"Reflexão terra a Terra"

(P. José Correia e P. Pina Ribeiro)

 

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Quaresma, tempo de prova e de afirmação da graça de Deus

1. O deserto é ambivalente: sinal do essencial e do provisório; local da presença de Deus e da irrupção do mal; ponto de encontro com Deus, com os demais e connosco, mas também encruzilhada de extravio e infelicidade. Traduz a experiência fundamental da nossa vida: podemos prescindir de tudo, menos de Deus e dos outros.

2. O deserto foi um cadinho mútuo: Deus testou a fidelidade e a adesão pessoal do povo israelita, e este pôs à prova a credibilidade e o poder de Deus. Deus esforçou-se por conduzir pedagogicamente o seu povo: balizou-o entre a nuvem espessa (que visava demarcar as traseiras do acampamento e esconder o povo de Israel dos egípcios perseguidores, e também fazer com que ele não olhasse pelo espelho retrovisor nem fosse levado a suspirar pela antiga casa da escravidão) e a coluna de fogo (que seguia na dianteira e assinalava o caminho a percorrer até à terra da promessa).

3. Pouco a pouco, Israel apercebe-se de que a terra dos seus sonhos era árida e estava já habitada por povos estranhos. A verdadeira terra prometida era, afinal, o coração de Deus, que o libertara, o acompanhava e defendera: um coração onde corria o leite da misericórdia e o mel da ternura e da felicidade.

4. Os evangelistas estacionam as tentações no início da manifestação pública de Jesus, mas elas percorrem toda a sua vida. Ele rejeita outro caminho que não seja o traçado pela vontade do Pai (nem outro pão, nem outro poder, nem outro prestígio, nem outros sinais: só Deus).

5. Quando buscamos Deus a sério, tropeçamos normalmente no demónio. A sua oposição é sinal que de que caminhamos na direcção certa, de que prosseguimos em marcha acelerada rumo à santidade Há que acreditar mais em Deus do que na falsa força do intruso, o diabo. A vida da graça é bem mais aprazível que o pessimismo e a fatalidade do pecado. A maneira mais segura de resistirmos à tentação do mal é deixarmo-nos tentar e seduzir pelo contágio de Deus e da sua Palavra.

6. Há três meios clássicos de fazer penitência: a Oração (quebra-gelos que elimina a nossa resistência aos dons incómodos de Deus e nos dá a certeza de que Ele nunca nos nega a fala); o Jejum (que nos faz manter a elegância espiritual e viver do essencial do Evangelho) e a Esmola (exercício da caridade, que nos leva a dar o que temos dentro e até o que nos faz falta). Quando ingerimos antivalores, não só definhamos a nível espiritual, como acabamos por inutilizar irreparavelmente o ‘aparelho digestivo’ da nossa santidade.

 

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"Natal, oportunidade para fazer uma reforma administrativa"

Já que Deus, pelo Natal, parece ter desarrumado tudo e feito um investimento numa zona erma e desertificada (João Baptista prega no deserto e o povo vai atrás dele), bom seria, também nós, procedermos a algumas alterações significativas:

 1. Mude a capital do seu país

- Esteja atento e aposte mais nos seus arrabaldes, que são afinal o seu interior, o seu lado humano, a sua face oculta, o que tem de melhor. Houve reis de Portugal que deixaram Lisboa e viveram temporariamente em Coimbra, Viseu e Évora. E Jesus não nasceu em Jerusalém, mas nos arredores de Belém.

- É preciso povoar mais o nosso terreno maninho, potenciar qualidades e extirpar defeitos. Se continuamos a guiar-nos apenas por nós, corremos o risco de nos extraviarmos, como aconteceu com os Magos em Jerusalém, cidade capital do conhecimento e dos indecisos (veja-se Herodes e os doutores da lei).

 2. Aproveite o material reciclado

- O Natal é o tempo da terceira idade: Zacarias, Isabel, Simeão e Ana. São miraculados, que aprendem a distribuir bênçãos. Todos revalidam os prazos: Simeão estica a vida, para poder ver a Luz das nações; Ana, aos 84 anos, dedica-se a cantar os louvores de Deus e com voz estridente e limpinha. Nunca se é idoso, quando se espera por alguém, quando se vive para os outros, quando se estende os braços e os olhos para o Menino. Não obstante parecermos estéreis (caso de Isabel), o Espírito Santo já nos fecundou há muito tempo e levamos mais de seis meses de gestação na santidade. É preciso apoiar o processo revolucionário em curso.

- Deus utiliza aparentemente material antigo ou ainda não testado (vide caso de Nossa Senhora), jogadores que não estavam convocados nem tinham lugar no banco dos suplentes, e com eles faz maravilhas.

 3. Cresça e desapareça

Jesus crescia em estatura, sabedoria e graça, quando obedecia a seus pais na casa de Nazaré.

- A Igreja cresce, quando é discreta e não se anuncia a si mesma; quando não aposta no número dos fiéis, na força das estatísticas ou na concorrência e no seu prestígio, mas se pauta pela fidelidade a Jesus Cristo; quando se sente pequena e pecadora, e descobre que a sua força vem de alguém que está no meio dela.

- O cristão merece tal título, quando se converte e verifica que o importante não é empenhar-se muito na corrida, mas correr na direcção certa; não é fazer mais, mas comportar-se de forma diferente; não é tratar a salvação como um assunto pessoal mas como uma opção comunitária. Deus faz-nos crescer por contágio e toque pessoal: ser santo é colocar-se totalmente nas suas mãos e parecer-se cada vez mais com Ele.
 

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"Advento, tempo de estar presente,
de esperar alguém e de aprender a dormir"

(Mt 25, 1-13)

1. A literatura apocalíptica (revelação do oculto) ensina-nos a saber passar das mudanças circunstanciais deste mundo à estabilidade radical do Reino de Deus. A literatura escatológica (anúncio dos últimos tempos) conduz-nos da realidade presente à eterna. A parusia anuncia a presença permanente de Deus: apagar-se-ão todos os astros do universo, para darem lugar à Luz única e verdadeira.

2. A Palavra de Deus no Advento convida-nos a ir ao oftalmologista: temos de ver bem ao longe e ao perto, distinguir os sinais de Deus no nosso tempo e na nossa vida, não nos desorientarmos pelo caminho. O Espírito Santo fornece um subsídio extra de quatro dons: sabedoria, ciência, conselho e entendimento.

O Advento alerta-nos para o perigo das doenças modernas, a nível cristão: absorvemos demasiados anti-valores e estamos pesados e obesos, a nível espiritual; isso descontrola os níveis do colesterol, diabetes e tensão arterial da nossa santidade.

3. O cristão caracteriza-se por ser uma pessoa ágil e itinerante. Nem faz da terra sala de espera (só a pensar para o céu) nem local de estacionamento (só a viver das realidades terrestres). Actuamos no mundo, mas somos cidadãos de outra galáxia. Estamos à espera de alguém (o noivo promete demorar, mas não comunicou que faltaria ao encontro das bodas), e já o temos entre nós (mistério da incarnação e do Natal).  

4. Precisamos, então, de aprender a dormir. Ter insónias não é vigiar. Estar preocupados e viver em ambiente frenético não é estar ocupados e saber esperar. Necessitamos de uma boa dose de serenidade (não de nervosismo), de confiança (não de medo), de esperança (não de desânimo).

5. Cada um é protagonista da sua própria história. O encontro definitivo prepara-se com os encontros e os encontrões ordinários, que marcamos com os outros, os acontecimentos quotidianos, as opções pessoais, a força e o juízo da Palavra de Deus.

A almotolia tem de ter azeite de reserva, fabricado por nós e a horas. Ninguém nos substituirá na decisão suprema: a fidelidade não se improvisa. Não haverá transbordo ou trasfega de virtudes, à última hora.