontade de vencer todos esses males com a força da Palavra de Deus: “Meu Deus! Prometo-vos que o vou fazer. Pregarei, escreverei e farei circular profusamente livros bons e folhetos, a fim de sufocar o mal com a abundância do bem”.
 

            2. O segundo capítulo fala-nos da sua entrega total ao serviço da Palavra de Deus: como se deixou tocar por ela; como a Palavra influenciou a sua vida; e a noção que tinha da mesma.

            Claret afirma que se sentia “afeiçoado” às Sagradas Escrituras desde a infância, mas o ponto crucial do seu encontro com a Palavra de Deus deu-se num momento de crise de fé, em Barcelona, quando, durante a Missa, ouviu a passagem do Evangelho de Mateus que dizia: “Que importa ganhar o mundo inteiro, se se vier a perder a sua vida?”. A partir daí, só pensava no modo como servir a Deus e os irmãos. Por isso, decidiu ser sacerdote, entrou no seminário em Vic, tentou uma vida mais radical na Cartuxa; foi para Roma a fim de se pôr à disposição da Propaganda Fide; tentou ser jesuíta, para ser enviado em missão; regressou a Vic. Como a sua paróquia não era suficiente para abarcar tanto ardor apostólico, pediu ao seu prelado para o deixar pregar fora das fronteiras da mesma, onde quer que o enviasse.

            A pregação é o primeiro meio que Claret usa para difundir a Palavra de Deus. É, aliás, a forma de evangelização mais comum no seu tempo, a que ele chama “sermões”, em forma de “missões populares”. Para ele, a pregação tem uma finalidade muito nobre: “Que Deus seja conhecido, amado e servido por todos”.

            Como segundo meio de evangelização, Claret utiliza a imprensa. Segundo os especialistas, foi um dos religiosos do século XIX que mais impulsionou a difusão da imprensa católica, durante a segunda metade do século. Nos seus escritos, procura sublinhar a importância da Palavra de Deus, em relação a tudo o mais. Quer na sua Autobiografia, quer nos outros escritos, é esse o elemento essencial que prevalece: a leitura da Palavra deve ocupar sempre o primeiro lugar.

            Falando da importância da Eucaristia, Claret estabelece uma relação intrínseca entre esta e a Palavra contida nas Escrituras, e mostra que, para além do Pão da Vida que é a Eucaristia, o homem tem necessidade do Pão do entendimento, que é a Verdade. Insiste por isso que “O que temos de pedir e de dar continuamente às almas é o que se chama panis vitae et intelectus, ou seja, a Eucaristia e a Bíblia, ou melhor, a divina Palavra. Há portanto, em Claret, uma inter-relação entre Pão e Palavra, que constituem o alimento completo na vida do crente.

            Outra ideia que merece destaque, no pensamento de Claret, é a unidade e a realização das três dimensões da Palavra de Deus, em Jesus Cristo. Para Claret, Ela não é simplesmente palavra, mas Palavra de Deus encarnada, consagrada e pregada. Em resumo, a Palavra, o Verbo que encarnou no seio de Maria (Lc 1, 30-35), que foi ungido pelo Espírito Santo (Lc 4, 18) é que tem de ser anunciado e “pregado”. A palavra anunciada é isso mesmo: o Verbo acolhido e transmitido à comunidade crente.

            Mas o anúncio da Palavra é missão de toda a Igreja. Claret trata a questão nestes termos: “Assim como Deus se serve da Igreja para nos dar o Verbo divino, incarnado e consagrado, também quer servir-se da mesma para nos entregar o verbum divinum scriptum et traditum. O Vaticano II viria confirmar que constitui tarefa fundamental do Magistério, ao serviço da Palavra, saber ouvir, interpretar e apresentar, com carácter vinculativo, a Palavra de Deus (DV 10).
 

            3. A missão claretiana, segundo os documentos da Congregação, está inserida na missão da Igreja que, por natureza própria, é missionária. É neste sentido que o terceiro capítulo tratou especialmente da Palavra como herança transmitida pelo Fundador, Claret, aos seus irmãos de Congregação. A Congregação é uma grande obra que começa a 16 de Julho de 1849. Com mais cinco sacerdotes, dotados do mesmo espírito, Claret queria que dessem continuidade à sua obra apostólica.

Consciente, pois, da sua missão evangelizadora, a Congregação Claretiana expandiu-se pelo mundo, de acordo com o desejo e as esperanças do seu Fundador. Ele almejava que saísse de Catalunha, se expandisse pela África, pela América Latina e pelos Estados Unidos. Considerando a geografia dos lugares onde estão radicados hoje os Claretianos, percebe-se que a Congregação se universalizou e marca, actualmente, uma presença evangelizadora nos cinco continentes.

E a Palavra de Deus, sendo fundamental na vida de Claret e da Congregação, encontra um lugar privilegiado, nos principais documentos desta Instituição. Está bem consignada nas Constituições, no Directório e nos Documentos dos Capítulos Gerais da Congregação. Dos Capítulos Gerais pós-conciliares, destaco os que trataram exclusivamente do tema da Palavra de Deus, nomeadamente Missão Claretiana Hoje, Servidores da Palavra e Em Missão Profética. Também o Capítulo previsto para 2009, sob o tema, Chamados a evangelizar, responderá a uma questão actual: como viver, hoje, a vocação missionária?

Na verdade, o hoje da missão interpela e constitui um desafio. Como Claret, na sua luta incansável pela renovação da Igreja e pela evangelização do mundo que despertava no século XIX, agora compete aos seus continuadores serem “novos apóstolos”, numa Igreja que, precisamente, quer orientar-se claramente para uma “nova evangelização” do mundo. Desde a sua fundação, a Congregação tem vivido experiências diversas no anúncio da Palavra de Deus, resultantes efectivamente das circunstâncias do tempo e do lugar. Os documentos da Congregação no-lo atestam. Sobretudo os Capítulos Gerais, a exemplo de Claret e em sintonia com a Igreja do nosso tempo, procuraram, na vida e no caminhar da humanidade, os sinais e a voz de Deus.
 

Concluindo, convém reter como importante que a Palavra de Deus é sempre viva e sempre actual. Durante toda a história da Igreja, muito se reflectiu sobre a Palavra de Deus e sobre a sua acção na vida dos homens, sobre as diversas formas de a acolher, ou não! O que pode acontecer é que os homens descuidem – para utilizar palavras de Claret – o essencial, que é o Pão da Palavra. Em Espanha e Cuba, por exemplo, Claret foi, no meio de tantas adversidades, um lutador incansável. Para refrear a vaga das ideologias contrárias à fé e repor a Palavra divina no seu devido lugar, lutou contra as tentativas minimizadoras da mensagem cristã; estimulou a difusão da Palavra, no meio do povo, nos corações simples, dispostos a escutá-la, meditá-la e vivê-la. No seu tempo, não havia muita difusão da Palavra de Deus. Poder-se-ia mesmo afirmar que a Bíblia era desconhecida. Por isso, recomendava que se tornassem os livros das Sagradas Escrituras familiares a todos. Nas abundantes obras que Claret escreveu, há uma inquietação e solicitude em despertar e aprofundar a fé, em vivê-la através da meditação da Palavra. O seu zelo apostólico e o espírito missionário levaram-no a encontrar formas de dar continuidade a esta grande obra, de espalhar a Palavra por toda a parte. Foi feliz o itinerário missionário da Congregação, a solicitude com que os seus filhos deram continuidade a esta obra sublime do carisma claretiano. Aos desafios evangelizadores da sua época, Claret soube dar respostas adequadas. Os reptos de hoje precisam também dessa audácia e criatividade.

Francisco de Assis Lopes de Brito
(Resumo da dissertação)

 

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