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            A Mundialização e o Terceiro Milénio

            Ao contemplar a forma como a humanidade vive hoje, a conclusão que se tira é a de que a realização do homem, ao longo do terceiro milénio, dependerá da ética que presidir à mundialização. A marcha da globalização força os nossos contemporâneos a caminhar em ritmo acelerado. Duas realidades preocupam os observadores: o aumento da riqueza material e o empobrecimento da vida espiritual. A doutrina social da Igreja continua a vincar os valores perenes e a prevenir o homem de hoje para os perigos que corre.

            O essencial é recordar que os bens materiais se destinam a assegurar a felicidade do homem e a ajudar a humanidade a desenvolver as suas potencialidades espirituais. A preocupação da Igreja centra-se em que sejamos capazes de distinguir as prioridades, pois Jesus continua a dizer-nos hoje: “De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se aruína a própria vida ?” (Mc 8, 36). O Cardeal Tarcísio Bertone, sdb, secretário do Estado do Vaticano, no seu livro intitulado ‘A ética do bem comum na Doutrina social da Igreja’, escreve “É necessário não esquecer que os bens materiais não são uma condição indispensável à salvação, e adquiri-los não deve ser considerado um fim em si mesmo, a ponto de destruir a pessoa e os fundamentos da sociedade humana”[1]. É verdade que os bens terrestres não se tornarão espelho dos bens celestes, se os homens não se sacrificarem pelo essencial. Mas se o fizerem, eles podem converter a sociedade humana  numa realidade viva e e trazer a felicidade a cada pessoa.

            O correr dos tempos mostrou, segundo o Cardeal, que “os estados e os povos que negaram o valor da vida espiritual desapareceram da cena da história”[2]. E, neste  contexto, é importante recordar que as aspirações do homem e da sociedade humana estão orientadas para a vida eterna, que é o bem supremo. A harmonia entre o bem material e espiritual, em circunstâncias precisas, não constitui qualquer obstáculo, antes favorece a salvação do homem. Os estados e os povos que desapareceram ao longo da história viveram na indiferença: “ Quem me segue, não andará nas trevas, mas terá a luz que conduz à vida” (Jo 8,12c). O Papa João Paulo II, de feliz memória, dizia na sua encíclica ‘Redemptor Hominis’: “O homem é a primeira dimensão e preocupação fundamental da Igreja”[3]. É hora de fazer ver ao homem, pela voz da Igreja, que o futuro do terceiro milénio dependerá das suas opções e atitudes.

            É do nosso conhecimento que a mundialização impôs fronteiras à vida do homem de hoje. Quero aqui sublinhar a falta de abertura nas relações humanas e no domínio da solidariedade. Se os homens não mudam o seu comportamento, que será do terceiro milénio? Há progressos visíveis no campo da tecnologia. Mas os homens devem cultivar o sentido de uma coexistência harmoniosa, aberta e enriquecida pela pluralidade dos povos e das sociedades unidas. A mundialização é um factor muito marcado pela exploração do planeta. Como transformá-la na “paixão por Cristo e paixão pela humanidade?

            Assistimos a uma enorme crise de valores na forma como o homem de hoje vive. Se a mundialização continuar a avançar sem critérios de justiça e solidariedade, onde irá parar o nosso planeta, durante este terceiro milénio? É preciso que a globalização opte pelo progresso do homem, na sua total dimensão. Ela será vital, se alicerçada nas relações humanas. O momento actual deve pautar-se pela ética do bem comum e pelo ideal do Criador, a fim de delinear o futuro do terceiro milénio e tomar consciência de que ele depende da intervenção do homem. O Deus da Bíblia é Aquele que tornou o homem um ser responsável, amigo e guarda do seu irmão (cf. Gn 4, 9). O tempo é crucial, e evocamos aqui as palavras da profecia de São João (Jo 15, 4 -10), que programam o futuro feliz e próspero do Terceiro Milénio. Nesta passagem de João, a caridade ultrapassa as fronteiras da justiça e deve ter sempre a primazia, pois a doutrina social da Igreja aponta não só para uma ordem social justa, mas também para a eclosão da vida fraterna. O padre Efoé-Julien Penoukou, do Benim, dizia “O índice espiritual da humanidade revela-se na comunhão do amor, e a nossa experiência humana evidencia-se na carga de amor de que somos capazes”[4]. Este teólogo está convencido de que o dom da filiação divina, característico de todos os homens, desagua na tarefa de fabricar fraternidade entre os homens (cf. Ef. 1, 5). O cartaz da nossa visão humana e do nosso coração de irmãos manifesta-se no amor fraterno, que deve eliminar “o credo da globalização”, que é o materialismo.

            A antropologia africana sublinha a necessidade de o homem construir e se responsabilizar pela humanidade, investindo todas suas potencialidades materiais e espirituais, porque o universo sociocósmico é um processo em contínua construção. É necessário continuar a insistir que “A visão unitária africana do mundo e da história não autoriza ninguém a entregar ao material a prioridade sobre o espiritual”[5]. A dimensão espiritual representa sempre, nas sociedades africanas em mudança, um dos factores determinantes e predominantes do modo de ser homem. Por outras palavras, penso que a qualidade da humanidade e do indivíduo se pautam pela capacidade de utilizar o ter, para desenvolver o ser.

            Em suma, o africano sente que constantemente vive na órbita do seu Criador: é capaz de tornar eficazes e com sentido todas as suas acções, e de planear um futuro benéfico. É esta a tarefa que deve executar o homem no terceiro milénio: ser pontífice e construtor de relações. Assim, o desenvolvimento aparecerá menos como questão material e mais como um projecto de humanismo integral. A mundialização deve ser orientada pelas relações e pela solidariedade humana, para se tornar uma expressão “contextualizada” num mandamento novo, centro da ética cristã, na medida em que esse trabalho é a actualização existencial do mistério pascal (cf. Jn 10, 17- 18).   

Est. Silvestre


 

[1] Osservatore Romano, n° 39, 30 Set. 2008, p. 9.

[2] Ibid,

[3] Joao Paulo II, Redemptor Hominis, n° 13.

[4] PENOUKOU E-J., Eglises d’Afrique : propositions pour l’avenir, Paris, Karthala, 1984, p. 88. 

[5] Ibid, p. 91.

 
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