XII ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA
DO SÍNODO DOS BISPOS

Roma, 5 a 26 de Outubro de 2008
 

As 55 “Proposições” dos Padres Sinodais

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A XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo sobre a Palavra de Deus votou favoravelmente uma lista de 55 proposições. O texto original dessas proposições, em latim, foi enviado ao Papa Bento XVI. O Papa permitiu a publicação de uma versão italiana, provisória e não oficial, dessa lista de proposições, pela secretaria-geral do Sínodo. A tradução que aqui apresentamos, baseia-se nessa versão italiana.

 

Tradução: P. Joaquim Manuel Garrido Mendes, scj

   

Introdução

  

Proposição 1

Documentos que se apresentam ao Sumo Pontífice

 

Quer-se apresentar à consideração do Sumo Pontífice – além dos documentos sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja relativos a este Sínodo, a saber, os “Lineamenta”, o “Instrumentum laboris”, as Relações “ante et post disceptationem” e os textos das intervenções, tanto as apresentadas na aula como as intervenções “in scriptis”, as Relações dos Círculos Menores e os seus debates – certas propostas específicas, que os padres consideraram de especial relevo.

Os padres sinodais pedem humildemente ao Santo Padre que avalie a oportunidade de oferecer um documento sobre o mistério da Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, também à luz do Ano dedicado a São Paulo, o apóstolo das gentes, no bimilenário do seu nascimento.

 

Proposição 2

Da Constituição Dogmática Dei Verbum ao Sínodo sobre a Palavra de Deus

 

Os padres sinodais, a mais de quarenta anos da promulgação da Constituição dogmática sobre a Divina Revelação “Dei Verbum” (DV), obra do Concílio Ecuménico Vaticano II, reconhecem com gratidão os grandes benefícios trazidos por este documento à vida da Igreja, a nível exegético, teológico, espiritual, pastoral e ecuménico.

Na esteira da história do ‘intellectus fidei’ e da doutrina cristã, esta constituição pôs em relevo o horizonte trinitário, histórico e salvífico da revelação.

Ao longo destes anos cresceu, de maneira incontestável, a consciência eclesial de que Jesus Cristo, Palavra de Deus incarnada, “pelo próprio facto da sua presença e manifestação da sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação, a saber, que Deus está connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna” (DV 4).

Tudo isto permitiu aprofundar o valor infinito da Palavra de Deus que se nos entrega na Sagrada Escritura, como testemunho inspirado da revelação, que juntamente com a Tradição viva da Igreja constitui a regra suprema da fé (cf. DV 21). É esta mesma palavra que é conservada e interpretada fielmente pelo Magistério (cf. DV 10), celebrada na sagrada Liturgia que se dá a nós na Eucaristia como pão de vida eterna (cf. Jo 6).

Conservando preciosamente os frutos destes anos, a Igreja sente hoje a necessidade de aprofundar ainda mais o mistério da Palavra de Deus nas suas diversas articulações e implicações pastorais. Portanto, esta Assembleia Sinodal formula o voto de que todos os fiéis cresçam na consciência do mistério de Cristo, único salvador e mediador entre Deus e os homens (cf. 1 Tm 2, 5; He 8,15), e a Igreja renovada pela escuta religiosa da Palavra de Deus possa empreender uma nova etapa missionária, anunciando a Boa Nova a todos os homens.

 

 

Primeira parte

A Palavra de Deus na fé da Igreja

 

 

Proposição 3

Analogia “Verbi Dei”

 

A expressão “Palavra de Deus” é analógica. Refere-se sobretudo à Palavra de Deus enquanto Pessoa, que é o Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, Verbo do Pai feito carne (cf. Jo 1, 14). A Palavra divina, já presente na criação do universo e de maneira particular na criação do homem, revelou-se ao longo da história da salvação e é testemunhada por escrito no Antigo e no Novo Testamento. Esta Palavra de Deus transcende a Sagrada Escritura, mesmo se esta a contém de uma maneira muito particular. Sob a orientação do Espírito (cf. Jo 14, 26; 16, 12-15), a Igreja guarda-a e conserva-a na sua Tradição viva (cf. DV 10) e oferece-a à humanidade através da pregação, dos sacramentos e do testemunho de vida. Os Pastores, portanto, devem educar o Povo de Deus no sentido de compreender os diversos significados da expressão “Palavra de Deus”.

 

Proposição 4

Dimensão dialógica da Revelação

 

Quando se refere à Revelação, o diálogo comporta o primado da Palavra de Deus dirigida ao homem. Deus, no seu grande amor, quis vir ao encontro da humanidade e tomou a iniciativa de falar aos homens, chamando-os a partilhar a sua vida. A especificidade do cristianismo manifesta-se no acontecimento Jesus Cristo, cume da Revelação, cumprimento das promessas de Deus e mediador do encontro entre o homem e Deus. Ele, “que nos revelou Deus” (Jo 1, 18), é a Palavra única e definitiva entregue à humanidade. Para acolher a Revelação, o homem deve abrir a sua mente e o seu coração à acção do Espírito Santo que lhe faz compreender a Palavra de Deus, presente nas Sagradas Escrituras. O homem responde a Deus em plena liberdade, com a obediência da fé (cf. Rm 1, 5; 2 Cor 10, 5-6; DV 5).

Maria, mãe de Jesus, personifica esta obediência da fé de uma maneira exemplar; ela é também o arquétipo da fé da Igreja que escuta e acolhe a Palavra de Deus.

 

Proposição 5

Espírito Santo e Palavra de Deus

 

As Sagradas Escrituras, sendo dom entregue pelo Espírito Santo à Igreja Esposa de Cristo, têm na Igreja o seu próprio lugar hermenêutico.

O próprio Espírito, que é o autor das Sagradas Escrituras, é também o guia para a sua correcta interpretação na formação da ‘fides Ecclesiae’ através dos tempos.

O Sínodo recomenda aos pastores a necessidade de recordar a todos os baptizados o papel do Espírito Santo na inspiração (cf. DV 11), na interpretação e na compreensão das Sagradas Escrituras (cf. DV 12). Em consequência, todos nós, discípulos, somos convidados a invocar com frequência o Espírito Santo, para que Ele nos conduza ao conhecimento cada vez mais aprofundado da Palavra de Deus e ao testemunho da nossa fé (cf. Jo 15, 26-27). Os fiéis recordem que as Sagradas Escrituras terminam evocando o apelo conjunto do Espírito e da Esposa: “Vem, Senhor Jesus” (cf. Ap 22, 17.20).

 

 

Proposição 6

Leitura patrística da Escritura

 

Para a interpretação do texto bíblico, não se deve negligenciar a leitura patrística da Escritura, que distingue dois sentidos: o sentido literal e o sentido espiritual. O sentido literal é o que é significado pelas palavras da Escritura e encontrado através dos instrumentos científicos da exegese crítica. O sentido espiritual diz respeito também à realidade dos acontecimentos de que a Escritura fala, tendo em conta a Tradição viva da Igreja e a analogia da fé, que comporta a relação intrínseca das verdades da fé entre si e na totalidade do desígnio da Revelação divina.

 

Proposição 7

Unidade entre Palavra de Deus e Eucaristia

 

É importante considerar a profunda unidade entre a Palavra de Deus e a Eucaristia (cf. DV 21), como se expressa nalguns textos concretos, nomeadamente Jo 6, 35-58; Lc 24, 13-35, de modo a ultrapassar a dicotomia entre as duas realidades, que por vezes está presente na reflexão teológica e na pastoral. Deste modo, a ligação com o Sínodo precedente sobre a Eucaristia será mais evidente.

A Palavra de Deus faz-se carne sacramental no acontecimento eucarístico e leva a Sagrada Escritura ao seu cumprimento.

A Eucaristia é um princípio hermenêutico da Sagrada Escritura, assim como a Sagrada Escritura ilumina e explica o mistério eucarístico. Neste sentido, os padres sinodais manifestam o desejo de que possa ser promovida uma reflexão teológica sobre a sacramentalidade da Palavra de Deus. Sem o reconhecimento da presença real do Senhor na Eucaristia, a compreensão da Eucaristia permanece incompleta. 

 

Proposição 8

Palavra de reconciliação e conversão

 

A Palavra de Deus é Palavra de reconciliação porque nela Deus reconcilia consigo todas as coisas (cf. 2 Cor 5, 18-20; Ef 1, 10). O perdão misericordioso de Deus, incarnado em Jesus, resgata o pecador.

A importância da Palavra de Deus nos sacramentos de restabelecimento (penitência e unção) deve ser sublinhada. A Igreja deve ser a comunidade que, reconciliada por essa Palavra que é Jesus Cristo (cf. Ef 2, 14-18; Col 1, 22), oferece a todos um espaço de reconciliação, de misericórdia e de perdão.

A força cicatrizante da Palavra de Deus é um apelo poderoso a uma constante conversão pessoal à escuta e um incentivo para um anúncio corajoso da reconciliação oferecida pelo Pai em Cristo (cf. 2 Cor 5, 20-21).

Nestes tempos de conflitos de todo o tipo e de tensões inter-religiosas, fiéis à obra de reconciliação realizada por Deus em Jesus, os católicos estão empenhados em dar exemplo de reconciliação, procurando partilhar os mesmos valores humanos, éticos e religiosos na sua relação com Deus e com os outros. Procuram, assim, construir uma sociedade justa e pacífica.

 

Proposição 9

Encontro com a Palavra na leitura da Sagrada Escritura

 

Este Sínodo volta a propor com convicção a todos os fiéis o encontro com Jesus, Palavra de Deus feita carne, como acontecimento de graça que se repete na leitura e na escuta das Sagradas Escrituras. São Cipriano, recolhendo um pensamento partilhado pelos padres, recorda: “Sê assíduo à oração e à lectio divina. Quando rezas, falas com Deus; quando lês, é Deus que fala contigo” (Ad Donatum, 15).

Assim, esperamos vivamente que resulte desta assembleia uma nova etapa de maior amor à Sagrada Escritura por parte de todos os membros do Povo de Deus, a fim de que a sua leitura orante e fiel no tempo permita aprofundar a relação com a própria pessoa de Jesus. Nesta perspectiva, desejamos que, na medida do possível, cada fiel possua pessoalmente uma Bíblia (cf. Dt 17, 18-20) e goze dos benefícios da indulgência especial ligada à leitura das Escrituras (cf. Indulgentiarum Doctrina, 30).

 

Proposição 10

O Antigo Testamento na Bíblia cristã

 

Jesus rezou os Salmos e leu a Lei e os Profetas, citando-os na sua pregação e apresentando-Se a Si mesmo como o cumprimento das Escrituras (cf. Mt 5, 17; Lc 4, 21; 24, 27; Jo 5, 46). O Novo Testamento extraiu constantemente do Antigo Testamento as palavras e as expressões que lhe permitem narrar e explicar a vida, a morte e a ressurreição de Jesus (cf. Mt 1-2 e Êxodo passim; Mc 6, 3; Lc 24, 25-31). Ao mesmo tempo, de resto, a sua morte e ressurreição “deram a esses mesmos textos uma plenitude de significado antes inconcebível” (Pontifícia Comissão Bíblica, A interpretação da Bíblia na Igreja, III A 2).

Em consequência, a fé apostólica em Jesus é proclamada “segundo as Escrituras” (cf. 1 Cor 15) e apresenta Jesus Cristo como o “sim” de Deus a todas as promessas (cf. 2 Cor 1, 20).

Por estas razões, o conhecimento do Antigo Testamento é indispensável a quem crê no Evangelho de Jesus Cristo, porque, segundo Santo Agostinho, o Novo Testamento está escondido no Antigo e o Antigo manifesta-se no Novo (cf. Quaestiones in Heptateucum, 2, 73).

Por isso, desejamos que, na pregação e na catequese, se tenham na sua devida conta as páginas do Antigo Testamento, explicando-as adequadamente no contexto da história da salvação, e se ajude o Povo de Deus a apreciá-las à luz da fé no Senhor Jesus.

 

Proposição 11

Palavra de Deus e caridade para com os pobres

 

Um dos traços característicos da Sagrada Escritura é a revelação da predilecção de Deus pelos pobres (cf. Mt 25, 31-46). Jesus de Nazaré, Palavra de Deus incarnada, passou pelo mundo fazendo o bem (cf. Act 10, 35). A Palavra de Deus, acolhida com disponibilidade, gera abundantemente na Igreja a caridade e a justiça para com todos, e sobretudo para com os pobres. Como ensina a encíclica Deus Caritas Est, os primeiros que têm direito ao anúncio do Evangelho são justamente os pobres, que têm necessidade não apenas de pão mas também de palavras de vida.

Contudo, os pobres não são apenas os destinatários da caridade, mas também agentes de evangelização, na medida em que estão abertos a Deus e são generosos na partilha com os outros. Os pastores são chamados a escutá-los, a aprender com eles, a guiá-los na sua fé e a motivá-los para serem artífices da sua própria história. Os diáconos encarregados do serviço da caridade têm uma responsabilidade especial neste âmbito. O Sínodo encoraja-os no seu ministério.

 

Proposição 12

Inspiração e verdade da Bíblia

 

O Sínodo propõe que a Congregação para a Doutrina da Fé clarifique os conceitos de inspiração e de verdade na Bíblia, bem como a sua recíproca relação, de modo que se compreenda melhor o ensinamento da Dei Verbum 11. Em particular, é preciso pôr em relevo a originalidade da hermenêutica bíblica católica neste campo.

 

Proposição 13

Palavra de Deus e Lei natural

 

Os Padres sinodais estão conscientes dos grandes desafios presentes no actual momento histórico. Um desses desafios diz respeito ao gigantesco desenvolvimento que a ciência realizou no que diz respeito ao conhecimento da natureza. Paradoxalmente, quanto mais cresce este conhecimento menos se consegue ver a mensagem ética que daí emana. Na história do pensamento, já os antigos filósofos costumavam designar este princípio como “lex naturalis” ou lei moral natural. Como o recordou o Papa Bento XVI, esta expressão parece que hoje se tornou incompreensível “por causa de um conceito de natureza não já metafísico, mas somente empírico. O facto de que a natureza, o próprio ser, já não seja transparente para uma mensagem moral, gera um sentido de desorientação que torna precárias e incertas as opções da vida quotidiana” (12 de Fevereiro de 2007).

À luz do ensinamento da Sagrada Escritura, como no-lo recorda sobretudo o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos (cf. Rm 2, 14-15), é bom sublinhar que esta lei está inscrita no mais fundo do coração de cada pessoa e que cada pessoa pode aceder-lhe. O seu princípio basilar é que se deve “fazer o bem e evitar o mal”; trata-se de uma verdade que se impõe com evidência a todos e da qual derivam outros princípios que regulam o juízo ético sobre os direitos e deveres de cada um. Convém recordar que é também o alimento da Palavra de Deus que aumenta o conhecimento da lei natural e permite o progresso da consciência moral. Por isso, o Sínodo recomenda a todos os pastores de ter uma especial solicitude a fim de que os ministros da Palavra sejam sensíveis à redescoberta da lei natural e à sua função na formação das consciências.

 

 

Segunda parte

A Palavra de Deus na vida da Igreja

 

 

Proposição 14

Palavra de Deus e Liturgia

 

A assembleia, convocada e reunida pelo Espírito para escutar a proclamação da Palavra de Deus, é transformada pela mesma acção do Espírito que se manifesta na celebração.

Com efeito, onde está a Igreja, aí está o Espírito do Senhor; e onde está o Espírito do Senhor, aí está também a Igreja (cf. Santo Ireneu, Adversus Haereses, III, 24, 1).

Os padres sinodais reafirmam que a liturgia constitui o lugar privilegiado onde a Palavra de Deus se expressa plenamente, seja na celebração dos sacramentos, seja sobretudo na Eucaristia, na Liturgia das Horas e no Ano Litúrgico. O mistério da salvação narrado na Sagrada Escritura encontra na liturgia o próprio lugar de anúncio, de escuta e de actuação.

Por este motivo exige-se, por exemplo, que:

 –    O livro da Sagrada Escritura ocupe na igreja um lugar visível e de honra, inclusive fora das celebrações litúrgicas.

 –    O silêncio depois da primeira e da segunda leitura, e terminada a homilia, deve ser encorajado, como é sugerido na Apresentação Geral do Missal Romano (cf. N. 56).

 –    Celebrações da Palavra de Deus, centradas nas leituras dominicais, podem ser previstas.

 –    As leituras das Sagradas Escrituras sejam proclamadas a partir de livros litúrgicos dignos, ou seja, o Leccionário e o Evangeliário, os quais serão tratados com o mais profundo respeito porque contêm a Palavra de Deus.

 –    Seja valorizado o Evangeliário, com uma procissão que preceda a proclamação, sobretudo nas solenidades.

 –    Seja posto em evidência o papel dos servidores da proclamação: leitores e cantores.

 –    Sejam formados adequadamente os leitores e leitoras, de modo que possam proclamar a Palavra de Deus de maneira clara e compreensível. Que eles sejam convidados a estudar e a testemunhar com a vida os conteúdos da Palavra que lêem.

 –    Se proclame a Palavra de Deus de forma clara, com conhecimento da dinâmica de comunicação.

 –    Não sejam esquecidas, em especial na Liturgia eucarística, as pessoas para as quais é difícil a recepção da Palavra de Deus comunicada nos modos usuais, como é o caso das pessoas com incapacidade visual ou auditiva.

 –    Se faça uma utilização competente e eficaz dos instrumentos acústicos.

Além disso, os padres sinodais sentem o dever de recordar a grave responsabilidade que têm os que presidem à santa Eucaristia, a fim de que não substituam nunca os textos da Sagrada Escritura por outros textos. Nenhum texto de espiritualidade ou de literatura pode alcançar o valor e a riqueza contida na Sagrada Escritura, que é Palavra de Deus.

 

Proposição 15

Actualização homilética e “Directório sobre a homilia”

 

A homilia permite a actualização da Palavra proclamada: “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4,21). Esta conduz ao mistério que se celebra, convida à missão e partilha as alegrias e as dores, as esperanças e os temores dos fiéis, dispondo assim a assembleia seja à profissão de fé (Credo), seja à oração universal da missa.

Deveria haver uma homilia em todas as missas “cum populo”, inclusive durante a semana. É necessário que os pregadores (bispos, sacerdotes, diáconos) se preparem através da oração, para que preguem com convicção e paixão. Devem fazer-se três perguntas:

 –    Que dizem as leituras proclamadas?

 –    O que é que essas leituras me dizem a mim?

 –    O que é que devo dizer à comunidade, tendo em conta a sua situação concreta?

O pregador deve, sobretudo, deixar-se interpelar primeiro pela Palavra de Deus que anuncia. A homilia deve ser alimentada pela doutrina e transmitir o ensinamento da Igreja para fortificar a fé, chamar à conversão no quadro da celebração e preparar para a concretização do mistério pascal eucarístico.

Para ajudar o pregador no ministério da Palavra, e em continuidade com o ensinamento da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Sacramentum Caritatis (n. 46), os padres sinodais desejam que se elabore um “Directório sobre a homilia”, que deveria expor, juntamente com os princípios da homilética e da arte da comunicação, o conteúdo dos temas bíblicos que aparecem nos leccionários que se usam na liturgia.

 

Proposição 16

Leccionário

 

Recomenda-se que se inicie uma análise do Leccionário romano para ver se a actual selecção e ordenamento das leituras estão verdadeiramente adaptados à missão da Igreja neste momento da história. Em particular, a relação da leitura do Antigo Testamento com a perícopa evangélica deveria ser reconsiderada, de modo que não implique uma leitura demasiado restritiva do Antigo Testamento ou a exclusão de algumas passagens importantes.

A revisão do Leccionário poderia ser feita em diálogo com os parceiros ecuménicos que utilizam este Leccionário comum.

Deseja-se que seja analisada, de maneira autorizada, a questão do Leccionário na liturgia das Igrejas católicas orientais.

 

Proposição 17

O ministério da Palavra e as mulheres

 

Os padres sinodais reconhecem e encorajam o serviço dos leigos na transmissão da fé. As mulheres, em especial, desempenham a este nível um papel indispensável, sobretudo na família e na catequese. Com efeito, elas sabem suscitar a escuta da Palavra, a relação pessoal com Deus e transmitir o sentido do perdão e da partilha evangélica.

Deseja-se que o ministério do leitorado seja aberto também às mulheres, de modo que na comunidade cristã seja reconhecido o seu papel de anunciadoras da Palavra.

 

Proposição 18

Celebrações da Palavra de Deus

 

Segundo as diversas formas recebidas da tradição litúrgica, recomenda-se a celebração da Palavra de Deus (cf. Sacramentum caritatis 35). Muitas comunidades eclesiais, que não têm a possibilidade da celebração eucarística dominical, encontram na celebração da Palavra o alimento para a própria fé e para o testemunho cristão.

A celebração da Palavra é um dos lugares privilegiados do encontro com o Senhor, porque nesta proclamação Cristo faz-Se presente e continua a falar ao seu povo (cf. SC 7). Mesmo no meio do ruído actual, que torna muito difícil uma escuta efectiva, os fiéis são encorajados a cultivar uma disposição para o silêncio interior e para a escuta da Palavra de Deus que transforma a vida.

Os padres sinodais recomendam que sejam redigidos directórios de ritos, apoiando-se na experiência das Igrejas onde catequistas formados conduzem habitualmente as assembleias dominicais à volta da Palavra de Deus. A sua finalidade será evitar que tais celebrações sejam confundidas com a liturgia eucarística.

O acolhimento da Palavra, a oração de louvor, a acção de graças e as preces, que compõem a celebração da Palavra de Deus, são manifestações do Espírito no coração dos fiéis e na assembleia cristã reunida à volta da Palavra de Deus. Com efeito, o Espírito Santo faz com que a Palavra de Deus proclamada e celebrada dê fruto no coração e na vida de quem a recebe.

Consideramos, além disso, que também as peregrinações, as festas, as diversas formas de piedade popular, as missões, os retiros espirituais e os dias especiais de penitência, reparação e perdão são uma oportunidade concreta oferecida aos fiéis para celebrar a Palavra de Deus e para aprofundar o seu conhecimento.

 

Proposição 19

A liturgia das Horas

 

A Liturgia das Horas é uma forma privilegiada de escuta da Palavra de Deus, porque põe os fiéis em contacto com a Sagrada Escritura e com a Tradição viva da Igreja. Assim, o Sínodo deseja que os fiéis participem na Liturgia das Horas, sobretudo nas Laudes e nas Vésperas. Por isso, onde ainda não existe, seria útil preparar uma forma simples de Liturgia das Horas.

Aos bispos, aos padres, aos diáconos, aos religiosos e a todos aqueles a quem a Igreja o recomenda, recorda-se o sagrado dever de rezar a Liturgia das Horas. Por outro lado, o mesmo se recomenda também vivamente aos fiéis leigos, de modo que tal Liturgia se torne, em sentido ainda mais verdadeiro, a oração de toda a Igreja.

 

Proposição 20

Palavra de Deus, matrimónio e família

 

A Palavra de Deus está na origem do matrimónio (cf. Gn 2, 24). O próprio Jesus incluiu o matrimónio entre as instituições do seu Reino (cf. Mt 19, 4-8), conferindo-lhe um estatuto de sacramento. Na celebração sacramental, o homem e a mulher pronunciam uma palavra profética de entrega recíproca, o ser “uma só carne”, sinal do mistério da união de Cristo e da Igreja (cf. Ep 5, 31-32). Mediante a fidelidade e a unidade da vida de família, os esposos são diante dos seus filhos os primeiros anunciadores da Palavra de Deus. É necessário apoiá-los e ajudá-los a desenvolver a oração na família, a celebração doméstica da Palavra, a leitura da Bíblia ou outras formas de oração.

Os esposos recordarão que a Palavra de Deus é um valioso apoio também nas dificuldades da vida conjugal e familiar.

 

Proposição 21

Palavra de Deus e pequenas comunidades

 

O Sínodo recomenda a formação de pequenas comunidades eclesiais onde se escute, se estude e se reze a Palavra de Deus, inclusive na forma do Rosário como meditação bíblica (cf. João Paulo II, Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae). Em muitos países existem já pequenas comunidades que podem ser formadas por famílias, radicadas nas paróquias ou ligadas a diversos movimentos eclesiais e novas comunidades. Essas pequenas comunidades reúnem-se regularmente à volta da Palavra de Deus para a partilhar entre eles, e dela recebem força.

Algumas têm apenas raramente a possibilidade de celebrar a Eucaristia. Fazem a experiência da comunidade e encontram-se pessoalmente com a Palavra de Deus. Através da leitura da Bíblia, fazem a experiência de ser pessoalmente amados por Deus. O serviço dos leigos, que guiam estas comunidades, deve ser estimado e promovido, pois eles prestam um serviço missionário ao qual todos os baptizados são chamados.

 

Proposição 22

Palavra de Deus e leitura orante

 

O Sínodo propõe que se exorte todos os fiéis, incluindo os jovens, a aproximar-se das Escrituras através de uma “leitura orante” e assídua (cf. DV 25), de tal modo que o diálogo com Deus chegue a ser uma realidade quotidiana do povo de Deus.

Por isso é importante:

 –    que se relacione profundamente a leitura orante com o exemplo de Maria e dos Santos na história da Igreja, que concretizaram a leitura da Palavra segundo o Espírito;

 –    que se recorra a especialistas na matéria;

 –    que se assegure que os pastores, sacerdotes e diáconos, e de modo particular os futuros sacerdotes, tenham uma formação adequada para que possam, por sua vez, formar o povo de Deus nesta dinâmica espiritual;

 –    que os fiéis sejam iniciados segundo as circunstâncias, as categorias e as culturas no método mais apropriado de leitura orante, pessoal e/ou comunitária (Lectio divina, exercícios espirituais na vida quotidiana, “Seven Steps” na África e noutros lugares, diversos métodos de oração, partilha na família e nas comunidades eclesiais de base, etc.);

 –    que se encoraje a prática da leitura orante feita com os textos litúrgicos que a Igreja propõe para a celebração eucarística dominical e quotidiana, para melhor compreender a relação entre Palavra e Eucaristia;

 –    que se vele para que a leitura orante, sobretudo comunitária, das Escrituras desemboque num compromisso de caridade (cf. Lc 4, 18-19).

Conscientes da ampla difusão actual da Lectio divina e de outros métodos análogos, os padres sinodais vêem nisso um verdadeiro sinal de esperança e encorajam todos os responsáveis eclesiais a multiplicar os esforços nesse sentido.

 

Proposição 23

Catequese e Sagrada Escritura

 

A catequese deve enraizar-se, de preferência, na revelação cristã. Deve tomar como modelo a pedagogia de Jesus no caminho de Emaús.

Na estrada de Emaús, Jesus abre o coração dos discípulos ao entendimento das Escrituras (cf. Lc 24, 27). O seu procedimento mostra que a catequese que mergulha as suas raízes na Revelação cristã supõe a explicação das Escrituras. Isto convida-nos também a aproximarmo-nos dos homens de hoje para transmitir-lhes o evangelho da salvação:

 –    com uma especial atenção às crianças mais pequenas;

 –    àqueles que têm necessidade de uma formação mais aprofundada que se enraíze nas Escrituras;

 –    aos catecúmenos que é preciso acompanhar no seu caminho, mostrando-lhes o plano de Deus através da leitura da Sagrada Escritura, preparando-os para encontrarem o Senhor nos sacramentos de iniciação cristã, para se empenharem na comunidade e serem missionários.

O catecumenato pré-baptismal deve ser seguido de uma mistagogia pós-baptismal, uma formação continuada na qual a Sagrada Escritura e o Catecismo da Igreja Católica devem ocupar o lugar central.

 

Proposição 24

Palavra de Deus e Vida Consagrada

 

A Vida Consagrada nasce da escuta da Palavra de Deus e acolhe o Evangelho como sua norma de vida. Na escola da Palavra, redescobre continuamente a sua identidade e converte-se em “evangelica testificatio” para a Igreja e para o mundo. Chamada a ser “exegese” viva da Palavra de Deus (Bento XVI, 02 de Fevereiro de 2008), ela própria é uma palavra com a qual Deus continua a falar à sua Igreja e ao mundo. 

O Sínodo agradece às pessoas consagradas pelo seu testemunho do Evangelho e pela sua disponibilidade para o proclamar nas fronteiras geográficas e culturais da missão através dos seus diversos serviços carismáticos. Exorta-as, ao mesmo tempo, a cuidar dos espaços pessoais e comunitários de escuta da Palavra de Deus e a promover escolas de oração bíblica abertas aos leigos, sobretudo aos jovens. Que as pessoas consagradas saibam escutar a Palavra de Deus com coração de pobres e expressem a sua resposta no empenho pela justiça, pela paz e pela integridade da criação.

O Sínodo sublinha a importância da vida contemplativa e o seu valioso contributo para a tradição da Lectio divina. As comunidades monásticas são escolas de espiritualidade e reforçam a vida das Igrejas particulares. “O mosteiro, como oásis espiritual, indica ao mundo de hoje o que é mais importante, aliás, a única coisa decisiva: existe uma razão última pela qual vale a pena viver, isto é, Deus e o seu amor imperscrutável” (Bento XVI, Angelus, 18 de Novembro de 2007).

Na vida contemplativa, a Palavra é acolhida, rezada e celebrada. Deve-se, portanto, velar para que estas comunidades recebam a formação bíblica e teológica adequada à sua vida e missão.

 

Proposição 25

Necessidade de dois níveis na investigação exegética

 

Continua a ser de grande actualidade e eficácia a hermenêutica bíblica proposta em Dei Verbum 12, que, para um adequado trabalho exegético, prevê dois níveis metodológicos, distintos e correlativos.

O primeiro nível corresponde, efectivamente, ao chamado método histórico-crítico que, na investigação moderna e contemporânea, foi muitas vezes utilizado com bom resultado e que entrou no campo católico sobretudo a partir da encíclica Divino Afflante Spiritu do servo de Deus Pio XII. Este método torna-se necessário pela própria natureza da história da salvação, que não é numa mitologia mas uma história verdadeira, que tem o seu ponto culminante na incarnação do Verbo, divino e eterno, que veio habitar no tempo dos homens (cf. Jo 1, 14). A Bíblia e a história da salvação exigem, portanto, ser estudadas também com os métodos da investigação histórica séria.

O segundo nível metodológico, necessário para uma interpretação correcta das Sagradas Escrituras, corresponde à natureza igualmente divina das palavras humanas bíblicas. O Concílio Ecuménico Vaticano II recorda justamente que a Bíblia deve ser interpretada com o auxílio do mesmo Espírito que conduziu o processo da sua redacção.

A hermenêutica bíblica não pode considerar-se completa se – ao lado do estudo histórico dos textos – não procura também, de maneira adequada, a sua dimensão teológica. A Dei Verbum identifica e apresenta três pontos de referência decisivos para chegar à dimensão divina e, portanto, ao sentido teológico das Sagradas Escrituras. Trata-se do conteúdo e da unidade de toda a Escritura, da tradição viva de toda a Igreja e, finalmente, da atenção à analogia da fé. “Só quando se observam os dois níveis metodológicos, o histórico-crítico e o teológico, se pode falar de uma exegese teológica, uma exegese adequada a este livro” (Bento XVI, 14 de Outubro de 2008).

 

Proposição 26

Ampliar a perspectiva do estudo exegético actual

 

O fruto positivo trazido pelo uso da investigação histórico-crítica moderna é inegável; ao mesmo tempo, contudo, é necessário ver o estado dos estudos exegéticos actuais com um olhar atento também às dificuldades. A actual exegese académica, nomeadamente a católica, trabalha a um nível muito alto no que diz respeito ao método histórico-crítico, inclusive com as suas felizes e mais recentes integrações (cf. Pontifícia Comissão Bíblica, A interpretação da Bíblia na Igreja), mas não se pode dizer o mesmo sobre o estudo da dimensão teológica dos textos bíblicos. Infelizmente, o nível teológico indicado pelos três elementos da Dei Verbum 12 está, muito frequentemente, quase ausente.

A primeira consequência de tal ausência é que a Bíblia se converte para os leitores actuais num mero livro do passado, incapaz já de falar ao nosso hoje. Nestas condições, a exegese bíblica corre o risco de se converter em pura historiografia e em história da literatura.

A segunda consequência, talvez ainda mais grave, é o desaparecimento da hermenêutica da fé indicada pela Dei Verbum. Em lugar da hermenêutica crente, insinua-se então, de facto, uma hermenêutica positivista e secularista que nega a possibilidade da presença do divino e o acesso ao divino na história do homem.

Os padres sinodais, ao mesmo tempo que agradecem aos muitos exegetas e teólogos que deram e continuam a dar uma ajuda essencial na descoberta do sentido profundo da Escritura, pedem a todos um empenho acrescido para que se alcance com mais força e clareza o nível teológico da interpretação bíblica.

Para conseguir verdadeiramente fazer crescer esse amor pelas Escrituras, como o desejava o Concílio, será necessário aplicar com maior cuidado os princípios indicados de forma exaustiva e clara pela Dei Verbum.

 

 

 

 

Proposição 27

Superar o dualismo entre exegese e teologia

 

Para a vida e a missão da Igreja e para o futuro da fé dentro das culturas contemporâneas, é necessário superar o dualismo entre exegese e teologia. Infelizmente não é raro, mesmo nos níveis académicos mais elevados, que se faça uma estéril separação entre exegese e teologia.

Uma consequência preocupante desta realidade é a incerteza e a pouca solidez que caracterizam o caminho da formação intelectual, inclusive de alguns futuros candidatos aos ministérios eclesiais. A teologia bíblica e a teologia sistemática são duas dimensões daquela realidade única a que chamamos teologia.

Portanto, os padres sinodais dirigem com estima um apelo, tanto aos teólogos como aos exegetas, para que, com uma colaboração mais clara e harmoniosa, não deixem faltar a força das Escrituras à teologia contemporânea, e não reduzam o estudo das Escrituras à dimensão historiográfica dos textos inspirados.

“Quando a exegese não é teologia, a Escritura não pode ser a alma da teologia, e vice-versa; quando a teologia não é essencialmente interpretação da Escritura na Igreja, esta teologia perde o seu fundamento” (Bento XVI, 14 de Outubro de 2008).

 

Proposição 28

Diálogo entre exegetas, teólogos e pastores

 

Pede-se às Conferências Episcopais que favoreçam com regularidade encontros entre pastores, teólogos e exegetas para promover uma maior comunhão no serviço à Palavra de Deus.

Desejamos que os exegetas e teólogos possam partilhar cada vez mais os frutos da sua ciência para o incremento da fé e a edificação do Povo de Deus, tendo sempre presentes as dimensões características da interpretação católica da Bíblia (cf. Pontifícia Comissão Bíblica, A interpretação da Bíblia na Igreja, III).

 

Proposição 29

Dificuldade da leitura do Antigo Testamento

 

Por vezes surgem dificuldades na leitura do Antigo Testamento, por causa de textos que contêm elementos de violência, injustiça, imoralidade e escassa exemplaridade, inclusive em figuras bíblicas importantes.

Requer-se, por isso, uma adequada preparação dos fiéis para a leitura destas páginas, bem como uma formação que permita ler os textos no seu enquadramento histórico e literário, de modo que se favoreça uma leitura cristã. A chave hermenêutica central desta leitura cristã é o Evangelho e o mandamento novo de Jesus Cristo que se cumpriu no mistério pascal. Recomenda-se, pois, que não se descure a leitura do Antigo Testamento que, apesar de algumas dificuldades, é essencial para a compreensão plena da história da salvação (cf. DV 15).

 

Proposição 30

Pastoral bíblica

 

A Dei Verbum exorta a fazer da Palavra de Deus não apenas a alma da teologia mas também a alma de toda a pastoral, da vida e da missão da Igreja (cf. DV 24). Os Bispos devem ser os primeiros promotores desta dinâmica nas suas dioceses. Para anunciar a Palavra, para a anunciar de maneira credível, o Bispo deve nutrir-se, ele em primeiro lugar, da Palavra de Deus, de forma que possa sustentar e tornar cada vez mais fecundo o seu próprio ministério episcopal. O Sínodo recomenda que se intensifique a “pastoral bíblica”, não justapondo-a a outras formas de pastoral mas como animação bíblica de toda a pastoral.

Guiados pelos seus pastores, todos os baptizados participam da missão da Igreja. Os padres sinodais desejam expressar a mais viva estima e gratidão, e encorajam o serviço à evangelização que tantos leigos, em especial mulheres, oferecem com generosidade e empenho nas comunidades espalhadas pelo mundo, a exemplo de Maria de Magdala, primeira testemunha da alegria pascal.

 

 

Proposição 31

Palavra de Deus e presbíteros

 

A Palavra de Deus é indispensável para formar o coração de um bom pastor, ministro da Palavra. A tal propósito, a Pastores dabo vobis recorda: “O sacerdote deve ser o primeiro ‘crente’ da Palavra, com a plena consciência de que as palavras do seu ministério não são suas, mas d’Aquele que o enviou. Desta Palavra ele não é dono, mas servo. Desta Palavra ele não é o único possuidor: é devedor relativamente ao Povo de Deus (João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Pastores Dabo Vobis, 26). Os sacerdotes e, em especial os párocos, são chamados a alimentar-se cada dia das Sagradas Escrituras e a comunicá-las com sabedoria e generosidade aos fiéis confiados aos seus cuidados.

 

Proposição 32

Formação dos candidatos à sagrada ordem

 

Os candidatos ao sacerdócio devem aprender a amar a Palavra de Deus. Que a Escritura seja, portanto, a alma da sua formação teológica, sublinhando a indispensável circularidade entre exegese, teologia, espiritualidade e missão. A formação dos sacerdotes deve, pois, incluir múltiplas aproximações à Escritura:

 –    A leitura orante, em especial a Lectio Divina, tanto pessoal como comunitária, no quadro de uma primeira leitura da Bíblia. Será preciso prossegui-la durante todo o itinerário da formação, tendo em conta o que a Igreja dispõe a propósito de incluir retiros e exercícios espirituais na educação dos seminaristas.

 –    Alimentar-se assiduamente da Palavra de Deus, também através da riqueza do Ofício Divino.

 –    A descoberta da exegese nos seus diversos métodos. É necessário um estudo preciso e amplo das regras hermenêuticas, para superar o risco de uma interpretação arbitrária. Os métodos de exegese devem ser compreendidos de maneira apropriada, com as suas possibilidades e limites, permitindo uma compreensão correcta e fecunda da Palavra de Deus.

 –    O conhecimento da história do que a leitura das Escrituras produziu nos Padres da Igreja, nos Santos, nos Doutores e nos Mestres de espiritualidade, até aos nossos dias.

 –    A intensificação, durante os anos de seminário, da formação para a pregação, e a vigilância sobre a formação permanente durante o exercício do ministério, de modo que a homilia possa interpelar aqueles que a escutam (cf. Act 2, 37).

 –    Paralelamente à formação no seminário, convidar-se-á os futuros padres a participar em encontros com grupos ou associações de leigos, reunidos à volta da Palavra de Deus. Estes encontros, mantidos ao longo de um lapso de tempo suficientemente largo, favorecerão nos futuros ministros a experiência e o gosto pela escuta daquilo que o Espírito Santo suscita nos crentes reunidos como Igreja, sejam eles pequenos ou grandes.

Não se deve descurar um estudo sério da filosofia, que permitirá avaliar claramente os pressupostos e as implicações contidas nas diversas hermenêuticas aplicadas ao estudo da Bíblia (cf. Optatam totius, 15).

A este propósito, espera-se que nas faculdades de filosofia se desenvolva e ensine um pensamento filosófico e cultural (arte e música) aberto à transcendência, de modo que os discípulos possam escutar e compreender melhor a Palavra de Deus, a única que pode preencher os desejos do coração humano (cf. Fides et Ratio, 83).

Deseja-se uma renovação dos programas académicos (cf. João Paulo II, Constituição apostólica Sapientia Christiana), a fim de que o estudo sistemático da teologia apareça melhor à luz da Sagrada Escritura. Além disso, a revisão dos cursos nos seminários e nas casas de formação deverá atender a que a Palavra de Deus tenha o lugar devido nas diversas dimensões da formação.

 

Proposição 33

Formação bíblica dos cristãos

 

O amor à Bíblia é uma graça do Espírito Santo que impregna toda a vida do crente. É necessário formar os cristãos no sentido de apreciarem este dom de Deus: “Se conhecesses o dom de Deus…” (Jo 4, 10), diz o Senhor.

Espera-se, portanto, que em cada região cultural sejam estabelecidos centros de formação para os leigos e para os missionários da Palavra, onde se aprenda a compreender, viver e anunciar a Palavra de Deus. Além disso, segundo as diversas necessidades, é necessário que se criem institutos especializados em estudos bíblicos para exegetas, a fim de que estes tenham uma sólida compreensão teológica e que sejam sensíveis aos contextos da sua missão. Isto pode ser também concretizado voltando a examinar ou reforçando as estruturas já existentes, como os seminários ou as faculdades.

Finalmente, é necessário oferecer uma adequada formação em línguas bíblicas às pessoas que traduzirão a Bíblia nas diversas línguas modernas.

 

Proposição 34

Animação bíblica e jovens

 

Do mesmo modo que Jesus convidou um jovem a segui-l’O, é necessário propor hoje o mesmo convite às crianças, adolescentes e jovens, a fim de que elas possam encontrar a resposta à sua procura na palavra do Senhor Jesus. Na animação bíblica da pastoral da juventude, ter-se-á em conta o convite de Bento XVI: “Queridos jovens, exorto-vos a adquirir familiaridade com a Bíblia, a conservá-la ao alcance da mão, a fim de que ela seja para vós uma bússola que indica o caminho a seguir” (Mensagem para a XXI Jornada Mundial da Juventude, 09 de Abril de 2006). Deseja-se que a Escritura seja apresentada nas suas implicações vocacionais, a fim de ajudar e orientar muitos jovens nas suas escolhas vocacionais, inclusive até à consagração total. Que as gerações mais jovens sejam acolhidas, escutadas e acompanhadas com amor pela comunidade cristã, de modo que sejam iniciadas no conhecimento das Escrituras por educadores que sejam verdadeiras testemunhas apaixonadas da Palavra de Deus. Deste modo, também os jovens são levados a amar e a transmitir o Evangelho, nomeadamente aos outros jovens da sua idade.

 

Proposição 35

Bíblia e pastoral da saúde

 

Jesus, durante a sua vida, cuidou e sarou os doentes e mostrou, neste seu serviço, um sinal da presença do Reino de Deus (cf. Lc 7, 22). As Escrituras continuam, ainda hoje, a oferecer aos doentes e a todos aqueles que sofrem uma palavra de consolo e de encorajamento, e mesmo de cura espiritual e física. A oração dos Salmos chega ao mais profundo da pessoa e oferece a cada um as próprias palavras de Deus para exprimir o próprio sofrimento e também a própria esperança. Portanto, os padres sinodais exortam todos aqueles que estão em contacto com pessoas afligidas por toda a espécie de males, a que lhes levem, com humildade mas também com audácia, a Palavra vivificante do Senhor Jesus, tanto na Escritura como na Eucaristia. Também hoje é indispensável que a Palavra de Deus inspire toda a pastoral da saúde, levando os doentes a descobrir, através da fé, que o seu sofrimento os torna capazes de participar no sofrimento redentor de Cristo (cf. 2 Cor 4, 8-11. 14).

 

Proposição 36

Sagrada Escritura e unidade dos cristãos

 

A Bíblia é verdadeiramente um lugar privilegiado de encontro entre as diversas Igrejas e comunidades eclesiais. Escutar em conjunto as Escrituras faz-nos viver uma comunhão real, mesmo se essa comunhão não é plena (cf. Relatio post disceptationem 36).

“Escutar juntos a Palavra de Deus, praticar a Lectio divina da Bíblia (…) é um caminho a percorrer para alcançar a unidade da fé, como resposta à escuta da Palavra” (Discurso de Bento XVI, 25 de Janeiro de 2007). A escuta comum das Escrituras empurra-nos para o diálogo da caridade e faz crescer o da verdade. A compreensão do sujeito autorizado da interpretação na Igreja (especialmente o Magistério) continua a ser uma questão ecuménica aberta; assim, deve intensificar-se o estudo e a investigação bíblica comum. Do mesmo modo, é necessário intensificar o empenho comum nas traduções e na difusão da Bíblia, assim como as celebrações inter-confessionais da escuta da Palavra de Deus.

 

 

 

Proposição 37

Presença de Sua Santidade Bartolomeu I

 

Os padres sinodais dão graças a Deus pela presença e pelas intervenções dos delegados fraternos, representantes de outras Igrejas e comunidades eclesiais, e de modo especial pela oração de Vésperas presidida pelo Santo Padre Bento XVI, juntamente com sua Santidade Bartolomeu I, patriarca ecuménico de Constantinopla. As palavras do patriarca ecuménico dirigidas aos padres sinodais permitiram experimentar uma profunda alegria espiritual e fazer uma experiência viva de comunhão real e profunda, mesmo se essa comunhão não é ainda perfeita; nessas palavras apreciámos a beleza da Palavra de Deus, lida à luz da Sagrada Liturgia e dos Padres, uma leitura espiritual fortemente contextualizada no nosso tempo.

Dessa forma vimos que, indo ao coração da Sagrada Escritura, encontramos realmente a Palavra nas palavras, a qual abre os olhos dos fiéis para responder aos desafios do mundo actual. Por outro lado, partilhamos a feliz experiência de ter no Oriente e no Ocidente Padres comuns. Que este encontro se converta em estímulo para ulteriores testemunhos de comunhão na escuta da Palavra de Deus e de oração fervente ao único Senhor, a fim de que se realize quanto antes a oração de Jesus: “Ut omnes unum sint” (Jo 17, 20).

 

 

 

Terceira Parte

A Palavra de Deus na missão da Igreja

 

 

Proposição 38

Dever missionário de todos os baptizados

 

A missão de anunciar a Palavra de Deus é dever de todos os discípulos de Jesus, como consequência do seu baptismo. Esta consciência deve ser aprofundada em cada paróquia, comunidade e organização católica; devem propor-se iniciativas que façam chegar a todos a Palavra de Deus, especialmente aos irmãos baptizados mas ainda não suficientemente evangelizados. Dado que a Palavra de Deus se fez carne para comunicar-se aos homens, um modo privilegiado para a conhecer é através do encontro com as testemunhas que a tornam presente e viva.

Através dos seus carismas e das suas experiências, os institutos missionários trazem uma particular contribuição à missão. Por outro lado, a realidade dos novos movimentos eclesiais é uma riqueza extraordinária da força evangelizadora da Igreja neste tempo, incitando a Igreja a desenvolver novas formas de anúncio do Evangelho. Os leigos são chamados a redescobrir a responsabilidade de exercer o seu dever profético, que resulta directamente do baptismo, e testemunhar o Evangelho na vida quotidiana: em casa, no trabalho e onde quer que se encontrem. Este testemunho leva frequentemente à perseguição dos que são fiéis à causa do Evangelho. O Sínodo apela aos responsáveis pela vida pública, a fim de que garantam a liberdade religiosa.

É necessário, por outro lado, abrir itinerários de iniciação cristã que, através da escuta da Palavra, da celebração da Eucaristia e do amor fraterno vivido em comunidade, possam conduzir a uma fé sempre mais adulta. É preciso considerar os novos desafios colocados pela mobilidade e pelo fenómeno migratório, que abrem novas perspectivas de evangelização, porque os imigrantes não têm apenas necessidade de ser evangelizados, mas podem eles próprios tornar-se agentes da evangelização.

 

Proposição 39

Palavra de Deus e compromisso no mundo

 

A Palavra de Deus, contida nas Sagradas Escrituras e na Tradição viva da Igreja, ajuda a mente e o coração dos homens a compreender e a amar todas as realidades humanas e a criação. Ajuda, efectivamente, a reconhecer os sinais de Deus em todos os esforços do homem comprometido em construir um mundo mais justo e mais habitável; ajuda a identificar os “sinais dos tempos” presentes na história; leva os crentes a comprometer-se em favor daqueles que sofrem e que são vítimas das injustiças. A luta pela justiça e pela transformação é parte integrante da evangelização (cf. Evangelii Nuntiandi, 19).

Os padres sinodais dirigem um pensamento especial a todos aqueles que, enquanto crentes, estão empenhados na vida política e social. Desejam que a Palavra de Deus possa sustentar formas de testemunho, bem como inspirar a sua acção no mundo, na busca do verdadeiro bem de todos e no respeito pela dignidade de todas as pessoas. É necessário, portanto, que eles sejam preparados através de uma adequada educação segundo os princípios da Doutrina Social da Igreja.

 

Proposição 40

Palavra de Deus e arte litúrgica

 

A grande tradição do Oriente e do Ocidente sempre estimou todas as expressões artísticas, de modo específico as imagens sagradas, inspiradas na Sagrada Escritura. Apreciamos todos os artistas enamorados pela beleza: poetas, homens de letras, pintores, escultores, músicos, gente do teatro e do cinema. Eles contribuíram para a decoração das nossas igrejas, para as celebrações da nossa fé, para o enriquecimento da nossa liturgia e, ao mesmo tempo, muitos deles ajudaram a tornar perceptível o mundo invisível e a traduzir a mensagem divina na linguagem das formas e das figuras. Por tudo isto, este Sínodo manifesta-lhes profunda gratidão.

É preciso suscitar em cada área da cultura uma nova época, em que a arte possa reencontrar a inspiração bíblica e ser um instrumento capaz de proclamar, cantar, e fazer contemplar a manifestação da Palavra de Deus.

Aquando da construção das igrejas, os Bispos, devidamente ajudados, devem estar atentos para que estas sejam lugares adequados para a proclamação da Palavra, a meditação e a celebração eucarística. Os espaços sagrados, mesmo fora da acção litúrgica, sejam eloquentes, apresentando o mistério cristão relacionado com a Palavra de Deus.

 

Proposição 41

Palavra de Deus e cultura

 

A Palavra de Deus está destinada a toda a humanidade. É preciso reconhecer que, ao longo dos séculos, ela inspirou as diversas culturas, gerando valores morais fundamentais, expressões artísticas excelentes e estilos de vida exemplares. De facto, na Palavra de Deus encontram-se diversas instâncias que podem ajudar, tanto a ciência na sua descoberta de conquistas sempre novas, como o incremento do diálogo com todos aqueles que partilham a mesma fé. Os padres sinodais desejam, portanto, um diálogo entre a Bíblia e a cultura, sobretudo face às diversas procuras de sentido presentes no nosso tempo, de modo que nela encontrem a resposta definitiva à sua busca.

Convém organizar grupos de leitura bíblica, também nos ambientes secularizados ou entre os não crentes, como caminho para abrir a sociedade a Deus, mediante a Palavra da Bíblia.

 

Proposição 42

Bíblia e tradução

 

O Sínodo recomenda que, em culturas afins e em regiões linguísticas similares, se aprove e use a mesma tradução da Bíblia, tanto no uso litúrgico como no privado.

Muitas Igrejas espalhadas pelo mundo estão ainda privadas de Bíblias traduzidas nas suas línguas locais. Por isso, é importante, antes de mais, a formação de especialistas que se dediquem às diversas traduções da Bíblia.

 

Proposição 43

Bíblia e difusão

 

O Sínodo deseja recordar o quanto é necessário que todos os fiéis possam aceder com facilidade à leitura dos textos sagrados. Juntamente com isto, pede-se uma mobilização geral para que o texto sagrado se difunda o mais possível e com todos os instrumentos à disposição que as modernas tecnologias oferecem, sobretudo para as pessoas com capacidades diferentes, às quais se dirige a nossa atenção preferencial.

Tal empenho requer uma excepcional forma de colaboração entre as Igrejas, de modo que quantas dispõem de mais meios sejam mais solidários para ir ao encontro das necessidades das Igrejas que têm mais dificuldades. Os padres sinodais recomendam que se apoie o esforço da Federação Bíblica Católica, no sentido de proporcionar um acesso amplo à Sagrada Escritura (cf. DV 22) e que se incremente ulteriormente o número de traduções da Sagrada Escritura e a sua difusão capilar. Que isto seja feito em colaboração com as diversas Sociedades Bíblicas.

 

Proposição 44

Meios de comunicação social

 

O Sínodo sublinha a importância dos meios e das linguagens da comunicação para a evangelização.

O anúncio da Boa Nova encontra uma nova amplitude na comunicação actual, caracterizada pela interacção entre os media.

A Igreja é chamada não apenas a difundir a Palavra de Deus através dos media, mas também e sobretudo a integrar a mensagem de salvação na nova cultura que a comunicação cria e amplifica.

O novo contexto da comunicação consente que multipliquemos os modos de proclamação e de aprofundamento da Sagrada Escritura. Esta, com a sua riqueza, exige poder alcançar todas as comunidades, chegando às mais afastadas também através destes novos instrumentos.

Recomenda-se que se conheçam bem os meios de comunicação, que se acompanhe a sua mudança veloz e se invista mais na comunicação, através dos diferentes instrumentos que se nos oferecem, como a televisão, a rádio, os jornais, a internet… São, em cada caso, formas que podem facilitar o exercício da escuta obediente da Palavra de Deus. É necessário preparar católicos, convictos e competentes, no campo da comunicação social.

 

Proposição 45

Palavra de Deus e Congresso mundial

 

Nestes tempos multiplicam-se as reuniões de carácter mundial; não se considera oportuno, portanto, instituir um Congresso específico sobre a Palavra de Deus. É importante, contudo, que em tais reuniões se dedique maior espaço ao estudo e à celebração da Palavra de Deus. As Conferências Episcopais são convidadas a apoiar e a promover jornadas com a finalidade de difundir a Bíblia.

 

Proposição 46

Leitura crente das Escrituras: historicidade e fundamentalismo

 

A leitura crente da Sagrada Escritura, praticada desde a antiguidade na Tradição da Igreja, procura a verdade que salva, para a vida de cada fiel e para a Igreja. Esta leitura reconhece o valor histórico da tradição bíblica. É precisamente por causa deste valor de testemunho histórico que se procura redescobrir o significado vivo das Sagradas Escrituras, destinadas também à vida do crente de hoje.

Uma tal leitura da Escritura diferencia-se das “interpretações fundamentalistas” que ignoram a mediação humana do texto inspirado e os seus géneros literários. O crente, para usar com proveito a Lectio divina, deve ser educado a “não confundir inconscientemente os limites humanos da mensagem bíblica com a substância divina dessa mesma mensagem” (cf. Pontifícia Comissão Bíblica, A interpretação da Bíblia na Igreja, I F).

 

Proposição 47

A Bíblia e o fenómeno das seitas

 

Experimentamos uma profunda preocupação pelo crescimento e mutação do fenómeno das seitas. De facto, as seitas de diferentes origens parecem oferecer uma experiência da proximidade de Deus na vida da pessoa e prometem uma felicidade ilusória por intermédio da Bíblia, frequentemente interpretada de maneira fundamentalista. Propomos:

 –    mediante uma correcta hermenêutica vital das páginas bíblicas, intensificar a actividade pastoral, para proporcionar o alimento da Palavra aos fiéis que o procuram;

 –    aprender a partir da rica experiência dos primeiros séculos da Igreja, que conheceram também fenómenos análogos (cf. 1 Jo 2, 19; 4, 2-3);

 –    conhecer melhor as características peculiares, as causas e os promotores das seitas, tal como se apresentam hoje;

 –    ajudar os fiéis a distinguir bem a Palavra de Deus das revelações privadas;

 –    encorajar os grupos de partilha e de meditação, para combater a atracção das seitas e do fundamentalismo.

É necessário que os sacerdotes estejam preparados de forma adequada para fazer face a essas novas situações, e que sejam capazes de propor uma animação bíblica da pastoral, adaptada aos problemas sentidos pelas pessoas de hoje.

Pedimos à Santa Sé que estude, em colaboração com as Conferências Episcopais e as estruturas competentes das Igrejas católicas orientais, o fenómeno das seitas na sua dimensão mundial e nas suas repercussões também locais.

 

Proposição 48

Bíblia e inculturação

 

A Revelação constituiu-se tomando das diversas culturas humanas os valores autênticos susceptíveis de exprimir a verdade que, para nossa salvação, Deus comunicou aos homens (cf. Dei Verbum 11). De facto, a Palavra de Deus, enquanto Revelação, impregnou nas culturas o conhecimento da verdade que, de outra forma, seria desconhecida e criou o progresso e o desenvolvimento cultural. O mandato que o Senhor dá à Igreja de anunciar o Evangelho a todas as criaturas (cf. Mc 16, 15) implica o encontro da Palavra de Deus com todos os povos da terra e as suas culturas. Isto supõe o mesmo processo de inculturação da Palavra de Deus que se produziu com a Revelação. Assim, a Palavra de Deus deve penetrar em todos os ambientes, de modo que a cultura produza expressões originais de vida, de liturgia, de pensamento cristão (cf. CT 53). Isto acontece quando a Palavra de Deus, proposta a uma cultura, “fecunda como que por dentro, as qualidades do espírito e os dotes de cada povo e de cada tempo, (…) fortifica-os, aperfeiçoa-os e restaura-os em Cristo” (GS 58), suscitando assim novas expressões de vida cristã.

Para uma inculturação autêntica da mensagem evangélica, deve-se assegurar uma formação dos missionários com meios adequados, para que conheçam em profundidade o ambiente vital e as condições sócio-culturais, de tal forma que possam inserir-se no ambiente, na língua e nas culturas locais. Compete, em primeiro lugar, à Igreja local conseguir uma inculturação autêntica da mensagem evangélica, naturalmente prestando atenção ao risco do sincretismo. A qualidade da inculturação depende do nível de maturidade da comunidade encarregada da evangelização.

 

Proposição 49

Missio ad gentes

 

A Palavra de Deus é um bem para todos os homens, um bem que a Igreja não deve conservar apenas para si própria, mas que deve partilhar com alegria e generosidade com todos os povos e com todas as culturas, a fim de que todos possam encontrar em Jesus Cristo o caminho, a verdade e a vida (cf. Jo 14, 6).

Contemplando o exemplo de São Paulo, dos apóstolos e de tantos missionários que, ao longo da história da Igreja, levaram o Evangelho aos povos, este Sínodo reafirma a urgência da missão “ad gentes”, também no nosso tempo. Um anúncio que deve ser explícito, feito não apenas no interior das nossas igrejas, mas em todo o lado, e que deve ser acompanhado pelo testemunho coerente de vida, um testemunho que põe em evidência o conteúdo do anúncio e o reforça.

Bispos, sacerdotes, diáconos, pessoas consagradas e leigos devem estar próximos também das pessoas que não participam na liturgia e não frequentam as nossas comunidades. A Igreja deve ir ao encontro de todos com a força do Espírito (cf. 1 Cor 2, 5) e continuar profeticamente a defender o direito e a liberdade de as pessoas escutarem a Palavra de Deus, procurando os meios mais eficazes para proclamar essa Palavra, mesmo correndo o risco da perseguição.

 

 

Proposição 50

Bíblia e diálogo inter-religioso

 

O diálogo com as religiões não cristãs representa um momento significativo na vida da Igreja e no diálogo com os homens. Os monoteísmos, as religiões tradicionais de África e da Austrália, as antigas tradições espirituais da Ásia, contêm valores de respeito e de colaboração que podem favorecer grandemente a compreensão entre as pessoas e as sociedades. As linhas directrizes desse diálogo são fornecidas pela Declaração Nostra aetate do Concílio Ecuménico Vaticano II. O Sínodo recorda igualmente a necessidade de que seja efectivamente assegurada a todos os crentes, a liberdade de professar a sua própria religião em privado e em público, bem como a liberdade de consciência.

 

Proposição 51

Terra Santa

 

Paulo VI chamou à Terra Santa o “Quinto Evangelho”. O Sínodo recomenda as peregrinações e, a ser possível, o estudo das Sagradas Escrituras na Terra Santa e nos passos de São Paulo. Os peregrinos e os estudantes poderão, através desta experiência, compreender melhor o ambiente físico e geográfico das Escrituras e, especialmente, a relação entre os dois Testamentos. As pedras sobre as quais Jesus caminhou poderiam tornar-se, para eles, pedras da memória viva. Entretanto, os cristãos da Terra Santa necessitam da comunhão de todos os cristãos, especialmente nestes dias de conflito, de pobreza e de medo.

 

Proposição 52

Diálogo entre cristãos e judeus

 

O diálogo entre cristãos e judeus pertence à natureza da Igreja. Fiel às suas promessas, Deus não revoga a Antiga Aliança (cf. Rm 9 e 11). Jesus de Nazaré foi um judeu e a Terra Santa é a terra-mãe da Igreja. Cristãos e judeus partilham as Escrituras do Povo judeu, que os cristãos denominam Antigo Testamento. Na descendência de Abraão, judeus e cristãos podem ser uma fonte de bênção para a humanidade (cf. Gn 17, 4-5).

A compreensão judaica da Bíblia pode ajudar ao entendimento e ao estudo das Escrituras por parte dos cristãos.

A interpretação bíblica cristã funda-se na unidade dos dois Testamentos em Jesus, Palavra feita carne. Na sua Pessoa cumpre-se o sentido pleno das Escrituras, com continuidade e descontinuidade no que diz respeito aos livros inspirados do povo judeu.

Sugere-se às Conferências Episcopais que promovam encontros e diálogos entre judeus e cristãos.

 

Proposição 53

Diálogo entre cristãos e muçulmanos

 

“A Igreja também olha com estima os muçulmanos que adoram o único Deus” (NA 3). Estes reportam-se a Abraão e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum. O diálogo com eles permite conhecê-los melhor e colaborar na promoção de valores éticos e espirituais.

Neste diálogo, o Sínodo insiste na importância do respeito pela vida, pelos direitos humanos e pelos direitos da mulher, assim como na distinção entre a ordem sócio-política e a ordem religiosa na promoção da justiça e da paz no mundo. Um tema importante neste diálogo será também a reciprocidade e a liberdade de consciência e de religião.

Sugere-se às Conferências Episcopais nacionais, onde isso resulte profícuo, que promovam círculos de diálogo entre cristãos e muçulmanos.

 

Proposição 54

Dimensões cósmicas da Palavra de Deus e salvaguarda da criação

 

A Palavra de Deus comunica-nos a beleza de Deus através da beleza da criação e também através das imagens sagradas, como ícones do Verbo incarnado. São meios pelos quais o mistério invisível de Deus de torna de alguma maneira visível e perceptível aos nossos sentidos. Os Padres da Igreja, de resto, sempre afirmaram as dimensões cósmicas da Palavra de Deus que se faz carne; cada criatura transporta em si, num certo sentido, um sinal da Palavra de Deus. Em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, todas as coisas criadas encontram a sua recapitulação definitiva (cf. Ef 1, 10). Todas as coisas e as pessoas, portanto, são chamadas a ser boas e belas em Cristo.

Lamentavelmente, o homem do nosso tempo perdeu o hábito de contemplar a Palavra de Deus no mundo em que habita e que lhe foi dado por Deus. Por isso, a redescoberta da Palavra de Deus, em todas as suas dimensões, impulsiona-nos a denunciar todas as acções do homem contemporâneo que não respeitam a natureza como criação.

Acolher a Palavra de Deus testemunhada na Sagrada Escritura e na Tradição viva da Igreja gera um novo modo de ver as coisas, promovendo uma ecologia autêntica, que tem a sua raiz mais profunda na obediência da fé que acolhe a Palavra de Deus. Desejamos, portanto, que na acção pastoral da Igreja se intensifique o compromisso em favor da salvaguarda da criação, desenvolvendo uma renovada sensibilidade teológica sobre a bondade de todas as coisas criadas em Cristo, Palavra de Deus incarnada.

 

 

Conclusão

 

 

Proposição 55

Maria Mater Dei et Mater fidei

 

O Sínodo, que se propõe sobretudo renovar a fé da Igreja na Palavra de Deus, contempla Maria, a Virgem Mãe do Verbo Incarnado, que com o seu sim à Palavra da Aliança e à sua missão, cumpre perfeitamente a vocação divina da humanidade. Os Padres sinodais sugerem que se difunda entre os fiéis a oração do Angelus, memória quotidiana do Verbo Incarnado e do Rosário.

A Igreja do Novo Testamento vive onde a Palavra Incarnada é acolhida, amada e servida em plena disponibilidade ao Espírito Santo. A fé de Maria desenvolve-se no amor pelo qual ela acompanha o crescimento e a missão do Verbo Incarnado. Junto da cruz do Filho, a fé e o amor convertem-se em esperança com a qual Maria aceita converter-se em Mãe do discípulo amado e da humanidade redimida.

A atenção devota e amorosa à figura de Maria, como modelo e arquétipo da fé da Igreja, é de capital importância para se conseguir também hoje uma mudança concreta de paradigma na relação da Igreja com a Palavra, tanto na atitude de escuta orante como na generosidade do compromisso com a missão e com o anúncio.

Os padres sinodais, unidos ao Santo Padre na oração para que o Sínodo “possa levar frutos de autêntica renovação a cada comunidade cristã (Bento XVI, Angelus em Pompeia, 19 de Outubro de 2008), convidam os pastores e os fiéis a dirigir o olhar para Maria e a pedir ao Espírito Santo a graça de uma fé viva na Palavra de Deus que se fez carne.

 

 
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