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Testemunhos
Do Padre António Monteiro, enquanto membro da comunidade do Seminário Maior
Claretiano, e, depois da comunidade do Colégio Universitário Pio XII, guardo
as melhores recordações. Era uma pessoa discreta e muito certa, nos hábitos,
no que fazia e no que dizia. Levantava-se cedo, e saía do Colégio para a
paróquia de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica, ainda antes das sete horas,
para apanhar dois autocarros. Todos os dias da semana, todas as semanas do
ano, até ao dia em que foi acometido pelo acidente vascular cerebral.
Celebrava a Eucaristia, atendia as pessoas no Sacramento da Reconciliação e
não só, visitava os doentes e as suas famílias, administrava a Unção dos
Enfermos. Tais serviços, sobretudo a Reconciliação e o atendimento às
pessoas doentes, eram muito apreciados por todos, paroquianos e responsáveis
da paróquia. Na altura do seu falecimento e antes, ouvi a muitas pessoas
testemunhos nesse sentido. Pouco dado a notoriedades, aparecia despercebido,
e evitava, até, situações de maior visibilidade.
Na vida comunitária não destoava deste registo. Chegado a casa depois do
meio-dia, era assíduo à oração comunitária da hora intermédia. Muitas vezes
fazia a leitura do necrológio, e, não raro, ao citar algum nome dos seus
colegas ou superiores dos tempos da sua formação em Espanha dizia com alguma
graça: “este era do meu tempo”. Normalmente, nos últimos tempos menos,
gostava de partilhar algum tempo de convívio, na sala de comunidade, depois
do almoço e do jantar. Parco de palavras e de opiniões sobre matérias
ligeiras, ajudava a criar um ambiente cordato e agradável. Nos últimos anos,
quando o número de seminaristas ficou reduzido, alguns quartos foram
ocupados por alunos do Colégio, mesmo ao lado do seu. Naturalmente
ditavam-se tarde e levantavam-se tarde, ao contrário dele, e faziam algum
ruído. O P. António revelou sempre uma grande capacidade de compreensão e
até de cumplicidade com eles. Em ambas as comunidades exerceu as funções de
ecónomo, colector de missas e de cronista.
Apesar de não manifestar grandes mazelas, o tinha limitações de saúde que se
iam progressivamente desenvolvendo; também nisso a discrição era seu timbre.
Sem alarido e informando-me, ia ao médico e tomava a medicação quase sem se
notar. No dia em que foi acometido pelo AVC, 27 de Julho de 2007, cumpriu o
seu programa diário até ao almoço; depois, por volta das 14,30, foi a uma
consulta de oftalmologia. Aí, enquanto esperava a sua vez, sofreu o ataque.
Socorrido pelo médico e chamado o INEM, foi internado nos cuidados
intensivos do Hospital de Curry Cabral, depois no Hospital de Santa Maria. A
recuperação foi no serviço de medicina do Hospital Pulido Valente. Numa das
visitas, estando presente um grupo de membros da comunidade, foi
administrado, a seu pedido, o Sacramento da Unção dos Doentes
Terminado o período de internamento hospitalar, no dia 04 de Outubro, foi
recebido no Centro Social Paroquial de S. Vicente de Paulo, dirigido pelo P.
Francisco Crespo, unidade bem equipada para doentes acamados, indicada pelos
próprios profissionais do Hospital. O primeiro contacto foi feito por
pessoas amigas do P. António. Ao início penso que lhe custou um pouco;
depois aceitou melhor. Esteve sempre acamado e consciente até ao fim. Teve
as melhores atenções da direcção, dos profissionais e funcionários do
Centro. Várias pessoas, com sentimentos de gratidão e de amizade, o
visitavam regularmente. Nas visitas que lhe fiz, encontrei-o algumas vezes
contrafeito e quase mudo, outras, bem disposto, sorridente e até falador.
Assim foram os últimos dezoito meses da sua longa vida. Parece-me que os
sentiu e viveu como despojamento e purificação.
P. Jerónimo Trigo
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Num passeio comunitário do Seminário
Maior Claretiano.
O P. António é o terceiro a contar da esquerda.
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Nunca vivi lado a lado com o P. António Monteiro, mas a relação mantida com
ele, na qualidade de Superior Provincial, autoriza-me a dar um testemunho,
favorável e positivo. Conheci-o, já ele se encontrava exclaustrado. A esse
propósito, disse-me o P. João de Freitas Alves: “Os três irmãos – Joaquim,
Valentim e António – entenderam que um deles deveria assistir a sua irmã,
considerada incapaz de se governar sozinha, e decidiram que fosse o mais
novo a prestar esse serviço. Os Superiores, Provincial e Geral, deram o seu
acordo”. O rescrito de exclaustração era renovado de três em três anos, até
que a Sé Apostólica resolveu prorrogá-lo “enquanto durasse o motivo”. Assim
que o motivo cessou, o P. António regressou à comunidade.
Enquanto esteve fora, apresentava-se na Cúria Provincial uma vez por ano e,
por ocasião de festas congregacionais, também aparecia ou telefonava.
Diziam os seus
irmãos de sangue que ele, por ser o benjamim dum rebanho de filhos, foi
muito mimado pelos pais e acostumou-se a levar a água ao seu moinho. A
brincar, a brincar, o P. António apanhava a pedra que lhe atiravam e
devolvia-a à procedência. A verdade é que, aos onze anos, deixou o ninho
paterno e foi para o seminário claretiano de Segóvia, Espanha. Desse
longínquo 1936 até 2009 vão 73 anos, peregrinando por Salvatierra, Santo
Domingo de la Calzada, Vitória, San Sebastián, Termas de São Vicente, São
Tomé e Príncipe, Porto, Carvalhos, Setúbal, Lisboa.
A Congregação
deve-lhe o serviço de professor que exerceu em Espanha e Portugal. Deve-lhe
as funções de ecónomo em diversas comunidades e em situações de grande
aperto económico. Deve-lhe o trabalho que desenvolveu nas missões de São
Tomé e Príncipe, onde desempenhou funções de pároco e de superior. Deve-lhe
a orientação da Escola de Artes e Ofícios, na cidade de São Tomé, e da
Colónia Agrícola Ferreira Lapa, hoje Lar Juvenil, na vila dos Carvalhos.
Deve-lhe a gestão pastoral das paróquias de São Sebastião, em Setúbal, e de
Santa Cruz do Castelo, em Lisboa, bem como a preciosa colaboração na
paróquia de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica, onde foi pároco interino, a
pedido de D. António dos Reis Rodrigues, então Vigário Geral do Patriarcado,
que muito o apreciava. A gratidão pela sua actividade sentiu-se também na
missa exequial: ali estavam os dois últimos párocos, cónegos João de Sousa e
José Traquina, além do P. Jardim Gonçalves, Secretário do Cardeal Patriarca.
e outros sacerdotes, religiosos e diocesanos. (Para além deles, participaram
nas cerimónias fúnebres doze presbíteros claretianos, três Irmãos
Missionários e os nossos Estudantes).
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P. António Monteiro nas Praias do Sado,
em 1947.
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Teria os seus defeitos, como é próprio dos seres humanos. Mas, no dia em que
estas linhas escrevo, lemos na Missa que “Deus atira os nossos pecados para
o fundo do mar”. Esqueçamos, pois, que o P. António era muito metido consigo
próprio, miudinho, teimoso, agarrado às suas coisas, etc., ou que vivia um
tanto dividido entre duas casas, a sua comunidade e o apartamento que
possuía em Benfica. “In hoc non laudo”, como dizia São Paulo aos “insensatos
Gálatas”. Dirijamos, porém, os focos para aspectos bonitos, por exemplo que
nunca deixou mal a Congregação, antes honrou-a sempre com o seu porte
simples, correcto, certinho e fiel aos compromissos. Não seria uma
luminária, mas preparava-se conscienciosamente para o ministério.
Deixou-nos, como prova disso, um maço enorme de homilias dominicais que
redigia regularmente.
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Em pé, O P. António Monteiro é o 1º da
esquerda.
Missão de S. Tomé, em 1950.
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Reservado e
comedido em manifestações exteriores, vibrava no entanto com os assuntos da
Congregação e com os seus símbolos. Quando se comprou a Cúria Provincial,
ofereceu o azulejo que hoje adorna a fachada: o quadro da Mãe do Amor
Formoso (que presidiu à fundação do nosso Instituto) com a inscrição: “Casa
do Coração de Maria. 1988”. Assim, sempre que venho da rua, lembro-me do P.
António Monteiro e pelo melhor motivo.
Acabado o enterro
no cemitério de Benfica, o sr. João, velho funcionário do Colégio
Universitário Pio XII, teve este instantâneo: “Ficámos mais pobres, digo, a
Família Claretiana”. Concordei, acrescentando porém que se trata apenas de
uma transferência para a urbanização celeste. O dia da morte, para um
cristão, não é simplesmente ocaso, mas sim aurora de vida: “dies natalis”,
dia do nascimento e não do fim, limiar de onde Alguém o chama para celebrar
a Páscoa eterna.
P. Abílio Pina Ribeiro, CMF
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O falecimento do P. António Monteiro, na passada sexta-feira, 13 de Março,
com quase noventa anos de idade, motivou-nos a uma atitude de acção de
graças pelo dom de Deus que foi a sua vida. Foi um sacerdote muito dedicado
à Paróquia de Nossa senhora do Amparo, de Benfica, como bem referiu o
Reverendíssimo Provincial dos Claretianos na celebração da Missa das
Exéquias.
O P. Monteiro revelou-me, em Junho de 2007, que não gostava de férias; a sua
alegria estava totalmente em servir a Igreja, Povo de Deus. A sua dedicação
a esta Paróquia passou por muitas respostas pastorais, mas deixou bem
marcado o seu testemunho pela dedicação ao atendimento espiritual, no
confessionário, na celebração do sacramento da reconciliação, e na atenção
aos doentes, nas muitas visitas, levando-lhes os sacramentos. Presidiu,
milhares de vezes, à celebração da Missa na nossa Igreja Paroquial, onde
desenvolvia para os fiéis as suas meditações sobre a Palavra de Deus.
Os pais do P. Monteiro tiveram a graça de ter três filhos sacerdotes e uma
filha Religiosa consagrada. Foram claramente o fruto de um ambiente de fé
cristã, onde a vida se decide na relação com Deus e na busca da sua santa
vontade. Um filho consagrado a Deus é uma graça, no seio de uma família. Que
estes testemunhos façam eco nas famílias cristãs do nosso tempo e assim
possam acreditar que a vida vale pela densidade da sua elevação e dedicação,
e não pela sua extensão ou domínio.
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Dos três claretianos, o P. António era o
mais novo dos irmãos Monteiro.
PP. Joaquim, Valentim e António Monteiro e José Maia.
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A Paróquia de Benfica dá graças a Deus pelo testemunho sacerdotal do P.
António Monteiro, que a esta comunidade tanto se dedicou. Será recordado
pelos que o conheceram como um sacerdote zeloso, afável, atencioso,
discreto, dedicado e disponível. Foi um homem de Deus; por isso mesmo, foi
muito humano.
Sendo o P. Monteiro um sacerdote Missionário Filho do Imaculado Coração de
Maria – Claretiano, a Paróquia de Benfica agradece também àquela Família
missionária a disponibilidade que o P. Monteiro revelou ao servir esta
comunidade paroquial.
Purificado pelo Mistério Pascal de Cristo, em que ele acreditou e celebrou,
suplicamos ao Senhor que o recompense pelo bem que realizou e o faça
participante da Liturgia celeste.
Cónego José
Traquina
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Nos primeiros meses de 1976, apresentei ao Sr. Padre Álvaro Proença a minha
disponibilidade para colaborar, como sacerdote, no serviço pastoral da
paróquia de Nossa senhora do Amparo de Benfica.
O Sr. Padre António Monteiro já lá trabalhava há alguns anos. Os nossos
horários não eram coincidentes, mas encontrávamo-nos várias vezes por
semana. Ao longo de mais de trinta anos, tive oportunidade de conhecer um
verdadeiro homem de Deus. A nossa amizade foi-se consolidando. Fez-nos
irmãos. Tempo partilhado, espaço vital partilhado, trabalho partilhado.
Servíamos o mesmo Senhor e o seu Povo. Ele recordava muitas vezes, com
saudade, a vida de missionário em S. Tomé e Príncipe. Humilde, simples, com
profunda cultura religiosa, trabalhador, amigo dos pobres. Um apóstolo,
visitador de doentes e velhinhos. Sempre preocupado com a perfeição
evangélica. Presente na pastoral das exéquias, presente na administração do
sacramento da reconciliação, presente na assistência espiritual a diversos
movimentos e obras. O P. António Monteiro tornara-se querido, familiar.
Foram surgindo graves problemas de saúde. Muitos fiéis sentiam a sua
ausência. Esperavam que fosse provisória. Infelizmente tornou-se definitiva.
Até nos deixar. Sentimo-nos unidos na oração. Fica a sua grata memória e os
frutos dos seus trabalhos apostólicos. Descanse para sempre no Senhor!
P. Manuel Esteves |