"IN MEMORIAM”

 

PADRE ANTÓNIO MONTEIRO

Missionário Claretiano

 

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Nascido a 14 de Setembro de 1919 na freguesia de São Pedro do Jarmelo, concelho e diocese da Guarda, entrou no seminário menor de Segóvia (Espanha) em 1930 e frequentou o noviciado em Salvatierra (Álava), onde professou a 23 de Outubro de 1936. Cursou filosofia em Beire (Navarra), e teologia em Santo Domingo de la Calzada (Logronho). Recebeu a ordenação sacerdotal em Vitória, a 1 de Julho de 1945.

Durante o ano lectivo de 1945-1946, leccionou nos colégios de San Sebastián e de Bilbau, e, após o regresso a Portugal, tornou-se professor no seminário das Termas de São Vicente (Penafiel). Seguiu, a 20 de Dezembro de 1947, para as missões de São Tomé e Príncipe. Em Março de 1948, tomou conta da paróquia de Santo Amaro e, no ano seguinte, responsabilizou-se pelas de Santana e Santa Cruz dos Angolares. A finais de 1949, avançou para a ilha do Príncipe, onde, até 1952, exerceu funções de professor na escola da missão e de coadjutor paroquial.

Após um período de férias na metrópole, voltou a São Tomé, em Janeiro de 1954, passando a exercer o múnus de superior e pároco da Trindade. Nesse ano, vem residir na cidade de São Tomé, ocupando-se da paróquia de Santa Maria Madalena e da orientação da Escola de Artes e Ofícios. Em Outubro de 1955, é nomeado superior e pároco de Nossa Senhora das Neves, mas tem de regressar a Portugal, a 28 de Fevereiro de 1957, por conselho médico.

É, então, nomeado ecónomo da casa da Rua de Fez, no Porto, cargo que acumula com o de professor, até 1959, data em que toma conta, como director, da ‘Colónia Agrícola Ferreira Lapa’, nos Carvalhos. Em 1962, segue para Setúbal, como ecónomo local, a que soma a responsabilidade de pároco de São Sebastião, de 1965 a 1968. Nesse ano, vem residir na casa da Rua Nova do Almada – 95, em Lisboa, onde desempenha o cargo de ecónomo local e fica responsável pela paróquia de Santa Cruz do Castelo, até Outubro de 1971.

Por razões de atendimento a familiares, solicita à Santa Sé, em 1973, o indulto de exclaustração, ficando ao serviço da paróquia de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica, onde desempenha temporariamente o múnus de pároco interino e, depois, de coadjutor, até finais de 1993.

Nesta altura, é integrado na comunidade do Colégio Universitário Pio XII. Em Julho de 1995, transita para a comunidade do Seminário Maior Claretiano, em Lisboa, e aí exerce o cargo de ecónomo local. Similar função desempenha, a partir de Julho de 2001, na comunidade do Colégio Universitário Pio XII, para onde fora transferido.

Em Julho de 2007, sofreu acidente vascular cerebral e posterior infecção. Após a sua hospitalização e convalescença em casa, em Outubro de 2007 é internado, para cuidados especiais continuados, no Centro Social Paroquial São Vicente de Paulo, no Bairro da Serafina, Lisboa, onde vem a falecer a 13 de Março de 2009.

 
 
 

 

Testemunhos
 

Do Padre António Monteiro, enquanto membro da comunidade do Seminário Maior Claretiano, e, depois da comunidade do Colégio Universitário Pio XII, guardo as melhores recordações. Era uma pessoa discreta e muito certa, nos hábitos, no que fazia e no que dizia. Levantava-se cedo, e saía do Colégio para a paróquia de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica, ainda antes das sete horas, para apanhar dois autocarros. Todos os dias da semana, todas as semanas do ano, até ao dia em que foi acometido pelo acidente vascular cerebral. Celebrava a Eucaristia, atendia as pessoas no Sacramento da Reconciliação e não só, visitava os doentes e as suas famílias, administrava a Unção dos Enfermos. Tais serviços, sobretudo a Reconciliação e o atendimento às pessoas doentes, eram muito apreciados por todos, paroquianos e responsáveis da paróquia. Na altura do seu falecimento e antes, ouvi a muitas pessoas testemunhos nesse sentido. Pouco dado a notoriedades, aparecia despercebido, e evitava, até, situações de maior visibilidade.

Na vida comunitária não destoava deste registo. Chegado a casa depois do meio-dia, era assíduo à oração comunitária da hora intermédia. Muitas vezes fazia a leitura do necrológio, e, não raro, ao citar algum nome dos seus colegas ou superiores dos tempos da sua formação em Espanha dizia com alguma graça: “este era do meu tempo”. Normalmente, nos últimos tempos menos, gostava de partilhar algum tempo de convívio, na sala de comunidade, depois do almoço e do jantar. Parco de palavras e de opiniões sobre matérias ligeiras, ajudava a criar um ambiente cordato e agradável. Nos últimos anos, quando o número de seminaristas ficou reduzido, alguns quartos foram ocupados por alunos do Colégio, mesmo ao lado do seu. Naturalmente ditavam-se tarde e levantavam-se tarde, ao contrário dele, e faziam algum ruído. O P. António revelou sempre uma grande capacidade de compreensão e até de cumplicidade com eles. Em ambas as comunidades exerceu as funções de ecónomo, colector de missas e de cronista.

Apesar de não manifestar grandes mazelas, o tinha limitações de saúde que se iam progressivamente desenvolvendo; também nisso a discrição era seu timbre. Sem alarido e informando-me, ia ao médico e tomava a medicação quase sem se notar. No dia em que foi acometido pelo AVC, 27 de Julho de 2007, cumpriu o seu programa diário até ao almoço; depois, por volta das 14,30, foi a uma consulta de oftalmologia. Aí, enquanto esperava a sua vez, sofreu o ataque. Socorrido pelo médico e chamado o INEM, foi internado nos cuidados intensivos do Hospital de Curry Cabral, depois no Hospital de Santa Maria. A recuperação foi no serviço de medicina do Hospital Pulido Valente. Numa das visitas, estando presente um grupo de membros da comunidade, foi administrado, a seu pedido, o Sacramento da Unção dos Doentes

Terminado o período de internamento hospitalar, no dia 04 de Outubro, foi recebido no Centro Social Paroquial de S. Vicente de Paulo, dirigido pelo P. Francisco Crespo, unidade bem equipada para doentes acamados, indicada pelos próprios profissionais do Hospital. O primeiro contacto foi feito por pessoas amigas do P. António. Ao início penso que lhe custou um pouco; depois aceitou melhor. Esteve sempre acamado e consciente até ao fim. Teve as melhores atenções da direcção, dos profissionais e funcionários do Centro. Várias pessoas, com sentimentos de gratidão e de amizade, o visitavam regularmente. Nas visitas que lhe fiz, encontrei-o algumas vezes contrafeito e quase mudo, outras, bem disposto, sorridente e até falador. Assim foram os últimos dezoito meses da sua longa vida. Parece-me que os sentiu e viveu como despojamento e purificação.

 

 

P. Jerónimo Trigo

 

 


Num passeio comunitário do Seminário Maior Claretiano.
O P. António é o terceiro a contar da esquerda.

 

 

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Nunca vivi lado a lado com o P. António Monteiro, mas a relação mantida com ele, na qualidade de Superior Provincial, autoriza-me a dar um testemunho, favorável e positivo. Conheci-o, já ele se encontrava exclaustrado. A esse propósito, disse-me o P. João de Freitas Alves: “Os três irmãos – Joaquim, Valentim e António – entenderam que um deles deveria assistir a sua irmã, considerada incapaz de se governar sozinha, e decidiram que fosse o mais novo a prestar esse serviço. Os Superiores, Provincial e Geral, deram o seu acordo”. O rescrito de exclaustração era renovado de três em três anos, até que a Sé Apostólica resolveu prorrogá-lo “enquanto durasse o motivo”. Assim que o motivo cessou, o P. António regressou à comunidade.

Enquanto esteve fora, apresentava-se na Cúria Provincial uma vez por ano e, por ocasião de festas congregacionais, também aparecia ou telefonava.

Diziam os seus irmãos de sangue que ele, por ser o benjamim dum rebanho de filhos, foi muito mimado pelos pais e acostumou-se a levar a água ao seu moinho. A brincar, a brincar, o P. António apanhava a pedra  que lhe atiravam e devolvia-a à procedência.  A verdade é que, aos onze anos, deixou o ninho paterno e foi para o seminário claretiano de Segóvia, Espanha. Desse longínquo 1936 até 2009 vão 73 anos, peregrinando por Salvatierra, Santo Domingo de la Calzada, Vitória, San Sebastián, Termas de São Vicente, São Tomé e Príncipe, Porto, Carvalhos, Setúbal, Lisboa.

A Congregação deve-lhe o serviço de professor que exerceu em Espanha e Portugal. Deve-lhe as funções de ecónomo em diversas comunidades e em situações de grande aperto económico. Deve-lhe o trabalho que desenvolveu nas missões de São Tomé e Príncipe, onde desempenhou funções de pároco e de superior. Deve-lhe a orientação da Escola de Artes e Ofícios, na cidade de São Tomé, e da Colónia Agrícola Ferreira Lapa, hoje Lar Juvenil, na vila dos Carvalhos. Deve-lhe a gestão pastoral das paróquias de São Sebastião, em Setúbal, e de Santa Cruz do Castelo, em Lisboa, bem como a preciosa colaboração na paróquia de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica, onde foi pároco interino, a pedido de D. António dos Reis Rodrigues, então Vigário Geral do Patriarcado, que muito o apreciava. A gratidão pela sua actividade sentiu-se também na missa exequial: ali estavam os dois últimos párocos, cónegos João de Sousa e José Traquina, além do P. Jardim Gonçalves, Secretário do Cardeal Patriarca. e outros sacerdotes, religiosos e diocesanos. (Para além deles, participaram nas cerimónias fúnebres doze presbíteros claretianos, três Irmãos Missionários e os nossos Estudantes).

 


P. António Monteiro nas Praias do Sado, em 1947.

 

Teria os seus defeitos, como é próprio dos seres humanos. Mas, no dia em que estas linhas escrevo, lemos na Missa que “Deus atira os nossos pecados para o fundo do mar”. Esqueçamos, pois, que o P. António era muito metido consigo próprio, miudinho, teimoso, agarrado às suas coisas, etc., ou que vivia um tanto dividido entre duas casas, a sua comunidade e o apartamento que possuía em Benfica. “In hoc non laudo”, como dizia São Paulo aos “insensatos Gálatas”. Dirijamos, porém, os focos para aspectos bonitos, por exemplo que nunca deixou mal a Congregação, antes honrou-a sempre com o seu porte simples, correcto, certinho e fiel aos compromissos. Não seria uma luminária, mas preparava-se conscienciosamente para o ministério. Deixou-nos, como prova disso, um maço enorme de homilias dominicais que redigia regularmente.

 


Em pé, O P. António Monteiro é o 1º da esquerda.
Missão de S. Tomé, em 1950.
 

 

 Reservado e comedido em manifestações exteriores, vibrava no entanto com os assuntos da Congregação e com os seus símbolos. Quando se comprou a Cúria Provincial, ofereceu o azulejo que hoje adorna a fachada: o quadro da Mãe do Amor Formoso (que presidiu à fundação do nosso Instituto) com a inscrição: “Casa do Coração de Maria. 1988”. Assim, sempre que venho da rua, lembro-me do P. António Monteiro e pelo melhor motivo.

Acabado o enterro no cemitério de Benfica, o sr. João, velho funcionário do Colégio Universitário Pio XII, teve este instantâneo: “Ficámos mais pobres, digo, a Família Claretiana”. Concordei, acrescentando porém que se trata apenas de uma transferência para a urbanização celeste. O dia da morte, para um cristão, não é simplesmente ocaso, mas sim aurora de vida: “dies natalis”, dia do nascimento e não do fim, limiar de onde Alguém o chama para celebrar a Páscoa eterna.

 

                                                                            P. Abílio Pina Ribeiro, CMF

 

 

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O falecimento do P. António Monteiro, na passada sexta-feira, 13 de Março, com quase noventa anos de idade, motivou-nos a uma atitude de acção de graças pelo dom de Deus que foi a sua vida. Foi um sacerdote muito dedicado à Paróquia de Nossa senhora do Amparo, de Benfica, como bem referiu o Reverendíssimo Provincial dos Claretianos na celebração da Missa das Exéquias.

O P. Monteiro revelou-me, em Junho de 2007, que não gostava de férias; a sua alegria estava totalmente em servir a Igreja, Povo de Deus. A sua dedicação a esta Paróquia passou por muitas respostas pastorais, mas deixou bem marcado o seu testemunho pela dedicação ao atendimento espiritual, no confessionário, na celebração do sacramento da reconciliação, e na atenção aos doentes, nas muitas visitas, levando-lhes os sacramentos. Presidiu, milhares de vezes, à celebração da Missa na nossa Igreja Paroquial, onde desenvolvia para os fiéis as suas meditações sobre a Palavra de Deus.

Os pais do P. Monteiro tiveram a graça de ter três filhos sacerdotes e uma filha Religiosa consagrada. Foram claramente o fruto de um ambiente de fé cristã, onde a vida se decide na relação com Deus e na busca da sua santa vontade. Um filho consagrado a Deus é uma graça, no seio de uma família. Que estes testemunhos façam eco nas famílias cristãs do nosso tempo e assim possam acreditar que a vida vale pela densidade da sua elevação e dedicação, e não pela sua extensão ou domínio.

 


Dos três claretianos, o P. António era o mais novo dos irmãos Monteiro.
PP. Joaquim, Valentim e António Monteiro e José Maia.

 

A Paróquia de Benfica dá graças a Deus pelo testemunho sacerdotal do P. António Monteiro, que a esta comunidade tanto se dedicou. Será recordado pelos que o conheceram como um sacerdote zeloso, afável, atencioso, discreto, dedicado e disponível. Foi um homem de Deus; por isso mesmo, foi muito humano.

Sendo o P. Monteiro um sacerdote Missionário Filho do Imaculado Coração de Maria – Claretiano, a Paróquia de Benfica agradece também àquela Família missionária a disponibilidade que o P. Monteiro revelou ao servir esta comunidade paroquial.

Purificado pelo Mistério Pascal de Cristo, em que ele acreditou e celebrou, suplicamos ao Senhor que o recompense pelo bem que realizou e o faça participante da Liturgia celeste.

 

Cónego José Traquina

 

 

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Nos primeiros meses de 1976, apresentei ao Sr. Padre Álvaro Proença a minha disponibilidade para colaborar, como sacerdote, no serviço pastoral da paróquia de Nossa senhora do Amparo de Benfica.

O Sr. Padre António Monteiro já lá trabalhava há alguns anos. Os nossos horários não eram coincidentes, mas encontrávamo-nos várias vezes por semana. Ao longo de mais de trinta anos, tive oportunidade de conhecer um verdadeiro homem de Deus. A nossa amizade foi-se consolidando. Fez-nos irmãos. Tempo partilhado, espaço vital partilhado, trabalho partilhado. Servíamos o mesmo Senhor e o seu Povo. Ele recordava muitas vezes, com saudade, a vida de missionário em S. Tomé e Príncipe. Humilde, simples, com profunda cultura religiosa, trabalhador, amigo dos pobres. Um apóstolo, visitador de doentes e velhinhos. Sempre preocupado com a perfeição evangélica. Presente na pastoral das exéquias, presente na administração do sacramento da reconciliação, presente na assistência espiritual a diversos movimentos e obras. O P. António Monteiro tornara-se querido, familiar.

Foram surgindo graves problemas de saúde. Muitos fiéis sentiam a sua ausência. Esperavam que fosse provisória. Infelizmente tornou-se definitiva. Até nos deixar. Sentimo-nos unidos na oração. Fica a sua grata memória e os frutos dos seus trabalhos apostólicos. Descanse para sempre no Senhor!

 

P. Manuel Esteves


 
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