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“Toda a Igreja é Missionária”, João Paulo II. Foi com estas palavras
e neste ano Paulino, que o Cardeal Patriarca de Lisboa deu início aos
trabalhos do Congresso Missionário, que decorreu em Fátima de 3 a 7 de
Setembro deste ano de 2008.
Ao longo de, praticamente 4 dias, muito se aprofundou sobre o significado e
problemática da Missão nos dias de hoje.
Todos os conferencistas, quer laicos quer clericais usaram da expressão de
S. Paulo “Ai de mim se não evangelizar”, pois essa é a actividade
fundamental da Igreja, a evangelização. De diferentes formas, e utilizando
diferentes aproximações e perspectivas, todos os conferencistas foram
unânimes neste ponto, a Missão é o ponto fulcral de toda a actividade da
Igreja, quer se fale de dioceses e de paróquias, quer se fale das famílias e
de leigos.
D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, afirmou “a actividade
missionária é uma página gloriosa da Igreja… [juntamente]... com a
página da santidade”, mas que não podemos confundir missão com
proselitismo. Hoje querem passar a imagem de Deus por inútil, e logo se é
inútil, não tem razão de existir. Porém como Paulo, apenas em e com Cristo
se enfrenta as grandes questões do Mundo, a Vida e a Morte, o Princípio e o
Fim. Pois o Evangelho leva o homem a buscar sabedoria interior.

Nas palavras de D. António Couto, que deu início aos trabalhos de
quinta-feira, é urgente que a Igreja anuncie no “seu” próprio terreno. É
urgente “amar” a fé cristã para “converter” os vizinhos, os amigos. O campo
da missão é o Mundo Humano e toda a Igreja é chamada a intervir, salientando
que “cada cristão em virtude do baptismo é chamado a intervir”. Isto
é, uma nova “missiologia” que não deve ser para delegar em especialistas,
mas para co-responsabilizar todo o povo de Deus. Elencando um conjunto de
problemáticas com que a missão se debate, D. António Couto, terminou
sublinhado as palavras do papa Bento XVI “…somente dos santos, somente de
Deus vem a verdadeira mudança, o verdadeiro rumo…”.
A Dr.ª Maria José Nogueira Pinto, na Conferência “Portugal e os desafios
dos valores”, apresentou um conjunto de elementos que provocam, segundo
ela, uma crise de valores na sociedade de hoje, a saber: uma sociedade com
novas ditaduras subtis; o discurso único; o mito da modernidade; novos
paradigmas do sucesso; a diferenciação; mito da ciência e tecnologia e o
relativismo moral. Na sua conferência acentuou que a “… sociedade
aparenta ser mais feliz, mas está mais dividida, mais violenta […] mais
solitária…”.
Por sua vez o Pe. José Ornelas Carvalho salientou que os países europeus
abdicam da sua cristandade e as igrejas na Europa estão em crise, pois
centrada na vida da igreja local estão desfasadas. Há que descobrir um novo
caminho de missão, declarando ser “preciso construir uma Igreja aberta”.
Visto que sendo a Igreja de Cristo uma só, a sua riqueza é ser multicultural
e ser diferente, e os leigos devem ser parte integrante de toda uma
comunidade cristã.
Para o Professor João Duque, o enviado é aquele que é para dar. Amar
significa ser dado e dar-se gratuitamente para o outro. E a missão é o
coração do próprio Deus, é a sua própria verdade. A História da Salvação é
esse dar-se continuamente, ninguém é enviado por si mesmo, parte, imbuído de
Deus, para o desconhecido, para o diferente.

Todavia, muitos missionários partem sem conhecer o verdadeiro Cristo, nas
palavras de D. Lúcio Muandula, bispo de Xai Xai, Moçambique.
Para o Pe. António Vaz Pinto há uma só missão e todos somos sacerdotes,
profetas e reis. Profetas pois “proferimos” a palavra de Deus, sacerdotes
pois a missa é o resumo de toda a vida de Jesus e reis pois pertencemos à
realeza do Serviço. Salientando, como os anteriores conferencistas, que
somos unos na diversidade, apontou alguns dos problemas que a missão de
leigos enfrenta: o romantismo, a aventura, os problemas pessoais, entre
outros. Sendo que a “fórmula especial” para enfrentar os seus problemas é a
vivência em comunidade.
Afirmou, vale a pena às paróquias apostar na formação de leigos para o
desenvolvimento, pois são eles hoje que colocam “uma fiada de tijolos na
construção”, desses países alvo de missão. Pois “enriquecem” culturalmente,
economicamente, esses países através das suas variadas profissões, sem
abandonar o cerne da sua Missão, anunciadores do Evangelho.
Das palavras de D. Manuel Quintas, salienta-se a frase “não interessa o
número, interessa a qualidade”. Pois a Igreja confrontada com o mundo
actual precisa de modelos, projectos e meios de anunciar, sendo que “a
Missão não é facultativa, nem delegável, nem adiável”. E, mesmo, a
Europa precisa de uma primeira evangelização, uma missão Ad Gentes. Sendo
que essa Missão é o fundamento da Igreja. A Igreja se não partir em missão,
se não evangelizar, não é a Igreja de Cristo.
D. Manuel Quintas terminou com o avançar de uma série de propostas a nível
das dioceses e a nível de paróquias, sendo que as três dimensões
fundamentais são: Amor, Unidade e Anúncio da Boa Nova.
No último dia do Congresso Missionário Nacional, D. Jorge Ortiga afirmou que
o Bispo na sua diocese deve viver a missão, e descendo ao nível da paróquia,
esta deve ter um rosto missionário. Deve existir uma verdadeira conversão
pastoral, uma vocação missionária, na qual a comunidade paroquial sinta
alegria de compartilhar a Fé. Há necessidade de uma tensão missionária para
levar o rosto de Cristo a todos, formando para isso cristãos que sejam
testemunhas e “professores” para combater a implantação da indiferença que
hoje se instala. A Missão convoca a todos.
Salientou ainda que a precisamos de nos identificar com quem foi discípulo e
missionário, e nesse ponto Maria é “estrela de evangelização”.

Foram finalmente apresentadas as grandes linhas de força deste congresso
Missionário:
“Deus,
Trindade de Amor, envia a humanidade toda a fazer do outro um irmão. A
Missão é de Deus e, por isso, o baptizado, consciente deste envio ao tomar
parte na vida de Cristo, é impelido a ser contemplativo e servo da sua
Palavra.
A Missão é
tarefa indelegável de cada cristão. Esta concretiza-se no espaço e no tempo
da história humana, conhecendo e amando aqueles a quem se é enviado. A
vivência comunitária da fé em família, paróquia, diocese ou comunidades de
vida consagrada é o testemunho mais credível do anúncio de Deus-Amor.
A
Santidade (sair de si por amor) e a Missão (ser enviado por Deus ao
diferente) são o húmus vital de todo o cristão e de todas as actividades
pastorais.
Com o
Concílio Vaticano II (1965), assistimos a uma nova compreensão da Missão.
Cada um de nós é, simultaneamente, enviado e destinatário da evangelização.
O Espírito é o protagonista da Missão e a Igreja Local o seu sujeito de
encarnação e vivência. Nela e a partir dela, surgem e actuam todas as
vocações missionárias laicais, consagradas e sacerdotais. O despertar do
laicado para a Missão é hoje um dos sinais dos tempos.
Em pleno
Ano Paulino, o Apóstolo dos gentios, com o seu itinerário de conversão e
missão, é para nós modelo a conhecer melhor e a seguir no zelo e na urgência
de evangelizar.
Para além
de momento privilegiado de reflexão e partilha, o Congresso foi também uma
experiência de comunhão na dor com os nossos irmãos perseguidos na Índia e
em outras situações de falta de liberdade religiosa.
Propostas
Sentimos o
coração a arder e desejamos que toda esta riqueza possa contribuir para a
Igreja em Portugal viver mais em Missão. Por isso, como Congressistas,
propomos que:
1. A
Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) promova uma melhor coordenação e
integração das diversas áreas pastorais para todas serem fecundadas pelo
dinamismo missionário e anseio de santidade.
2. A CEP,
partindo do Congresso Missionário e do Ano Paulino, avive a vocação
missionária de todos os cristãos e prepare um documento-base para a Missão
em Portugal.
3. Cada
Igreja Local incentive a criação de estruturas e dinâmicas que demonstrem a
consciência e urgência do anúncio do Evangelho: Secretariado Diocesano
Missionário, grupos missionários paroquiais, semanas de animação
missionária, geminações, voluntariado, sacerdotes "fidei Donum", institutos
de vida consagrada…
4. Cada
diocese promova, oportunamente, um Congresso Missionário Diocesano.
5.
Promova-se formação missionária às crianças, jovens, adultos, seminaristas,
consagrados e sacerdotes, de acordo com o novo paradigma de Missão.
6.
Fomente-se, com espírito de solidariedade e subsidiariedade, a comunhão e a
partilha de fé, de pessoas - numa dinâmica de partir e receber - e de bens
entre as diversas Igrejas.
7.
Ajude-se cada cristão a crescer até à estatura de Cristo: Sacerdote que
celebra a liturgia e oferece a sua vida pela salvação de todos; Profeta que
proclama a Palavra de Deus e denuncia as injustiças e contravalores da sua
sociedade e cultura; e Rei que serve com caridade os mais desprotegidos e
excluídos.
Num mundo
global e em mudança, à procura de sucesso mas infeliz, queremos viver em
Missão e anunciar Cristo Vivo ao mundo, sendo profetas da esperança e
rasgando novos horizontes.
Fátima, 7
de Setembro de 2008
Os
participantes no congresso missionário nacional”
José Pedrosa
Membro da Procuradoria Portuguesa das Missões Claretianas
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