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Em entrevista ao VER, o
padre José Maia, presidente do conselho de administração desta IPSS da
Congregação dos Missionários Claretianos, que intervém socialmente junto de
pessoas, famílias e comunidades em situação de exclusão, sublinha que muitas
práticas, “tanto a nível Estatal como das próprias Instituições Particulares
de Solidariedade Social, deverão ser repensadas através da inserção social,
de forma a não se cair na tentação de fazer a ‘manutenção’ dos excluídos,
através de projectos e atitudes que têm provada a sua pouca eficácia”.
Com uma pedagogia social
centrada naquilo que tem que ver “com a busca do que se encontra a montante
dos problemas sociais” (e onde a rua é, muitas vezes o gabinete dos seus
técnicos), a Filos procura encontrar “na credibilidade das ‘propostas
sociais’ autoridade moral para as ‘denúncias políticas’ em relação aos
poderes instituídos que falam e não fazem”, acusa o padre Maia. Foi neste
contexto que a Fundação, sediada no Porto, organizou a jornada de 17 de
Outubro, à semelhança de anos anteriores.
Políticas sociais pouco eficazes
“Porque é que tantos apoios financeiros, da mais diversificada proveniência,
concedidos a centenas de milhares dos destinatários do nosso trabalho,
apresentam tão fraco retorno social?” É esta a questão que todos os agentes
políticos e sociais se devem colocar, acredita o responsável da Filos. Parte
da sua resposta estará contida nas intervenções “profundas e de forte cariz
humanista” de Guilherme Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas,
e de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, ambas “bons contributos para uma
nova abordagem que urge fazer nas políticas e práticas sociais”.
Umas e outras “devem
encontrar a sua centralidade na dignidade da pessoa humana e na
maleabilidade e humanismo que devem inspirar leis e práticas sociais, em vez
da frieza dos ‘normativos e das estatísticas’ que têm vindo a desvirtuar
muitas das iniciativas do voluntariado social, desmotivando pessoas e
instituições com políticas de pendor estatizante”, defende o padre Maia.
Neste contexto, é fundamental avaliar qual deve ser o papel do Estado, isto
é, por um lado, o que lhe compete fazer e, por outro, o que deve, em
subsidiariedade, deixar fazer. Como explica o presidente da Fundação Filos,
de acordo com o artigo 63º, ponto 5 da Constituição, cabe ao Estado “apoiar
e fiscalizar” as Instituições Particulares de Solidariedade e outras
Associações, Cooperativas e Mutualidades, a quem deve confiar a acção social
junto da Família (Artigo 67º), da Infância (Artigo 69º), da Juventude
(Artigo 70º), da Deficiência (Artigo 71º) e da Terceira Idade (Artigo 72º).
À luz desta reflexão,
Silva Peneda, antigo ministro do Trabalho e da Segurança Social e actual
deputado europeu, abordou o tema da subsidiariedade e das funções sociais do
Estado, à luz da Constituição da República, numa avaliação “muito oportuna,
traçada por uma pessoa especialmente conhecedora das políticas sociais
europeias”. Com a participação da audiência deste evento promovido pela
Filos, foram ainda analisados em pormenor instrumentos de políticas sociais,
como a rede social e o rendimento social de inserção. Deste debate
conclui-se que estes instrumentos de políticas sociais, sendo positivos na
sua justificação, devem merecer algumas alterações de forma a poderem ser
mais eficazes na sua aplicação.
Finalmente, a intervenção do ministro Vieira da Silva nesta Jornada permitiu
conhecer, quase em primeira mão (já que veio directamente de um encontro de
ministros da Segurança Social e Solidariedade europeus) algumas
recomendações da União Europeia para os Estados Membros, “deixando claro
que, enquanto perdurarem baixos salários, terão de ser as transferências
sociais para as famílias em dificuldades a evitar que haja mais pobreza”.
Mas para haver mais transferências, é necessário que o Estado tenha mais
receitas e para haver mais receitas tem de haver mais produtividade e
melhores mercados, conclui o padre Maia, antecipando que “a conjuntura
nacional e internacional está a provar que nada disto vai acontecer e,
portanto, continua adiada a luta pela erradicação da pobreza”. Assertivo, o
presidente da Fundação Filos acredita ainda que poderão ser feitos “arranjos
estatísticos para as opiniões públicas, mas não se avista vontade dos
Governantes europeus em alterar o modelo de desenvolvimento que tem servido
de base à Europa”.
Alheio a tais considerações, Vieira da Silva garantiu que "o objectivo é
atingir a média europeia da taxa de pobreza, 16 por cento”, reduzindo a taxa
de 18 por cento, registada em 2006. Prazos é que o ministro não apontou,
adiantando apenas que o apoio do Estado a instituições de solidariedade vai
crescer dez por cento, atingindo 1,1 mil milhões de euros; e que os 73,41
milhões de euros aplicados, este ano, no combate à pobreza extrema dos
idosos serão reforçados, em 2009, com mais 87,77 milhões de euros.
Nova geração sensível à pobreza
A Jornada Social promovida pela Filos encerrou, no dia 18, com um
espectáculo de apresentação da Final do Concurso Hip-Hop-Pobreza STOP,
promovido pela Fundação. A iniciativa teve como objectivo valorizar a
importância das “linguagens alternativas, de intervenção, das margens”,
esperando-se “que possa servir de inspiração para alguns projectos criativos
de intervenção social dirigidos, de forma especial, aos jovens”.
Para o padre José Maia, o número de concorrentes de todo o país e a
qualidade dos trabalhos apresentados, em Rap e Graffiti, provaram como “a
nova geração é sensível à pobreza e está disponível para, ao seu jeito, dar
um contributo para acabar com a indiferença”, tema muito abordado por uma
grande parte dos participantes.
Os trabalhos realizados
serão publicados e o espectáculo que teve lugar no Pavilhão Multiusos de
Gondomar será transmitido pela RTP e pela Antena 3 que, juntamente com o
Correio da Manhã, apoiaram esta iniciativa, que reuniu mais de cinco mil
pessoas. Dos doze jovens finalistas de cada categoria – Rap e Graffiti -
“apostados em mostrar o que há de errado no País e no mundo”, saíram
vencedores, respectivamente, Nuno Palhas, com o trabalho ‘Pobreza’ e a dupla
de Gaia, Caixa Toráxica. Ambos os vencedores ganharam trezentos euros e os
rappers vão gravar um videoclip que será exibido pela RTP, enquanto
os graffiters verão os seus trabalhos editados em livro.
História do Dia
da Erradicação da Pobreza (1957-2007/2008)
Ordenado padre em 1946,
em Soissons (França), Joseph Wresinski, filho de pai polaco e mãe espanhola,
foi pároco de paróquias operárias e rurais durante dez anos, até que o seu
bispo lhe propôs ir ao encontro do “acampamento dos sem-abrigo”, em
Noisy-le-Grand, na região de Paris. Em 1957, com as famílias que viviam
nesse bairro de lata, cria a associação Aide à Toute Détresse (ATD) que,
dinamizando-se como um autêntico movimento social, cria consciência social.
Membro do Conselho Económico e Social da República Francesa desde 1979, o
sacerdote redige então o relatório “Grande Pobreza e Precariedade Económica
e Social”, que virá a ter repercussões sociais e políticas importantes na
Europa e no mundo, sendo adoptado pela Assembleia, a 11 de Fevereiro de
1987. Meses depois, no dia 17 de Outubro, mais de cem mil cidadãos e
cidadãs, correspondendo a um apelo do Padre Joseph Wresinski, reúnem-se no
Adro das Liberdades e dos Direitos Humanos, no Trocadéro, em Paris.
No mesmo dia em que milhares de pessoas expressam a necessidade de se
unirem, para que o respeito pelos Direitos Fundamentais se torne uma
realidade universal, o Padre Wresinski inaugura uma laje, lembrando que a
presença dos mais pobres constitui um apelo à construção de uma humanidade
verdadeiramente fraterna. Nela mandou gravar esta mensagem: ”onde os homens
estão condenados a viver na miséria, aí os Direitos Humanos são violados.
Unir-se para os fazer respeitar é um dever sagrado”.
Mais tarde, em 1992, as
Nações Unidas reconhecem oficialmente o Dia da Erradicação da Pobreza,
dando-lhe um alcance universal.
Fonte: Fundação Filos |